aceita um café

Uma pausa para reflexão em meio a um cotidiano frenético

Renato Oliveira

Romântico em tempos de crise, que tem na noite a sua melhor companhia. Já sonhei muito com a Scarlett Johansson, mas hoje me contento com um coração sincero.
Ainda insisto em crer que o romantismo não está para mulheres como um vestido novo, arrasador, mais que uma vez usado, perde o charme.
Já experimentei de tudo dessa vida, não o bastante para acreditar em finais felizes.

MINHA MELHOR AMIGA VAI SE CASAR. E NÓS NUNCA TRANSAMOS

Indiferentes à opinião da maioria, nós aproveitamos no decorrer de uma vida a sintonia fraterna e incondicional que só as relações de amizade entre sexos opostos pode proporcionar.


Ela está simplesmente estonteante! Mas ao mesmo tempo com um ar sério, quase angelical, com aquele olhar típico, que torna o contorno levemente ascendente dos seus olhos perfeitos ainda mais sinuoso... Olhar de quem tenta disfarçar o nervosismo e por ficar mais séria ao fazê-lo, colore as maças do rosto que contrastam com a pele branca. As sobrancelhas semi-arqueadas completam o diagnóstico: “Ela precisa de mim”.

Conheço essa guria desde quando as sardas do seu rosto eram a primeira marca da sua presença. A convivência estranha e pacífica entre dentes de leite e definitivos ainda hoje me transmite à memória as centenas de traquinagens que fazíamos juntos. Depois veio a fase do aparelho dental, a chatice da acne, os pôsteres de boybands espalhados pelo quarto, as primeiras paqueras e os aconselhamentos decorrentes dos olhares cruzados com algum pirralho no corredor do colégio. E era sempre eu, o conselheiro favorito, o primeiro a ser indagado a responder se o garoto em questão poderia estar a fim dela.

Mas hoje a noite é dela e não das minhas lembranças. É que tudo isso me ocorreu daqui, da fila à direita junto aos outros padrinhos, observando em uma diagonal cada esboço de reação dela enquanto as palavras do padre soam apenas como eco. Sempre achei essas cerimônias um tanto impessoais. Posso te afirmar meu caro leitor, por tudo que já relatei, que ela não está ali. Talvez anestesiada pela seriedade do cerimonial, talvez por perceber que cada detalhe daquele evento, planejado à exaustão, corria com a rapidez dos segundos, quase imperceptíveis à maioria. Se planeja e se planeja algo, mas no fim soa sempre igual. Afinal de contas, é um casamento. O que poderia haver de diferente?

1296250616467_f.jpg Conhecer cada expressão dela foi meu exercício favorito ao longo dos anos.

Um coque clássico, comportado adornado com um laço branco de cetim de extremo bom gosto, e dois fios de cabelo pendentes, um de cada lado do rosto, geometricamente em harmonia. A menina ainda está lá, embora a mulher insista em usurpar o seu lugar todo o tempo.

Que tipo de sintonia nós temos? Sei lá! Julgue você mesmo. Sintonia suficiente para um olhar cruzado de décimo de segundo, como que para se assegurar que por mais que o nervosismo imperasse naquele templo, eu estava lá, transmitindo a segurança de que ela precisava. Na distância correta da ação, como sempre foi. E o sacerdote prosseguia com seu discurso frio.

O que eu mais gostava na gente era justamente essa sintonia. E atribuía isso ao fato de sermos justamente, homem e mulher! Nossa amizade juntava o melhor de dois universos distintos. Se por um lado amizades entre mulheres são frequentemente permeadas por certo grau de competição, por vezes inveja; na face masculina é o coração que é subestimado. Não há confidência irrestrita do lado de cá, não há abraços calorosos e lágrimas nos ombros quando a coisa aperta. Tudo em nome da manutenção do tradicional ego de macho.

Em um olhar rápido, observei seus pais. Dele me identifiquei com olhar opaco, contrastando com o bigode sisudo, traduzindo a sensação estranha de ver sua menina transformar-se em mulher. Ninguém nunca estará preparado pra isso! Da mãe, a emoção contida, como quem guarda as lágrimas para o momento mais adequado. Sem dúvida pela sua memória agora se passam flashes de situações corriqueiras da trajetória da filha, como pentear seus cabelos negros após o banho ou do quanto tentava acalmá-la para que a enfermeira, sem paciência, lhe aplicasse a vacina . Eu queria que ela se lembrasse das broncas que me deu quando eu insistia em fazer sua filha de 12 anos andar de skate comigo.

