acting in progress

O trabalho do ator em foco

Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa...

O sofrimento do ator "realista"

Qual a dose de sexo explícito necessária para um filme ter aparência de “real”? Aos espectadores já não parece fazer diferença se houveram ou não “duplos” para estas cenas, os realizadores sabem do que precisam, mas aos atores fica a pergunta mais ouvida pelos motoristas dos autocarros: “A que ponto chegamos???”


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Uma questão recorrente entre os atores é se existe um método para trabalhar no cinema e se existe, qual seria ele e qual o seu objetivo? Podemos dizer que sim, existe, e pode ser aprendido, embora haja controvérsias acerca de sua sistematização.

Jacqueline Nacache, coordenadora de conferências sobre estudos cinematográficos na Universidade de Paris, em seu livro O Ator de Cinema, refere-se ao “Método” desenvolvido no Actors Studio como uma representação tensa, que privilegiava mais a procura das emoções do que a distância do ator em relação à sua personagem. Por esta razão o nome de Tennessee Williams é de há muito associado ao Actors Studio, possivelmente por causa da atmosfera psicodramática das suas peças (cf. NACACHE 2005: 109). A autora esclarece que o “Método” de Strasberg foi baseado na sua interpretação dos princípios e procedimentos do “Sistema” de Stanislavski e também nas clarificações e estímulos de seu principal discípulo, Vakhtangov. A estudiosa observou que Vakhtangov «interessava-se menos pela interioridade que pelo resultado do sentimento em termos de ação, e terá feito evoluir Stanislavski nesse sentido no fim de sua vida» (NACACHE 2005: 111).

É possível que ocorra aos atores, especialmente os que possuem pouca experiência, que não precisam desenvolver um trabalho de atuação para um filme, bastando agir naturalmente, como agiriam na vida real, delegando a sua atuação às indicações de ação feitas pelo realizador. Embora alguns realizadores possam optar por essa forma de trabalho, como é o caso dos que trabalham com “não-atores”, o fato do ator estar em cena, como se não atuasse, não quer dizer que ele não tenha que fazer nada. É quase como se fosse a vida real de uma pessoa capturada naquele momento pela câmara, porém isso difere no sentido de que o ator, além de estar sendo capturado, tem de estar consciente da linguagem técnica que utiliza para comunicar. A técnica desenvolvida no Actors Studio consiste em que o ator “realista” faça a identificação do seu papel com certos elementos interiores que ele já possui e seleciona em si mesmo (cf. NACACHE 2005: 114). Isto facilitaria esse processo de fusão e comunicação entre ator e personagem, independentemente da maneira como o ator realizasse este processo.

Constantin Stanislavski e Vsevolod Meyerhold moldaram a estética teatral durante o século XX e, consequentemente, muitas das áreas da representação do ator ocidental baseiam-se numa inspiração stanislavskiana reduzida às suas ideias fundadoras (cf. NACACHE 2012: 113). Dessa maneira a estética de interpretação pelos atores também se foi adequando às novas linguagens.

O estilo de representação dos atores que vemos hoje nas telenovelas, por exemplo, e na maior parte dos filmes, é claramente reminiscência do “Sistema” de Stanislavski que foi desenvolvido nesta época. Neste “Sistema”, a autenticidade e a naturalidade deviam ser acometidas de uma constante interrogação sobre as motivações psicológicas da personagem (cf. NACACHE 2005: 31). A autenticidade a que Nacache se refere é atuação mais próxima possível da realidade empírica. Por este motivo, tanto o “Sistema” quanto o “Método” serviram perfeitamente ao cinema, pois estes superaram «a arte de representar, baseada só na mecânica dos gestos, para alcançar a verdade de uma atuação e de uma personagem cuja alma se alimenta da vida interior do ator» (NACACHE 2005: 31).

A arte de representar é tão artificial como a arte realista: ambas querem parecer, mas com uma diferença, a arte de representar assume-se como tal, a arte realista é de má consciência. Finge não ser o que é: uma arte de representar, arte, tanto que pode ser aprendida. Também do ponto de vista de Jacqueline Nacache, a maior parte desse “Método”, apesar de abordar também o treino físico, está assente no trabalho subjetivo do ator. Uma destas ferramentas que serviram perfeitamente ao cinema é a “memória afetiva”. Tudo isto para permitir uma interpretação na qual o ator parecesse verdadeiro aos olhos do público, como herói do dia-a-dia e fazendo uso de uma linguagem coloquial. De acordo com a autora, o novo objetivo é «a sobriedade, como forma de representação puramente cinematográfica» (NACACHE 2005: 41).

O cinema foi desenvolvendo a sua estética, mas não paralelamente ao caminho percorrido pelo ator. Tem-se buscado no ator uma verdade interna que seja refratada no seu exterior, para se tornar credível. Mesmo em filmes em que a estética cinematográfica não seja realista como os filmes de ficção científica, por exemplo, o ator deve manter, na maior parte das vezes, uma representação plausível e totalmente realista para a sua personagem.

