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Ivens Sollohandd

Alguém ainda está falando da Fabíola

Entenda como o caso da Fabíola pode nos fazer refletir muito sobre como somos facilmente arrebatados por pequenas tragédias de vidas alheias e histórias esdrúxulas que viralizam rapidamente e se tornam o principal assunto da sociedade.

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Fui um dos que fizeram piada do caso Fabíola (Não sabe do caso? Pera aí que eu vou lhe ajudar - Clica AQUI), mas fiz isso da mesma maneira que faço piada da vida (grande parte das vezes, da minha própria). Percebi que esta história abriu precedente para uma discussão sobre o machismo da sociedade, algo que concordo em grau, gênero e número, mas li muitas análises e opiniões simplórias, que se limitam ao que estava ocorrendo naquele momento, e excluem questões muito mais aparentes que precisam ser levadas em consideração e que, creio eu, explicam muito o porquê de o vídeo ter viralizado com tanta facilidade e velocidade e a Fabíola ter sido a mais lembrada da história toda. Creio que também ajudará você a analisar outras histórias que viralizaram e outras que ainda irão chegar no seu grupo de WhatsApp. Para começar deixo clara a minha opinião sobre o assunto:

Culpa

A culpa é de ambos, Fabíola e Léo (nem sabia que o nome do gordinho era esse, não é mesmo?). Já diz o meu novo ditado - "Quando um não quer, dois não transam. Se transaram foi estupro e isso é crime."

Era uma traição consensual, isto ficou claro pelos os "outros vídeos" do casal adúltero que também vazaram. Repetindo: A culpa é de ambos. Fato. Ambos sabiam do risco que corriam com a traição e sabiam também das complicações que iriam causar à toda família caso fossem pegos. Aí é uma simples história de egoísmo (só pensar no prazer pessoal) e imaturidade (que não tem a ver com idade, mas a capacidade de encarar responsabilidades e abrir mão do benefício imediato em nome da família ou de algo mais recompensador no futuro). O marido estava errado ao bater nela. Não pelo fato de ser um homem batendo em uma mulher, mas pelo fato de ser um ser humano praticando violência a um outro. Deixando bem claro, se fosse o contrário, uma mulher batendo em um homem adúltero, seria errado da mesma maneira. Neste ponto somos bem hipócritas. Pronto, opinião geral exposta, agora vou mostrar uma análise um tanto quanto diferente, algo que muito provavelmente se deu pelo fato de eu ser um roteirista e profissional da área audiovisual.

1 - O ponto de vista.

As pessoas não se atentaram que o ponto focal da história mostrada pelo vídeo não era a traição de ambos, mas sim a traição da Fabíola. Era a visão do marido traído pela esposa e não do concunhado traído. Léo saiu nos créditos desta história como "Gordinho Safado" porque ele era um coadjuvante com pouco destaque. Era somente necessário para dar consistência ao enredo, afinal que graça teria se não houvesse os dois no flagrante? Todos os atores fundamentais precisam estar em cena, certo?

2 - A profundidade da relação entre as personagens da história.

Mesmo que todos fossem "parentes", há níveis diferentes na profundidade de relacionamento. Pense na sua família. Você a ama? É muito provável que a resposta imediata seja "SIM", mas levou em consideração seus primos? Sobrinhos? Cunhados? Cunhadas? Sogros? Tios-avôs? Nem deve ter pensado em todos, certeza. O que lhe afetaria mais: uma desavença com sua mãe ou com o seu primo? É impossível colocar a relação afetiva de um concunhado em pé de igualdade com o de uma esposa (o), mas as pessoas fizeram isso. O concunhado é o esposo da sua cunhada. Complicado até mesmo de explicar, não acha? Esposa é a pessoa com quem jurou amar e construir um lar, o cúmplice de vida. É obvio que a raiva maior seria direcionada para ela. A Fabíola era a pessoa com quem ele acordava todos os dias. Temos aí a tensão principal na qual a história se desenrolou.

3 - O tom novelesco e contexto do vídeo.

