a psicologia do cinema

Desvendando os seus vilões favoritos!

André Dias

André Dias é acadêmico de Psicologia da Fundação Universidade Regional de Blumenau. Apaixonado por filmes, decidiu revelar ao mundo os segredos dos maiores vilões do cinema - aqueles segredos que eles não querem que você saiba...

Norman Bates Introdução - Norman e Norma: A Encarnação do Édipo Freudiano

Norman Bates com certeza é um dos personagens mais enigmáticos do cinema. Sua relação com sua mãe, Norma Bates e sua patologia são um enigma que desafiam até hoje desde curiosos até os psiquiatras. Esta é a primeira parte de uma análise da sua personalidade, que passará desde sua infância até a vida adulta, concluindo com um bônus sobre Ed Gein, o psicopata que inspirou Hitchcock. Nesta primeira etapa será apontado o pontapé das patologias que rondam a família Bates à luz do conceito do Édipo Freudiano.


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Como todos sabem, cinema e psicologia possuem uma forte ligação, pois a arte e a vida vivem numa confusa relação, de modo que uma não é capaz de existir sem a outra, como já nos apontava Nietzsche. Nesta série, pretendo analisar o perfil psicológico dos grandes vilões do cinema e da vida real, de forma que seja possível entender como aquele jovem inocente com cara de mocinho pode se tornar um monstro sem escrúpulos ao longo da história. O mais interessante será mostrar como essa realidade não passa longe da nossa própria psiquê (e enchendo vocês de spoilers hahaha). Então, mãos à obra!

O primeiro personagem sobre o qual me debruçarei será Norman Bates, protagonista do lendário "Psicose" (Psycho) de Hitchcock. A trama, datada da época de 60 parece ser mais um velho filme sem efeitos especiais de qualidade e monótono, afinal não passa de mais um filme em preto e branco. Era o que eu pensava. Após assistir o seriado Bates Motel (sobre o qual falarei futuramente), que retrata a vida do jovem Norman durante sua adolescência utilizando elementos do enredo original, percebi o grande potencial da trama em relação ao conteúdo psicológico que carrega. Após comentários sobre a mesma em minhas aulas de psicanálise, resolvi assistir o filme original. Não consegui desgrudar os olhos da tela. Para minha surpresa, Hitchcock era realmente um gênio do suspense (Parabéns André! Ninguém jamais pensaria nele dessa forma se não fosse por você). A trama é extremamente bem construída e te prende do início ao fim num suspense composto de personagens bem elaborados com cenas sem delongas, sem mimimi, sem cadeiras que balançam do nada ou janelas que se batem. O terror psicológico vem do fato de você não saber do que cada personagem é capaz; aliás depois você percebe que não sabe nada sobre nenhum deles, o que deixa o espectador totalmente a mercê da trama.

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Quanto a personalidade de Norman e de sua mãe Norma, por serem extremamente complexas dividirei este artigo em partes:

Introdução: Norma & Norman: A encarnação do Édipo Freudiano

Parte I Infância de Norman: Você é tudo para mim e eu sou tudo para você

Parte II Adolescência de Norman: Você é uma garotinha, Norman! Por isso não pode me desejar!

Parte III Bates Motel

Parte IV Vida adulta: "Yes, mother"

Bônus: Um pouco sobre Ed Gein, o assassino que inspirou o cinema

Vamos então discutir a relação entre Norman e Norma Bates, o que servirá de prelúdio para compreender a trama. Apresentarei os fatos segundo os filmes da sério Psycho e, como acabei de mostrar, farei uma parte falando sobre a série Bates Motel, uma vez que a mesma não pertence a série de filmes original e apresenta algumas alterações no enredo. Norma Bates é uma personagem intrigante. Uma jovem mãe solteira que cria seu filho Norman num motel à beira de uma rodovia que no decorrer da série deixa de ser rota principal devido à um desvio, o que faz seu empreendimento ir de mal à pior num piscar de olhos. Até este ponto tudo parece normal. Porém ao analisarmos melhor a vida de Norma Bates durante a trama, veremos na mesma e nas suas relações diversas problemáticas que irão influir na personalidade doentia de seu filho, a começar pelo próprio nome.