Naturalmente que uma representação em um filme nunca corresponderá à realidade, no mínimo por fatos que decorrem durante semanas se concentrarem em poucas horas, ou o inverso. O público está de posse das regras estéticas que o regem, pois sabe que por mais realista que seja, trata-se de uma obra ficcional. Ao mesmo tempo o produto audiovisual também obedece às regras detidas pelo público para que haja a comunicação entre a obra e o expectador.

Para este tipo de filmes, o espectador parte da premissa de que o que será mostrado não corresponderá à realidade, porém para que possa “acreditar” na história, será necessário que os atores ajam em relação às circunstâncias como se elas fossem reais. Se a interpretação for exagerada, ou sóbria demais, ou não se harmonizar de alguma forma com o contexto, esta irá possivelmente suscitar a atenção do espectador para “algo de errado” com o filme.

Para Nacache nem sempre os objetivos do “Método” foram alcançados, resultando às vezes, no seu pior, em representações nervosas e expressividade excessiva de gestos, «Como exige o realismo da representação, um beijo já não pode ser um roçar pudico dos rostos; quanto à violência, as pancadas e as quedas já não convencem se não houver suspeita de um sofrimento real» (NACACHE 2005: 120).

A autora também considera equivocadas algumas estratégias de apelo à realidade, em nome da qual se faz, por exemplo, o uso do nu e do explícito. Sobre o filme Irreversível (G. Noé, 2003), Nacache comenta a propósito da cena de violação interpretada por Monica Belluci que com esse desempenho da atriz «o cineasta julga atingir o núcleo duro de uma verdade cinematográfica – quando o plano apenas mostra, lamentavelmente, um sofrimento em direto, tida como única prova possível do empenho do ator» (NACACHE 2005: 128).

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Podemos ver no cinema atual cenas quase “hiper-realistas” de sexo, como no filme francês La vie d’Adèle (2013). No filme, dirigido por Abdellatif Kechiche, a cena de sexo por pretender uma aproximação tão exagerada da realidade, poderia facilmente causar o efeito contrário, que seria o de estranhamento.

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Nacache coloca a nudez como sendo «mais um fato, o mais pesado de vestir e por isso reservado aos principiantes» e ainda ressalta que «O corpo nu dos atores, erótico ou não, não será o lugar onde se decide a sua verdade» (NACACHE 2005: 120).

Pode-se questionar qual seria a diferença entre esta cena de sexo, e a mesma cena no contexto de um filme pornográfico. O público-alvo deste e o seu objetivo são claros, porém no filme de Abdellatif Kechiche fica no “ar” a importância do caráter explícito da cena, especialmente pelo seu tempo de duração. Como sustenta Nacache em relação a esse caráter explícito,

[…] não é apenas uma questão de indecência; o mais grave não está aí, está no modo como o processo de ficção fica ameaçado, até suspenso, pelo valor documental que a ação real injeta na imagem. Não só certos comportamentos atestados como “reais” não conseguem garantir efeitos de verdade, como os comprometem. (NACACHE 2005: 122)

Recurso semelhante foi utilizado no filme Nymphomaniac: Vol. I, de Lars von Trier (2013), porém as cenas de sexo no filme faziam parte da necessidade dramatúrgica da história. Para estas cenas, foram utilizados atores profissionais de filme pornográfico e foram “ilustrativas”, no sentido de que não precisaram de ser arrastadas no seu tempo de duração para que cumprissem a sua função. Parece que está a acontecer no cinema o que Nachache já havia considerado no seu estudo, ou seja, que «A busca febril do natural só podia desembocar nos exageros do naturalismo» (NACACHE 2005: 112).

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E trabalhar no cinema apresenta duas possibilidades: ou o ator descobre a verdade escondida, mas existente na cena, ou ele deve introduzir a correção necessária sugerida pela sua percepção do que é real. Como afirma Nacache, esse é o espírito da “representação íntima” do “Sistema” que Pudovkin adaptou ao cinema (cf. NACACHE 2005: 40). A autora observa que na Europa e nos Estados Unidos a evolução do ator decorre de um modo mais prático que teórico e afirma ter sido necessário que o ator se habituasse ao cinema, ou que o cinema se habituasse ao ator, e «tanto num sentido como no outro», o ator teve de passar por uma «desteatralização da representação» (NACACHE 2005: 41).

A crítica cinematográfica, na maior parte das vezes, baseia-se apenas numa relação ator-personagem, entretanto está análise pode ir além, considerando aspectos como: ator-técnicas, ator-autor, ator-equipamentos que fazem a mediação de seu trabalho, ator-novas tecnologias.

E até que ponto não é, também, discutível tudo o que é exigido a um ator fazer num contexto justificado através da arte? Porém este é assunto para uma futura análise e quanto a isto, há ainda muito o que se diga.


Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa....
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