Com mais algumas câmeras profissionais, luz e direção, esse vídeo poderia ser uma cena de uma novela da Globo (ou do SBT). O que viralizou não foi apenas o vídeo do flagra, foram outras coisas: O vídeo, os vídeos da traição consumada, fotos da família da Fabíola (Esposo, filho pequeno e outro ainda na barriga) e, muito importante, todos felizes e sorrindo. Uma família que é vendida pela mídia e que quase todos nós sonhamos ter algum dia. Também foram compartilhadas fotos da grande família (O esposo traído, a Fabíola, o Léo, a esposa do Léo - irmã da Fabíola - e outros parentes), e até mesmo um organograma para ficar mais fácil entender a relação de parentesco entre os envolvidos. Fomos manipulados a ter raiva da Fabíola, assim como somos levados a ter raiva de um vilão na novela e sentir empatia pelo mocinho. Em momento algum foi mostrada a família do Leo (filhos e esposa como em um comercial de margarina). Aprendemos todo o contexto por trás da traição e todos os envolvidos em primeiro e segundo graus, o que nos leva para o próximo item.

4 - Questões culturais e religiosas.

A grande maioria brasileira é cristã (católica ou protestante) e a família - e a moral (que pouca gente sabe o que realmente é - quem sabe em outro texto?) são pontos centrais da nossa sociedade. Algo sagrado, tanto que o lema de vários políticos e partidos é "Em defesa da moral e da família". Então, levando em conta o item anterior, a Fabíola mexeu com algo sagrado. O que sobrou para ela? A crucificação pública. O Léo só era o pegador, já que a sua esposa ou família não foram evidenciados no que foi compartilhado. Deixando a sua culpa mais leve por falta de evidências contundentes.

5 - O tom cômico.

Os filmes de comédia são os mais populares (mesmo não sendo os mais premiados) e temos vários fatores que definem o tom cômico da história.

- Temos um narrador nesta história, que por um acaso também é o cameraman. Os seus comentários são muito sarcásticos e levam muitos a darem risada.

- O sotaque mineiro é algo peculiar para quem não o tem e mesmo frases tristes ficam engraçadas quando finalizadas com um sonoro "ô, sô", algo recorrente neste vídeo.

- O amante é um gordinho e a nossa sociedade vê as pessoas acima do peso como figuras caricatas. Pense nos personagens de novela ou filme, não é difícil de lembrar um personagem cômico com uma silhueta avantajada.

6 - Os atores, seus papeis e suas ações.

Temos diferentes tipos de personagens:

A - O marido traído em fúria.

A sua raiva sendo direcionada ao carro, a sua mão cortada, o seu discurso para o "amigo", o seu discurso para a esposa e até mesmo a sua agressão praticada na esposa (cenas de briga com embate físico geram grande repercussão e audiência nas novelas).

B - O narrador que nos conduz pela a ação.

Ele evidencia os culpados e foca a câmera na Fabíola, mas em determinados momentos busca o Léo e o coloca como agente passivo da ação.

C - Léo, o "gordinho pegador".

A sua primeira aparição em cena é com uma face de completo pânico. Quase não fala e é totalmente passivo, o que facilita de não ser muito lembrado a não ser pelo simples fato de estar acima do peso, o que lhe rendeu o apelido de "gordinho safado", da mesma maneira que muitos personagens da Praça é Nossa ou do antigo Zorra Total eram lembrados por suas características físicas ou bordão, mas não pelo nome.

D - Fabíola, a mulher que escolheu o prazer carnal e o adultério ao invés da própria família perfeita.

A câmera a procura a toda hora, ela também não fica passiva. É a única que tenta acalmar a fúria do esposo. O fato de ser "gostosa"- sabido por conta do vídeo da traição consumada - a fazem ser a segunda atriz principal da cena, o marido é o principal pelo que faz, e não por quem é. Por isso é lembrado simplesmente como "O marido traído", enquanto Fabíola, bem... todos já sabem o seu nome e rosto.

Finalizando: Fomos munidos de todos os ingredientes para Fabíola ser a vilã da história sem nem mesmo percebermos - e creio que a história tomou esta forma de forma não pensada, "acidental". O vídeo viralizou e a Fabíola teve a sua vida arruinada por outros fatores além do machismo da nossa sociedade. A história da Fabíola é um pequeno recorte de uma telenovela, uma verdadeira esquete tragicômica em que os ingredientes principais para a apreciação pela massa estão presentes: 

Enredo.

Contexto.

Humor.

Atores.

Sexo.

Violência.


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