aceita um café

Uma pausa para reflexão em meio a um cotidiano frenético

Renato Oliveira

Romântico em tempos de crise, que tem na noite a sua melhor companhia. Já sonhei muito com a Scarlett Johansson, mas hoje me contento com um coração sincero.
Ainda insisto em crer que o romantismo não está para mulheres como um vestido novo, arrasador, mais que uma vez usado, perde o charme.
Já experimentei de tudo dessa vida, não o bastante para acreditar em finais felizes.

TARANTINO E O LEGADO DA CRIATIVIDADE

Longe da aclamação de seus trabalhos anteriores, Os Oito Odiados fez perguntar se o notório Diretor já não faz mais do mesmo.


hateful-eight.jpg Tiros, sangue, discurso afiado e personagens sem nenhum medo da morte

Um dos diretores mais aclamados das últimas décadas, aos 52 anos e em plena atividade, Quentin Tarantino já deixou suas marcas na indústria cinematográfica com um estilo próprio de escrever e conduzir seus personagens, explorando o intenso realismo e as nuances da essência da liberdade, pensamento e ação, na maioria das vezes contra os padrões sociais impostos.

Essas características tão marcantes e personificadas lhe conferiram o que poucos cineastas conseguiriam até hoje: A associação de outros trabalhos distintos com sua originalidade. Da mesma forma que é comum associar um projeto arquitetônico a Niemeyer, uma poesia a Chico Buarque, ou uma pintura a Tarsila ou até mesmo Picasso, você já pode associar um estilo de fazer cinema a Tarantino.

Agora pense em quantos cineastas você conseguiria identificar pelas obras a ponto de ver influência em outros trabalhos: Fellini, Kurosawa, Allen, Godard, Hitchcock e talvez mais uma meia dúzia...

Tarantino está enraizado no nosso cotidiano, na rispidez do noticiário, na polêmica dos comportamentos nonsense, e do quanto se pode extrair deles para se explicar o que nos tornamos e o no que nossa sociedade nos transformou. Chamado de gênio por alguns e de ríspido por outros, esse filho do Tennessee trouxe para as telas a realidade que muitos não querem ver, e fazem questão de associá-la à marginalidade.

Mas então porque esse o gênio inventivo não foi capaz de figurar seu mais recente trabalho, Os Oito Odiados, na vanguarda dos melhores filmes de 2015?

O filme já possuía teasers um semestre antes do lançamento, convidando o espectador a apreciar o que seria mais uma “grande obra” do sagaz diretor. É claro que uma obra dele já induz a personagens de discursos longos e apurados - sua principal ferramenta de apresentação - certa violência, uma explosão de realismo contemporâneo (mesmo nos filmes de época) e o tão referendado deboche do senso comum associado a uma acidez veloz que prende o espectador do início do fim das suas tramas, sem pausas para o café.

Mas aí saíram as indicações dos principais prêmios de início de ano e a obra não apareceu em nenhuma categoria de peso.

Figura fácil em premiações importantes como Oscar e Globo de Ouro nas últimas edições, não foi desta vez que Tarantino colocou sua obra na disputa pelos holofotes. E por quê? Se o filme é a cara dele e não é preciso ser nenhum cinéfilo de plantão para assistir aos primeiros dez minutos e já sacar isso!

Os-oito-odiados.jpg Tarantino costuma dar uma palhinha em seus trabalhos. "Fui eu que fiz"

Quentin sofre hoje com o mal comum dos profissionais extremamente criativos: Como se superar e continuar criando, criando e criando! Como escrever histórias que prendam o telespectador e lhe garanta a sempre recorrente notoriedade?

Óbvio que essa não é uma prerrogativa dos cineastas. Vivemos em uma sociedade sedenta por novidade, em grande parte oriunda dos avanços da internet e das mídias sociais. Os portais de comunicação oferecem bilhões de páginas dos mais diversos conteúdos, todas com o objetivo de prender o internauta, e para isso, a novidade é a palavra de ordem.

Justamente por isso meu caro, é que Os Oito Odiados é apenas e tão somente mais um filme de Tarantino, com os mesmos motes apontados anteriormente e com associações claras, inclusive técnicas, de suas obras pregressas. Da fotografia parecida com Jango Livre, passando pela edição de Bastardos Inglórios e por fim, na cadência da trilha sonora à la Kill Bill.

Tudo muito bem feito como de costume, mas sem apelo ao novo! E definitivamente os nossos cinéfilos contaminados pela necessidade da criação não aceitam mais do mesmo.

O legado da criatividade chegou à sétima arte, e desempenhos flat estão indo além da análise banal do resultado das bilheterias. Tal como uma empresa que atinge uma meta e já projeta outra maior para o ano seguinte, Tarantino se vê obrigado a criar ininterruptamente, e talvez seja exigir demais que alguém seja criativo todo o tempo.

Os Oito Odiados seria sem dúvida um filme inovador, merecedor de algumas estatuetas, mas se fosse feito há vinte anos. Naqueles tempos distantes, o mundo do cinema aplaudiu de pé Pulp Fiction, lhe rendendo até a Palma de Ouro em Cannes. A pergunta é: Personagens escrachados como Vega, Pumpkin e Honney Bunny ou Mia Wallace teriam algum apelo inovador nos dias de hoje? Responda você mesmo.

Quentin ainda é o ex-atendente de locadora de vídeo que um dia, cansado de ver filmes iguais, resolveu escrever seus próprios roteiros, a ponto de ainda no início da carreira convencer ninguém menos que Oliver Stone a filmar o seu eufórico Assassinos por Natureza.

Não há nada de errado com o Tarantino atual. Ele só é mais uma vítima da cultura do novo, em que até eu, ou você caro leitor, poderemos surfar a onda um dia. Desde que enquanto a mídia considerar isso uma novidade.

Espero vê-lo premiado nos próximos trabalhos. Assim como eu, muitos cinéfilos ainda gostam de olhar para o balde de pipoca cheio ao fim da sessão e pensar: “Não deu tempo de comer, era um filme do Tarantino”.


Renato Oliveira

Romântico em tempos de crise, que tem na noite a sua melhor companhia. Já sonhei muito com a Scarlett Johansson, mas hoje me contento com um coração sincero. Ainda insisto em crer que o romantismo não está para mulheres como um vestido novo, arrasador, mais que uma vez usado, perde o charme. Já experimentei de tudo dessa vida, não o bastante para acreditar em finais felizes. .
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