a vida é relativa

“No mundo nada é verdade nem mentira: tudo depende da cor do cristal com que se mira.”

Rafaela Silva

Estudante de Administração. Devoradora de livros. Apaixonada pela vida, louca pelas palavras.

Em terra de Bentinho, todas somos Capitu

Existem três tipos de pessoas: As que defendem Bento Santiago, as que defendem Capitu e seus olhos de ressaca, e as que nunca leram Dom Casmurro.


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Machado de Assis deixou-nos uma dúvida eterna, afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Seria Bentinho uma pessoa com desordem mental, que se deixava levar pelas impressões, ou realmente Escobar fora-lhe infiel, dando cabo a sua amizade?

Questionamento em eterna em ebulição, como um líquido que nunca derrama, e que não cessa o subir e descer até a borda do recipiente que o comporta. É assim a dúvida cruel que assola o corações dos leitores de Dom Casmurro.

Temos vários defensores de Bento Santiago que juram de pés juntos que Capitu cometera adultério. Poucos defendem-na.

Bento Santiago conta com inúmeros porta-vozes em seu favor. Mas, e quanto a Capitu? E quanto a nós?

Capitu fora uma mulher em tempos mais machistas que os dias atuais. Se hoje, nós mulheres, já somos estereotipas, rotuladas e julgadas apenas por sermos mulheres, imaginem só na época em que se desenrola o romance.

“Mulher não pode isso...” , “ Mulher não pode aquilo...”, “Lugar de mulher é em tal lugar...”

Que mulher nunca se sentiu oprimida pela sociedade machista em que vivemos, atire a primeira pedra. Quem nunca se sentiu inferiorizada e tratada como sexo frágil? Quem nunca quis gritar ao mundo que sua feminilidade não é sinônimo de fraqueza?

Mas que mulher nunca soube que suas palavras não seriam ouvidas, e se ouvidas não seriam respeitadas!

Ainda hoje mulheres recebem salários inferiores aos homens em cargos semelhantes. Tem pouco acesso a política. Poucas mulheres ocupam cargos de chefia.

Em grande parte somos tratadas como Capitu, tidas como devassas, errantes e tresloucadas. Circula na sociedade um discurso de igualdade entre homens e mulheres, tratamentos igualitários e coisa e tal. Mas na prática, ocorre quase sempre o contrário.

Nossos gritos ecoam mudos.

Já tivemos um grande avanço, mas o caminho ainda é longo e a estrada é cheia de obstáculos.

Maria Joaquina era "A Louca", Alexandre era "O Grande". Em resumo, desde tempos remotos, homens são exaltados e mulheres inferiorizadas. Com Capitu não foi diferente. É triste saber que, ainda, em terra de Bentinho, todas somos Capitu.


Rafaela Silva

Estudante de Administração. Devoradora de livros. Apaixonada pela vida, louca pelas palavras..
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