Joana Ferraz

Criadora do "Traz um verso" e amante das ricas simplicidades.

A mente de Alberto Caeiro em 10 trechos de suas poesias

Uma seleção de versos para conhecer os temas e compreender a mente de Alberto Caeiro, o poeta da Natureza e heterônimo de Fernando Pessoa.


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Costumo dizer que Fernando Pessoa era Fernando Pessoas. Gosto desse trocadilho besta, mas muito verdadeiro. Sim, muito verdadeiro. Seus heterônimos são pessoas como eu e você. Eles têm data de nascimento e morte. Têm mapa astral – que o próprio Pessoa elaborava. Têm uma história de vida pessoal e um estilo único de escrita.

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Mas o que mais me impressiona é que eles são tão diferentes que chegam a ter pontos de vista contrários sobre o mundo. Enquanto um vangloria as máquinas e as construções, outro só encontra a verdade na Natureza do Ribatejo. Este último é o Alberto Caeiro, o pastor amoroso, o guardador de rebanhos, o poeta do não-pensar. Aquele que parece ter nascido de uma semente de erva do mato.

Para entender esse mestre, podemos imaginar que estamos aqui nessa vida, habitando esse planeta, e com isso criamos problemas demais. Procuramos muitas respostas para as nossas perguntas, o que só nos gera conflito. Desejamos demais o que não estamos vendo e assim perdemos o poder de desfrutar o que já estamos vendo.

Alberto Caeiro é a riqueza do mais simples. É uma ilha onde moramos e de onde tudo provém.

Selecionei aqui alguns trechos de alguns de seus poemas, com o intuito de conhecermos a mensagem desse loiro magrelo de olhos azuis. Um ser da natureza que não se considera mais que uma planta ou uma pedra. Que possamos ler, lendo. Sem mais perguntas, apenas vendo. Afinal, segundo nosso poeta, os pensamentos atrapalham demais o simples sentir.

1. No primeiro poema de seu primeiro livro, ele se apresenta como uma espécie de pastor que é um guardador da natureza.

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

2. A negação do pensar. Para ele, o pensar humano pode ser considerado superior aos pensamentos dos demais seres do mundo, mas também pode ser considerado inferior. Quem pode garantir que o nosso tipo de pensar é superior? Talvez esse mesmo pensamento nos atrapalhe a felicidade. "Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece não chover mais."

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.

Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.

Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;

E as plantas são plantas só, e não pensadores.

Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como sou inferior.

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3. Como diz um de seus versos mais famosos: Pensar é estar doente dos olhos. Para Caeiro, esses filósofos e esses místicos só podem estar doentes.

Há metafísica bastante em não pensar em nada.  

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

4. Você anda pensando demais por quê? Quando você pensa, você erra.

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

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5. O poeta critica o fato de termos construído Deus como uma figura, como uma pessoa que podemos encontrar. E diz que se esse Deus por nós inventado existisse, ele já teria aparecido. O Deus de Caeiro sim aparece, em muitas formas da Natureza - palavra escrita em maiúscula mesmo.

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e o sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

6. Mais uma vez não é preciso pensar, só a experiência é necessária. Afinal temos um corpo, um equipamento todo preparado simplesmente para isso.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.  

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

7. Alberto Caeiro considera que todo tipo de existência é a única realidade possível para nós. Um rio, uma planta, uma pedra, tudo existe e ponto. Não há motivos para que procuremos categorizar, destrinchar, graduar ou desvendar o mistério das coisas. Além disso, nada é mais ou é menos que qualquer coisa. É diferente. E isso não quer dizer nada. "Basta existir para se ser completo."

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.

Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.  

Ter consciência é mais que ter cor?

Pode ser e pode não ser.

Sei que é diferente apenas.

Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

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8. Esse estado de simples contemplação e vivência da natureza não é fácil de atingir. Caeiro coloca em seus versos a necessidade de uma aprendizagem de desaprender – o que podemos considerar como um avanço das arestas que nos foram aparadas por viver em sociedade.

Procuro despir-me do que aprendi,

Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,

E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,

Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,

Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,

Mas um animal humano que a Natureza produziu.

9. A crítica a todo tipo de pensamento: científico, filosófico, místico e até do pensamento poético é sempre um tema constante em seus versos livres. Ele resume essa saga da mente como a procura do mistério das coisas.

O mistério das coisas, onde está ele?

Onde está ele que não aparece

Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?

Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?

E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?

Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,

Rio como um regato que soa fresco numa pedra.  

Porque o único sentido oculto das coisas

É elas não terem sentido oculto nenhum.

10. Vamos finalizar não com um trecho, mas com um poema completo, o poema XXX de “O guardador de rebanhos” – livro que Fernando Pessoa escreveu de uma só vez, num rompante, depois de ter passado um tempo procurando definir Alberto Caeiro e ele finalmente chegou.

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.

Sou místico, mas só com o corpo.

A minha alma é simples e não pensa.  

O meu misticismo é não querer saber.

É viver e não pensar nisso.  

Não sei o que é a Natureza: canto-a.

Vivo no cimo dum outeiro

Numa casa caiada e sozinha,

E essa é a minha definição.  

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Joana Ferraz

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