aceita um café

Uma pausa para reflexão em meio a um cotidiano frenético

Renato Oliveira

Romântico em tempos de crise, que tem na noite a sua melhor companhia. Já sonhei muito com a Scarlett Johansson, mas hoje me contento com um coração sincero.
Ainda insisto em crer que o romantismo não está para mulheres como um vestido novo, arrasador, mais que uma vez usado, perde o charme.
Já experimentei de tudo dessa vida, não o bastante para acreditar em finais felizes.

POR QUE ELA TINHA DE TER ALGO A MAIS?

Foram duas horas de uma conversa extensa, regada à pretensões de vida, mas sem nenhum apelo à vulgaridade de relacionamentos passados. Uma mulher interessante não cometeria essa gafe. Sabe que seus planos para o futuro são mais interessantes que seu histórico com os idiotas que a deixaram estar solteira até hoje.


conquistar-homem.jpg Era um roteiro programado como todos os outros, um encontro com começo, meio e fim. Mas ela fez questão de me fazer ficar de quatro por ela.

Era só mais um jantar em um lugar bacana, daqueles que ela não terá dúvida do seu bom gosto. Luz adequada, música no tom ideal, serviço personalizado, candelabros à mesa... É, tá na expressão dela que está gostando.

Mais um tiro certeiro?

Acontece que tanto antes quanto depois desse mesmo jantar, o roteiro foi exatamente o mesmo em tantas outras noites com, digamos, “outras companhias”. Primeiro, uma conversa online ou um telefonema regado a uma linguagem sutil e despretensiosa, um discurso polido, medindo e escolhendo cada palavra do meu extenso vocabulário. Depois, um olá, no meio do expediente mesmo, com uma frase boba, muitas vezes sem nexo, mas que fatalmente tirou um sorriso de canto dela em meio à típica chatice do seu ambiente de trabalho.

É nessa parte que você mede o primeiro estágio da sua empreitada: Se não te respondeu, não te bloqueou ou não disse que mais tarde falaria contigo, a certeza é uma: Ela tá na sua!

Às 17h eu costumo ter fome, ela não deve ser diferente. Mando uma foto de uma xícara de café decorada, daquelas que mais parecem uma obra de arte em que até o biscoito parece ter sua posição no pires geometricamente calculada pelo barman. Aquela placa de chocolate crocante com letras amarelas em diagonal mergulhada no chantilly com certeza vai fazê-la salivar. Logo abaixo da foto, o convite:

“Café solitário, mas poderia não ser. Janta comigo?”

É aí onde você mede a o segundo estágio da sua empreitada: Ela poderia tratar como um happy hour qualquer e dizer pra pegá-la às 19h no trabalho. Mas se ao invés disso ela preferir ir pra casa antes, tomar um banho demorado, escolher a dedo o que vestir e cuidar de cada fio de cabelo, a certeza é uma: Ela tá na sua!

E cá estamos no restaurante, regado a um clima de romance sem sequer sabermos o sobrenome um do outro... Voltemos ao início da história e consequentemente ao terceiro estágio caro leitor: A expressão dela. Ela tá na sua!

É meu amigo, não é difícil convencer uma mulher da sua boa intenção. Parece que é só fazer o básico e o encontro é garantido. Às vezes me pergunto quão incompetente são a maioria dos homens que não conseguem enxergar essa relação óbvia entre gentileza e confiança, tão apreciada pelo coração de uma dama.

E antes que os machistas (e as machistas) de plantão enxerguem isso como uma pescaria aleatória, daquelas fadadas a terminar em um quarto luxuoso de motel, registro aqui os motivos reais da “prospecção”: Mistério meu caro, o mais puro e instigante mistério! Por isso as mais “comunicativas” nunca me despertaram interesse. E sim todo desejo oculto que só o olhar rápido de uma mulher interessante pode transmitir. É um misto de elegância, timidez, seriedade... Olhar a meio-pau, que dura dois segundos e te instiga a querer saber cada detalhe da história dela.

