acting in progress

O trabalho do ator em foco

Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa...

Formando atores: para TV?

Será que é preciso ser ator para trabalhar na TV? Parece tão fácil! As crianças atuam, até os animais atuam! Se calhar até você que está lendo esse artigo pode fazer uma telenovela...ou não! O artigo aborda brevemente a discussão sobre o ator e a necessidade de formação para trabalhar através das câmeras.


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A formação com base apenas em técnicas teatrais de interpretação deixou de ser suficiente à medida que o ator foi sendo solicitado para atuar na TV e no cinema. A adequação tem sido feita de forma praticamente autónoma ou com conhecimentos adquiridos em cursos livres, os quais, pelo seu carácter de curta duração, não aprofundam aspetos que se revelam de grande importância para um trabalho profissional de consistência. No entanto, o ator que pretendesse trabalhar no audiovisual tinha que frequentá-los, se não quisesse chegar ao ambiente profissional como se não soubesse atuar. A realidade é que muitos atores adotaram o caminho mais curto para conseguirem trabalhar nesse meio. Iniciavam cursos livres sem experiência alguma, estudavam aproximadamente um ano, faziam castings e eram contratados para os trabalhos, e o fato da profissionalização já não ser exigida criou uma certa desestruturação neste ambiente.

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Visto que é esperado dos atores um bom desempenho tanto no teatro como no audiovisual ou em qualquer outra linguagem onde venha a atuar, nota-se cada vez mais a extrema necessidade de formação específica para as diversas linguagens. Durante algum tempo a TV foi considerada uma “arte menor”, pelos artistas, possivelmente por receber nas suas produções “atores” não profissionais, pessoas escolhidas somente pela suas “caras bonitas”, ou por serem “figuras públicas”. Porém, se observarmos com discernimento, poderemos perceber que na maior parte das vezes, para trabalhos que tenham maior importância dramática, os protagonistas são efetivamente atores profissionais.

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E, se não são eles os protagonistas, estão no elenco de apoio para darem suporte às cenas dos novatos. Isso nota-se sobremaneira no Brasil, por exemplo, em novelas da tarde, nas quais são lançados novos atores e, como “suporte”, encontramos no elenco aqueles nomes “famosos” e tradicionais da história da telenovela brasileira. Este tipo de elenco profissional com “peso” só poderia ser formado antigamente com atores que tivessem alcançado o conhecimento técnico do audiovisual através da experiência, sendo orientados muitas vezes pelo próprio diretor.

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Desde que chegaram a Portugal as primeiras telenovelas e, consequentemente, foram abertas as primeiras escolas oferecendo formação direcionada para o audiovisual, os atores começaram a aparecer nas produtoras mais bem preparados. Nos próprios castings já é esperado dos atores uma certa desenvoltura, aptidão, ou mesmo talento para entrarem nas produções. A formação ministrada em cursos livres de interpretação para TV assentava inclusive no conhecimento do que era esperado dos atores pelas produtoras de casting. Procurando estas, por sua vez, atender às expectativas dos produtores de elenco.

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Muitos cursos de formação em interpretação audiovisual dão importância a “como fazer um casting” porque, sem ele, dificilmente o ator chega a participar em alguma produção, a não ser por convite direto. Nos dias de hoje, o ator completa a sua preparação com formações em TV, cinema, casting, criação do próprio emprego, dobragem, entre outros. Algumas universidades, atentas às demandas do mercado profissional, já procederam a alterações nos seus currículos, reservando um espaço à disciplina de Interpretação para TV e cinema. É um mercado em que tudo está totalmente interligado.

As produções começam a exigir melhor desempenho dos atores, para que possam estar equiparados aos padrões das produções internacionais. Serve de exemplo o fato de os filmes portugueses estarem disponíveis nas mesmas salas onde são exibidas superproduções norte-americanas.

Ao observar o trabalho das produtoras de casting, nota-se uma exigência maior na escolha de atores com experiência de formação ou profissional. Inclusive, os próprios diretores de casting preocupam-se com os “talentos” que recomendam, pois estes levam o nome da sua marca avante. Ao chegarem a uma produtora de casting os atores geralmente devem dizer qual agência os representa. E depois de serem escalados para determinado papel, serão identificados pela produtora de casting que fez a seleção. Neste contexto, resta aos atores melhorarem o seu know-how. Funciona como uma espécie de indústria implicando produções audiovisuais, produtores de casting, agências de atores, universidades, mercado profissional, cursos livres e profissionalizantes e os próprios atores.

E, à parte a discussão sobre o valor artístico das produções de ficção, o fato é que, se o ator quer trabalhar além de convenções sustentadas em formações de "teatro" deve treinar-se para o trabalho no audiovisual, ou pode apenas atravessar a oportunidade de carreira na frente das câmeras, e se o fizer, que seja por opção e não por falta de adaptação de suas técnicas.

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Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa....
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