a psicologia do cinema

Desvendando os seus vilões favoritos!

André Dias

André Dias é acadêmico de Psicologia da Fundação Universidade Regional de Blumenau. Apaixonado por filmes, decidiu revelar ao mundo os segredos dos maiores vilões do cinema - aqueles segredos que eles não querem que você saiba...

Análise Psicológica de Andrew Daniels de A Ilha do Medo (Shutter Island)


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“O paciente é inteligente: um veterano de guerra condecorado e delirante; presente na libertação de Dachau. Ex delegado federal. Tem propensão a violência; não tem remorso pelos seus crimes pois nega que eles aconteceram. Altamente desenvolvido, com narrativas fantásticas, o que impede que ele veja a verdade de suas ações.”

Essa é a descrição dada a Andrew Laeddis, personagem principal do filme Shutter Island (Ilha do Medo) em seu prontuário médico. Porém a história do personagem vai muito além disso e é mostrada num longa de tirar o fôlego. Prontos para desvendar os segredos por detrás de mais um dos personagens mais intrigantes do cinema? Então mãos à obra!

No início do filme o personagem aparece como um delegado federal, com o nome de Teddy enviado com um novo parceiro chamado Chuck para investigar uma ilha que abriga um grande hospital psiquiátrico. Ao desembarcarem na ilha os mesmos são recebidos pelos guardas, que parecem um pouco apreensivos com a presença deles. Logo eles são avisados que podem percorrer toda a ilha, menos o Bloco C e faz-se pouco caso de um farol que é constantemente vigiado por pelo menos um soldado.

Porém tudo não passa de um enorme psicodrama. Psicodrama é uma encenação realizada como terapia psicológica, geralmente em psicoterapia de grupo geralmente com o objetivo de mostrar para os outros membros como uma pessoa enxerga determinadas ações ou o que ela espera receber quando ela mesma encena o outro. No caso foi utilizado um psicodrama muito mais complexo, de forma que todos os funcionários acabaram participando. Isso explica a apreensão dos guardas perto dele no início ou o fato de uma das enfermeiras ironizar quando questionada por Andrew se ela não havia visto nada de anormal pedindo que ele definisse anormal, já que ele mesmo não passava de mais um louco.

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Andrew Laeddis foi um ex combatente da segunda guerra, onde acabou traumatizado após participar da libertação do campo de concentração de Dachau. As pilhas de corpos subnutridos esperando para serem queimados ou enterrados, nas quais constavam homens e mulheres passaram a atormentar o veterano durante suas noites de sono. Isso também parece tê-lo tornado um homem violento. Sua frieza ao deixar um oficial da SS morrer lentamente após ter falhado na sua tentativa de suicídio é um exemplo da sua mudança de comportamento.

Após deixar o exército ele ingressa na carreira policial, se tornando um delegado de polícia. Aparentemente ausente, o mesmo é pai de três crianças com uma jovem chamada Dolores Chanal. Dolores era maníaca-depressiva acaba enlouquecendo com o tempo e um dia, quando Andrew chega em casa após uma longa perseguição encontra a mesma sentada à beira do lago que havia atrás de sua casa. A mesma estava completamente molhada e ao se aproximar avista o corpo de seus filhos no lago. Sua esposa os havia afogado em meio à sua insanidade. Inconformado Andrew atira e acaba matando Dolores.

Incapaz de aceitar a realidade, ele acaba desenvolvendo uma linha de raciocínio diferente, passando a ser outra pessoa: Edward Daniels, um condecorado agente federal. Andrew Laeddis agora era um monstro, um incendiário que foi responsável pela morte de sua esposa após atear fogo em seu apartamento. E era atrás de Laeddis que ele estava quando foi para a ilha. Para ter sua vingança. Porém a realidade começa a vir à tona. Suspendida sua medicação (clorpromazina) o mesmo começa a sofrer diversos efeitos colaterais, como tremores, enxaquecas, vômitos e alucinações cada vez mais fortes. Aos sintomas ele atribui uma causa fantasiosa, onde afirma para sí mesmo que os cigarros estariam o drogando e o fazendo ter todos os efeitos colaterais da abstinência de medicação.

O fogo e a água tomam um papel de destaque na trama. Suas alucinações e a piora do seu quadro sempre são marcados pela presença do fogo, que aparece consumindo todo o ambiente e tornando tudo ao seu redor em cinzas. Quando a água esta presente, é sinal de que ele está recobrando aos poucos a sua própria sanidade. Diante disso o mesmo vive uma verdadeira odisséia dentro do hospital.

Andrew Laeddis é esperto, imaginativo e totalmente paranóico. Seu transtorno esquizo-paranóide o faz delirar, criando histórias totalmente mirabolantes reforçadas por alucinações que sempre vem a confirmar as suas suspeitas. Seu comportamento é agressivo sempre que qualquer um tente trazer a verdade à tona, o que o levou a agredir diversos membros da equipe de enfermagem, seguranças e pacientes. O mesmo possui treinamento militar e uma mente astuta, o que o torna o paciente mais perigoso da ilha. Quanto ao seu distúrbio podemos atribuir a causa como um transtorno de stress pós traumático (TEPT) da guerra, seguido de alcoolismo. A paranóia e a esquizofrenia aparecerão somente após a morte de seus filhos e esposa.

Ao final do psicodrama o mesmo acaba retornando a realidade, tendo plena consciência de seus atos. Sua história de vida o atormenta mais do que nunca. Caso o tratamento não fosse efetivo o mesmo seria submetido à uma lobotomia, ou seja, os médicos fariam uma cirurgia para retirar uma parte do cérebro de Andrew para que o mesmo deixasse de ser tão agressivo. Após o procedimento ele provavelmente ficaria totalmente passivo, vegetando para o resto da vida sem consciência de sí.

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O final do filme divide algumas opiniões, onde alguns discutem se ele ainda estava paranóico ou não. Na minha opinião o mesmo já estava curado, porém finge ainda estar doente com o objetivo de ser lobotomizado na esperança de escapar do seu destino de uma vez por todas. Isso demonstra a personalidade forte do personagem, com um senso de moral arraigado e o peso da culpa que o impedia de seguir adiante. E é esse carisma que faz de Shutter Island um dos filmes mais intrigantes do cinema, que te deixam de queixo caído quando fazem ver a trama virar do avesso nos últimos minutos do filme.

Espero que tenham gostado da análise. Fiquem de olho nas próximas postagens e deixem seus comentários e sugestões para os próximos personagens!


André Dias

André Dias é acadêmico de Psicologia da Fundação Universidade Regional de Blumenau. Apaixonado por filmes, decidiu revelar ao mundo os segredos dos maiores vilões do cinema - aqueles segredos que eles não querem que você saiba....
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