O mundo está tão cheio de olhares óbvios, todos repletos de desejo e sem nenhum mistério.

E o jantar seguia junto a um salve aos incompetentes! Afinal de contas é por causa deles que ela está aqui hoje!

Ops! Esse realmente foi um pensamento estranho e incomum!

O que eu não contava é que tudo seria estranho e incomum a partir daí. Como ela fez isso? Era para deixá-la em casa, ligar uns dois dias depois, saber um pouco mais em outro encontro e deixar as coisas esfriarem por si só. Simples assim! Elas nunca corriam atrás.

Mas ela tinha de ser ela! E sem nenhum artifício ou receita mágica me fez começar a sentir coisas com as quais eu não sabia lidar. E definitivamente a insegurança nunca havia passado por aqui antes.

size_810_16_9_homem-duvida2.jpg Havia um variável não calculada: ela era ela!

Percebi o início do precipício quando me vi reformulando minhas técnicas, (talvez porque não foram construídas pra chegar a esse ponto). Junto os meus discursos apurados, o bom papo tão elogiado, as frases feitas, o calhamaço de experiências mundo afora, os sorrisos ensaiados... Parece que tudo é mais simples agora.

Na minha arrogância de bon-vivant, o limite do relacionamento sempre foi a intimidade, muitas vezes traduzida pelo fim decretado do tão admirado mistério. Moro sozinho e não há coisa que eu mais goste nesse mundo do que a privacidade do meu canto!

Mas, doente que estou, hoje pensei em convidá-la para uma sessão sofá, daquelas com pipoca e comédia romântica, de meia e... pijama!

Vocês não leram isso!

São 23:50, e após o famigerado jantar houve apenas mais um encontro rápido, protocolar, anteontem, em um café perto do trabalho dela.

Os manuais dizem pra dar um tempo justo e necessário entre os convites pra sair, um tempo hábil para que a maturação da “sensação de quero mais” a atinja. E como aluno regrado que sou, respeitei essas regras uma a uma por cinco longos anos da minha independência sentimental. E elas não falharam comigo uma única vez! Até agora. Os meus dedos tremulam, anseiam por teclar, por escrever qualquer coisa que mostre a ela que eu estou aqui, pensando na maneira como seus dedos finos deslocam seu cabelo negro pra trás da orelha enquanto ela olha pra mesa com um sorriso tímido, de lado.

Envio? Não envio? “O que não te interessa sequer chega ao patamar do questionamento. Onde há dúvida, há intenção.”, penso.

Aliás, a essa altura já não penso mais nada! Eu só quero estar com ela. O lugar pra isso já não interessa, não me consome um único segundo pensando na atmosfera ou nas luzes. Agora, pode até ser um “oi” da janela mesmo.

Percebi que o meu desejo pelo mistério nada mais era que a típica alcunha dos conquistadores, constantemente sedentos pela adrenalina do novo. Em mim, um novo desejo o substituía. Mais leve, porém ao mesmo tempo incontrolável: O sentir! Aquele mesmo que preenche e traz paz e serenidade.

E é nessa parte que você mede o quarto estágio do seu mergulho: Se não consigo ficar uma hora sem pensar naquele ser, escrevo e apago cem mensagens antes de enviar com receio de ser inconveniente ou fico morrendo de medo de outro ser mais ousado e roubá-la, a certeza é uma: Eu tô na dela!


Renato Oliveira

Romântico em tempos de crise, que tem na noite a sua melhor companhia. Já sonhei muito com a Scarlett Johansson, mas hoje me contento com um coração sincero. Ainda insisto em crer que o romantismo não está para mulheres como um vestido novo, arrasador, mais que uma vez usado, perde o charme. Já experimentei de tudo dessa vida, não o bastante para acreditar em finais felizes. .
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