Vinicius Oliveira Sanfelice

Os muros são discursos caducos

Os muros são as contradições estéreis do discurso político. Todo muro em construção demanda a interpretação da sua possibilidade real e simbólica - elas não são distintas. A intencionalidade é um construtor meticuloso, ergue as palavras mais duras e os convites mais arriscados.

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A construção do muro de Berlim, em 13 de agosto de 1961, deu materialidade aos discursos sobre uma cortina de ferro que dividia a Europa. Winston Churchill afirma em 5 de março de 1946: “From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic an iron curtain has descended across the Continent”. Entender o muro como mero símbolo físico de uma divisão é empobrecê-lo. É adotar um ponto de vista em que a história está sendo contada com uma objetividade pálida, uma arqueologia guiada por um presente neutro. É admitir que a erosão do muro possa derrubar o que nele não é físico, arruinando sua história.

É claro que o muro de Berlim simboliza muitas coisas, e por isso foi preciso derrubá-lo. Uma compreensão do que ele representa, no entanto, pode elevar uma ideia da retórica para o entendimento da capacidade de reconstruir lugares de narração. O muro possui uma arquitetura e tem intencionalidade. Se é possível levar uma figura de linguagem à realidade entenderemos porque Aristóteles diz que as metáforas põem sob os olhos. Duas noções guiam esse texto: a de representação em arquitetura e a de construção/habitação (fenomenológica).

Em Como os edifícios representam, Nelson Goodman afirma que para um edifício ser considerado uma obra, ele deve, de alguma forma, significar, representar, referir, ou simbolizar. A representação em jogo aqui pode ser a dos edifícios que representam por meio de uma parte de sua materialidade (mosaicos em igrejas) ou pelo todo, como a Opera House de Sydney, que parece reproduzir um veleiro. Goodman acredita que a exemplificação é a forma principal de representação dos edifícios:

Um edifício pode exprimir um sentimento que não é capaz de sentir, ideias que não pode pensar ou afirmar, ou atividades que não consegue executar. Que a atribuição, em tais casos, de certas propriedades a um edifício é metafórica não decorre meramente do facto de ser literalmente falsa, pois a verdade metafórica é tão distinta da falsidade metafórica quanto a verdade literal o é da falsidade literal. Uma catedral gótica que eleva e exalta não é capaz de abater e resmungar. Apesar de ambas as descrições serem literalmente falsas, só a primeira é metaforicamente verdadeira. A exemplificação é a referência que um edifício faz a propriedades por ele possuídas literal ou metaforicamente, mas a exemplificação de propriedades possuídas metaforicamente é aquilo a que habitualmente chamamos “expressão” (Arte em Teoria, tradução Vítor Moura).

O muro de Berlim, neste vocabulário, exemplificaria literalmente a propriedade de divisão entre dois territórios, e também expressaria, isto é, exemplificaria metaforicamente, o impedimento e a possibilidade de trespassá-lo. No entanto, se a divisão é apenas uma consequência do muro e não uma propriedade intrínseca, Goodman poderia desconsiderar o edifício enquanto obra de arquitetura. É menos relevante se o muro configura-se como obra, mas se, enquanto edifício, ele representa.

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[Olhe essas fotos da revista Life]

A predicação bizarra contida no muro é uma estrutura própria ao enunciado metafórico. O aspecto formal do muro é semântico, a sua referência metafórica é todo o escândalo que lemos na sua história. Cabe avançar na compreensão do muro como divisor de visões de mundo, pensá-lo como (impedimento de um) horizonte de significação. A primeira fissura no muro deve surgir da evidência de precariedade da representação – é a partir de uma fenomenologia da visibilidade que podemos compreender mais do que representamos.

Em Arquitetura e narratividade, Paul Ricœur relaciona memória e habitação utilizando sua teoria mimética para aproximar narrativa e arquitetura; Afirmando a ligação entre a temporalidade da narrativa e a espacialidade da arquitetura na configuração de ambas: a primeira entendida como uma inscrição no tempo e a segunda como uma edificação do material no espaço. O tempo da narrativa configurando a vivência do passado (memória) e o agora. O espaço construído como lugar de vida e como espaço cartesiano/geométrico.

A tríplice mímesis narrativa opera em três níveis complementares: pré-figuração, configuração e refiguração. Ao primeiro, pré-narrativo, exigência de constituição do mundo da vida, corresponde espacialmente a necessidade do homem construir e habitar este mundo. O segundo, propriamente narrativo ou literário, é um colocar em intriga que configura uma trama, ordenando acontecimentos, o que inclui as transformações (a peripécia);  A configuração de uma trama fornece inteligibilidade para a história narrada e a integrando com outras em uma intertextualidade.

O paralelo que Ricœur estabelece é entre a síntese temporal do heterogêneo, na configuração, e uma síntese espacial presente na arquitetura: “Uma obra arquitetônica é, dessa forma, uma mensagem polifônica oferecida a uma leitura ao mesmo tempo englobante e analítica”. O ele está afirmando é uma analogia entre narradores e construtores, entre suas configurações – a duração do tempo incluída, agora, na dureza da matéria.  

É no nível da intertextualidade, das tradições transformadas pela dialética de inovação e sedimentação, que encontramos uma reflexão sobre a destruição e a reconstrução das ruínas do século. A reflexão considera, como em Goodman, a obra de arquitetura também a partir de sua constituição estética. Podemos perder de vista que os muros são uma impossibilidade da habitação e que não devem perdurar no tempo – que o homem deve arruinar os muros conservando na ideia de obra seu componente utópico.

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Finalmente, a refiguração narrativa corresponde ao ato de leitura, à recepção da obra e a compreensão de si que ela possibilita. Revela-se que habitar é uma resposta humana, uma réplica ao ato de construir. E habitar é relacionar-se no presente com as inscrições do passado. É sobre a construção do lugar de memória que a intertextualidade espacial torna possível: “o objeto construído como um texto literário, este trabalho é uma exigência da vida que não é possível realizar sem um trabalho de dolorosa despedida”.

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*Em 1987, Reagan discursou contra o muro: "Agora há pouco, enquanto eu olhava o Reichstag, a corporificação da unidade alemã, notei palavras toscamente pintadas com spray no muro, talvez por um jovem berlinense, 'Este muro vai ruir. Crenças se tornam realidade'. Sim, por toda a Europa este muro vai cair, pois ele não pode resistir à fé nem à verdade. O muro não pode resistir à liberdade".

Espera-se que em 2017 outro republicano não faça da retórica barata uma ofensa à liberdade.


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