Doroty Santos

Paulistana, bacharel em Letras. Secretária e aventureira no mundo dos escritos.

Deus não curtiu meu post

Os múltiplos posts direcionados a Deus acabam servindo como desabafos cibernéticos, são webdivãs. Eles têm a função de fazer com que nós, pessoas mortais, tenhamos momentos de alívio, mesmo que instantâneos, os deuses não tem nada a ver com isso.


Quando eu era criança me disseram que para falar com Deus era preciso ajoelhar-se, fechar os olhos, unir as mãos e proferir algo como: “Querido Papai do Céu,...”. Da adolescência para a fase adulta as coisas mudaram um pouco, me disseram que para falar com Deus eu teria apenas que fechar os olhos e conversar, normalmente, como se eu estivesse articulando com um amigo. Já Gilberto Gil diz que “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós; tenho que apagar a luz; tenho que calar a voz; tenho que encontrar a paz; tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios. Tenho que esquecer a data; tenho que perder a conta; tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus...”.

Há mais sentido nas palavras de Gil, afinal, falar com Deus não deveria ser um ato banal, contudo, para alguns é tão trivial quanto compartilhar um vídeo de um MC qualquer. Todos os dias encontramos uma mensagem direcionada ao Todo-Poderoso nas redes sociais: “Querido, Deus, obrigada por mais uma plantinha em meu jardim...”, “Deus, me ajuda...”, “Deus, olhai por nós...”. Pergunto ao Mark Zuckerberg: Deus está no Facebook?

O que há por trás dessa atitude? Será que essas pessoas realmente querem se comunicar com o Divino ou simplesmente desejam que seus amigos tomem conhecimento de seu desespero, ou de sua sorte? Afinal, as redes sociais servem para isso, para disseminar desde nossas angústias até nossos momentos mais felizes. Elas mostram o que estamos fazendo; como vivemos, se estamos mal, se estamos bem, se estamos revoltados, passados, desesperados, elas expõem nossas fraquezas. Os múltiplos posts direcionados a Deus acabam servindo como desabafos cibernéticos, são webdivãs. Eles têm a função de fazer com que nós, pessoas mortais, tenhamos momentos de alívio, mesmo que instantâneos, os deuses não tem nada a ver com isso. Os posts "abençoados" são um recurso para descarregar as emoções, embora algumas pessoas só acompanhem o movimento, outras depositam toda a sua esperança no retorno de uma curtida. O fato é que essa interação ocorre apenas entre os terráqueos, Deus está em outro patamar, penso eu. É preciso muito mais do que um post bem esboçado para interagir com o Criador.

Tudo é uma questão de decidir com quem nós queremos nos comunicar. Com o público, amigos, conhecidos, restritos? A opção “Todo-Poderoso” não existe na gestão de privacidade. Se eu quero falar com Deus, melhor partir para uma atitude mais profunda, como sugere Gilberto Gil. Deus é Onipresente, Ele está dentro de nós, está ao nosso lado, está no Universo, nos nossos corações, nas nossas mentes, porém, como mais um a ser adicionado no Facebook, acredito que não. Sejamos realistas, as redes sociais estão aí como uma ferramenta de exibição, elas são superficiais, corriqueiras, de vez em quando meio chatas; divertem, causam espanto, provocam discussões, reflexões, irritam, porém, tudo isso acontece em um campo incerto, pouco profundo. Assim, a que conclusão podemos chegar quando uma pessoa compartilha um post direcionado a Deus? Ela quer ser vista. Que ser vista por Deus? Não. Ela quer que o outro e o amigo do outro e o amigo do amigo do outro olhe para ela e compartilhe das suas emoções. Nesse caso, é melhor que essa pessoa esteja preparada para encarar a realidade, pois, embora tenhamos centenas e milhares de gente adicionada às nossas redes, estamos mais sós do que nunca. Deus realmente está mais capacitado para preencher o vazio que paira sobre nosso modo de vida vil, mas, infelizmente, acabamos depositando a nossa esperança na inconstância de uma curtida.

É assim que vivemos nos dias de hoje, reduzimos nossa relação com Deus e com o outro a uma mera postagem, a algo que vai passar como um furacão, que não vai durar, algo que logo será encoberto porque virá outro por cima, e outro, e outro. Algo que você vai olhar, vai se conectar por cinco segundos e depois não vai mais dar a mínima. Não há lugar para Deus nas redes sociais, nem para nós mesmos. O que ocorre é que estamos presos à fragilidade de uma vida moderna; uma vida contemporânea, porém, oca. E assim vamos vivendo, sem Deus, sem o outro, sem nós mesmos, apenas na companhia de insignificantes posts, que querem dizer alguma coisa, porém, não se sabe o que, e nem a quem.


Doroty Santos

Paulistana, bacharel em Letras. Secretária e aventureira no mundo dos escritos..
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