A proximidade do nome é intencional; Norma e Norman são tão próximos que chegam a parecer uma única pessoa. Este tipo de relação entre os dois é que dará margem para a psicose de Norman. Uma vez que Norman era tudo para sua mãe, que nesta altura estava sozinha no mundo, ela também era tudo para ele. A relação de ambos pode ser considerada incestuosa, uma vez que podemos considerar o incesto como uma relação parental em que não são definidos os limites de cada pessoa da relação. Ou seja, Norma e Norman se confundem, como se um fosse extensão do outro; este comportamento tomará forma nítida no comportamento psicótico de Norman, que nunca superará sua mãe, levando ela consigo em um quadro patológico onde ele não é capaz de discernir sua personalidade de sua própria mãe.

Psycho-still.jpg Um ponto forte da trama, que tomará maior ênfase na adolescência de Norman será o édipo que existe na relação entre os dois. Reza a lenda grega que o oráculo de Delfos havia previsto que o filho do rei mataria seu pai e casaria com a mãe. O rei imediatamente manda matar a criança, que acaba vivo graças à piedade do carrasco. Anos mais tarde esta criança, agora chamado Édipo se tornará um exímio guerreiro que comandará tropas contra o rei grego. Assim Édipo mata seu pai biológico e desposa a rainha sua mãe e cumpre a profecia. Ao ser informado que era filho biológico do rei e de toda a profecia, Édipo enlouquece e fura seus olhos, decidindo vagar pelo mundo até cumprir sua pena. Na psicologia Freud aponta um processo conhecido como Complexo de Édipo, no qual as crianças tendem a se identificarem mais com o genitor do sexo oposto e rivalizar com o do mesmo sexo. Faz então uma analogia onde existem etapas de processos onde, por exemplo, o menino deveria matar simbolicamente o próprio pai para se constituir homem; há um simbolismo de matar os pais, por exemplo ao sair de casa e se tornar alguém que viva por sí e não mais uma extensão de outra pessoa.

Norman Bates nunca teve êxito neste processo. Embora sua relação com sua mãe fosse conturbada em alguns momentos, podemos ver o mesmo agindo de forma servil na cena seguinte. Norman jamais superou sua mãe em nenhum sentido. Mesmo após a morte da mesma ela continuava viva para ele, influenciando seu comportamento com ordens diretas do que ele deveria fazer. Sua mãe sempre possuiu um comportamento extremamente agressivo e autoritário, realizando punições diversas que acabariam por impedir que Norman pudesse superá-la. Norma Bates era uma mulher forte, ferida pela vida e que teve de criar seu filho sozinha, gerindo um motel falido no meio do nada. Era um mulher tão forte que tornou impossível a missão de Norman de se tornar um adulto completo, livre do jugo parental e ciente de sí e de sua própria identidade.

Devido ao pouco contato com outras pessoas, Norman acaba por ficar preso num círculo familiar que é patológico; a falta de relação com outras pessoas contribui muito para que sua personalidade seja moldada apenas pela sua mãe, sua única família. O comportamento ciumento da mãe em relação a Norman também agravará o processo, impedindo que o mesmo canalize seus desejos sexuais para qualquer pessoa se não sua própria mãe. Norma, por outro lado, parece ter uma vida mais ativa ao ponto de encontrar um novo amante. E é neste momento que toda a atividade psicótica de Norman tomará forma... Esta é apenas a primeira parte que servirá como introdução para a série. No próximo artigo, falarei mais sobre a infância de Norman e porquê ela foi fundamental para a construção da sua personalidade.


André Dias

André Dias é acadêmico de Psicologia da Fundação Universidade Regional de Blumenau. Apaixonado por filmes, decidiu revelar ao mundo os segredos dos maiores vilões do cinema - aqueles segredos que eles não querem que você saiba....
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