Doroty Santos

Paulistana, bacharel em Letras. Secretária e aventureira no mundo dos escritos.

Selfiessismo: arte de tirar foto de si mesmo com o intuito de crescer e aparecer

Passado o furor das primeiras curtidas, lá está ela de volta, a desgraça de não saber lidar com os próprios sentimentos.


HAMPSTEAD_261008-038_CPS_(4105245939).jpg One of the few pictures you will see of me! Fonte: HAMPSTEAD 261008-038 CPS. Autor: Chris Sampson

Wikipédia explica: "Selfies são muitas vezes casuais, normalmente, tomadas com uma câmera segura ao comprimento do braço ou num espelho, e normalmente incluem apenas o fotógrafo ou o número de pessoas que pode estar em segundo plano.". Interpretação interessante, porém, o fenômeno das selfies vai além dessa simples e objetiva elucidação. Empiricamente, as selfies são como remédio àqueles que sofrem da necessidade de serem notados. É o mal do século. Estou aqui e quero ser visto. Eu existo. Contudo, não podemos generalizar. Algumas pessoas usufruem desse modismo de um jeito saudável, entretanto, outras se relacionam com a ideia de aparecer para o mundo de maneira a ater a realidade e a fantasia no mesmo patamar, arruinando, assim, o mínimo de bom senso que possa existir.

Nos tempos em que apenas um grupo seleto se destacava porque saía em alguma revista ou aparecia na televisão, as prioridades eram diferentes. A maioria das pessoas se preocupava com o que as rodeava, com quem estava perto.Talvez, naquela época, houvesse mais amor, por nós mesmos e pelo outro. Hoje, o que nos habita é um sentimento de vazio, simplesmente pelo fato de estarmos vivendo na superfície das emoções.

Não há mais distinção entre o que estamos sentindo ou o que estamos fazendo. Posso estar infeliz, mas, se mostrar uma cara de contente, pronto, como em um passe de mágica, a infelicidade se vai, pelo menos por alguns instantes ou algumas curtidas.

Passado o furor das primeiras curtidas, lá está ela de volta, a desgraça de não saber lidar com os próprios sentimentos. Ainda bem que, à medida em que o tempo passa, a tecnologia aperfeiçoa a capacidade de armazenamento das câmeras, afinal, as angústias e inseguranças precisam de espaço para serem guardadas e depois mostradas e remostradas a qualquer momento, claro que através da máscara do Smile.

Smile-Wallpaper-8.jpg

Em um mundo de aparências, as emoções são perversamente sufocadas, não há válvula de escape, o que parece suprir nossos anseios é, na verdade, o monstro que engole nossos sentimentos e reprime toda e qualquer tentativa de reação. Estamos presos a um mundo ilusório no qual não existe um campo de onde possamos emergir para o real. É aqui, na idade das selfies que vamos caminhando por frívolas estradas, sem direção, sem solução, sem salvação.

E, assim, as caras e bocas vão se proliferando; o olhar sensual, o corpo sarado, o cabelo perfeito, tudo isso vai tomando conta de nossas vidas, gerando um turbilhão de nada. A vaidade está no topo, não há outra razão para viver, ser visto é o que importa. A selfies acabam por substituir toda e qualquer expressão mais consistente que a vida possa oferecer.

A esperança é que existem seres que ainda anseiam por uma realidade significativa. Pessoas cujas vidas não estão pautadas em um momento gélido e instantâneo, gente que chegou à libertadora conclusão de que há vida além das selfies.


Doroty Santos

Paulistana, bacharel em Letras. Secretária e aventureira no mundo dos escritos..
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