Não sou vidente, mas sei que nesse exato momento você deve estar se perguntando: “Mas, e o noivo?”. Imagino os estereótipos: Melhor amigo gay, ou alguém que não deu pra manter longe pelo cenário pregresso, mas que após o enlace seria uma excelente oportunidade de afastá-los, gradualmente. Pensaria você no lugar do felizardo, não é? Como você é sádico leitor!!! Começo a crer que você também não acredita em amizade entre homem e mulher.

tumblr_lk2tzcsoyv1qiumw8o1_500.jpg Sim, ela sabia tudo de mim, e eu, de cá, era a completa tradução da confiança, incondicional.

Ela definitivamente tem sorte! Nem o Escopeta, do alto da sua gula insaciável, olharia para um hambúrguer suculento como aquele rapaz de olhos sinceros olhava para aquela que desposava. Espero sinceramente que o Escopeta não leia essa comparação...

Sem dúvida, seria um marido protetor, daqueles que faz sua mulher olhar com orgulho por atos simples, como abrir um guarda chuva e acolhe-la num abraço antes de partir pra rua.

Após as formalidades do discurso, veio a hora do sim, da troca de alianças e finalmente, do beijo. Um selinho tímido, mas sincero. E você pode se perguntar o que passou na minha cabeça nessa hora. Tá, eu sacio sua curiosidade, mas não abuse da confidencialidade! Eu sabia que muito daquela apreensão dela se devia ao medo do inesperado, mais precisamente da sua vertente mais perigosa e inerente a um casamento: a rotina. Aquela menina era a perfeita tradução da juventude, livre para dar as guinadas que abastecem essa condição, mas que se acovardam diante de um compromisso tão sério.

Naquele altar, enquanto os esnobes observavam os detalhes das vestimentas uns dos outros e os emotivos lavavam o chão em lágrimas, a pergunta que me fiz foi: “Na iminência de ela me ligar a qualquer tempo reclamando da condição de cerceamento, que conselho eu daria?” Me imaginei mais maduro, a orientando sobre o período de adaptação usual e pedindo para ter paciência. Mas foi com a segunda possibilidade que rangi os dentes. E seu eu desse um piti e resolvesse atravessar quatrocentos quilômetros para trazê-la de volta?

b.jpg De certa forma, eu sabia que não seguiria sua estrada daqui em diante. O bom senso me ensinaria a aceitar isso.

Era hora de cumprimentar os padrinhos, em grupos alternados para o noivo e noiva como de praxe. Eu fui o terceiro, logo após um casal de amigos da faculdade. Olhei por dois segundos bem no fundo daquelas esferas pretas e achei por bem deixar que ela sujasse a maquiagem apenas no abraço choroso com os pais, logo ao lado. Escolhi por as duas mãos sobre seus ombros desnudos e delicados e olhá-la à distância de um braço, como quem não acredita naquela situação curiosa. O famoso “Quem diria”. O que seu conselheiro favorito diria nesse momento? Saiu sem pensar. Sincero? Essa era uma condição prévia e sem esforço em tudo que se referia a ela:

“Eu dividi a minha vida inteira com uma menina, e agora estou me despedindo de uma mulher. Seja a esposa mais feliz do mundo”.

Ela me fitou pelos mesmos dois segundos, como quem lia minha alma. Os olhos arqueavam para um choro quando os lábios se torceram e eu tive de agir. A liberei da minhas mãos conduzindo-a levemente à continuação dos seus cumprimentos com os outros padrinhos. Preservei sua emoção. Não havia necessidade dela falar absolutamente nada. Já estava dito. Nós não precisávamos de palavras.

De lá foi a festa, e em menos de meia hora, as latinhas tirilando... Preferi não acompanhar o carro.

Não, nós nunca transamos, mas tínhamos a cumplicidade que nem o ato de maior intimidade entre um homem e uma mulher poderia ter. Nós éramos irmãos, irmãos de alma. E quem não entende isso não está verdadeiramente preparado para amar. Nem amiga, nem mulher.


Renato Oliveira

Romântico em tempos de crise, que tem na noite a sua melhor companhia. Já sonhei muito com a Scarlett Johansson, mas hoje me contento com um coração sincero. Ainda insisto em crer que o romantismo não está para mulheres como um vestido novo, arrasador, mais que uma vez usado, perde o charme. Já experimentei de tudo dessa vida, não o bastante para acreditar em finais felizes. .
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