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O trabalho do ator em foco

Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa...

Telenovela e Arte

"Somos, sem o sabermos, uma intensa forja artística e ficaríamos estupefactos se se revelasse tudo aquilo que, em nós, provém da arte."

Investigação em artes: a telenovela como objeto de estudo científico. E artístico?


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Continua a perpetuar uma visão que julga a produção de telenovelas como uma “arte menor”. Apesar dessa classificação não fazer sentido se compararmos a telenovela com outras produções artísticas, este produto, de fato, ainda não alcançou lugar oficial na classificação de artes como a música, a dança, o teatro e o cinema e embora contenha elementos das artes cénicas, parece ainda encontrar obstáculos para ser validada como objeto artístico.

De acordo com Maria Lourdes Motter, atual coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Telenovela,

"Existe muito preconceito em relação à telenovela, no entanto ela é o produto cultural brasileiro de maior audiência, maior influência na sociedade, o mais sofisticado na produção da televisão aberta e exporta a cultura brasileira para mais de 140 países." (MOTTER apud Telles, 2004)

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A produção portuguesa está muito próxima da brasileira no que respeita ao valor deste produto na industria cultural e não tão distante da colaboração para a investigação em telenovelas. Estudos mais divulgados acerca deste assunto podem ser verificados através do Observatório Ibero-americano da Ficção Televisiva (Obitel), fundado em 2005, na cidade de Bogotá e formado por investigadores universitários e especialistas internacionais de teledramaturgia de oito países, incluindo Portugal.

As elaborações teóricas sobre a telenovela como objeto de arte tornaram-se hoje essenciais para possibilitar a narrativa que se faz, não apenas socialmente, mas também artisticamente a respeito deste produto. Apesar do esforço que já é realizado para a validação da telenovela em termos académicos, a questão que se coloca é: como fazer a transição da análise da telenovela como produto para dar mais ênfase a uma perspectiva do campo da investigação artes?

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Alain Roger em seu ensaio “Natureza e Cultura” faz uma relação entre natureza e paisagem, sendo que uma difere da outra em razão de a paisagem ser uma concepção da arte. A visão do autor coaduna com a reflexão sobre a arte e o objeto tratado por Michel Fried em seu artigo “Art and objecthood” (1967).

Fried considera que a arte por si só não existe como arte, mas sim como objeto. Ela se torna arte a partir de uma narrativa sobre ela, com o objetivo de ultrapassar uma suposta dimensão de impotência da própria natureza do objeto. Ambos propõem a discussão de que o objeto artístico nada mais é do que uma criação, um discurso que se faz a volta de objetos a partir de conhecimentos prévios advindos da cultura. Indagações desta ordem provocam as estruturas das investigações em artes, bem como o conceito que define um objeto de arte e da hipótese de que a arte como objeto poderia ser o fim da arte.

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Telenovela enquanto objeto artístico

Devido a amplitude do que se fala, quando se fala em artes, irei tratar mais especificamente do produto que se pretende discutir um pouco neste artigo, tentando descrever então o que seria este objeto denominado telenovela. De acordo com o Prof.º Dr.º José Roberto Sadek, telenovela é,

"Uma história de ficção desenvolvida para apresentação na televisão. Tem a característica de ser dividida em episódios ou capítulos, em que o seguinte é a continuação do anterior. O sentido geral da trama é previsto inicialmente, mas o desenrolar e o desenlace não." (SADEK, 33)

Esta é uma descrição que caracteriza a estrutura do produto, mas não abarca o modo como ele é construído. Este objeto, pelos elementos técnicos que o compõem, parece estar bastante próximo do cinema e no entanto, em termo de validação como objeto de arte, parece ainda muito distante. Não estão claras as razões da diferença pois no que respeita a construção deste objeto, as semelhanças são notavelmente relevantes, como por exemplo, o fato de ambos envolverem similares estruturas técnicas, como: câmaras, atores, técnicos de luz e som, cenografia, figurino, edição e efeitos visuais e terem como resultado final a projeção num ecrã, seja de um cinema ou de uma televisão. E mesmo assim, a telenovela ainda não parece estar no mesmo patamar que o da “sétima arte”.

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Numa produção de ficção, como a telenovela, por exemplo, os espectadores se deparam com temáticas recorrentes sobre relações conflituosas, heróis que sofrem muito e vencem no final, pobres engraçados, ricos dramáticos e uma grande porção de estereótipos adotados na composição da trama. Esse conhecimento prévio do espectador estaria relacionado com referências etnológicas identificadas e acessíveis, promovendo a sua “artialização” pelo que se pode chamar de uma cultura de massa, influenciando diretamente no “gosto” ou um “gosto comum”.

Através da telenovela brasileira a produção de ficção portuguesa encontrou inspiração para criar as suas, com bases culturais próprias. Este fato comunicaria melhor com os seus espectadores e supostamente abarcariam a maior parte do publico em Portugal.

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Porém deveriam continuar a tratar de temas, arquétipos e alguns estereótipos universais se pretendessem se transformar num produto de consumo internacional, evocando, por exemplo, os temas das tragédias que atravessaram os séculos: amor, traição, morte, vingança.

Tendo em conta a importância da identificação do público com o produto e as teorias que defendem uma relação de interdependência da obra para com o receptor, para considerar a telenovela como um objeto de arte, pode-se dizer que há algo para além desse objeto, ou entre o objeto e o espectador que promove essa validação, neste caso, através da empatia.

A artialização de Roger na conceptualização da telenovela.

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Diante da premissa de que a natureza está no nível das “coisas”, essas “coisas” também podem ser objetos, e sendo objetos observados por um receptor que possui algum tipo informações estéticas vindas da arte, existe a possibilidade de que o objeto seja validado como objeto de arte, da mesma forma que a natureza pode ser vista como paisagem. E se a arte existe somente através de uma “explicação” do que ela é e da narrativa que se desenvolve à sua volta, qualquer objeto pode torna-se arte e a arte pode ser qualquer objeto.

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A provocação que esta ideia pode suscitar, nos possibilita um alargamento no modo de ver e pensar a arte e não apenas partir do princípio de que a arte explica-se por si só. Neste caso a telenovela, como objeto, através de sua “artialização” também pode tornar-se um objeto artístico, se for observada e recebida através de um olhar transformado e construído por referencias culturais. Para Roger, não há espectador sem nenhum recurso porque, como cita,

"O nosso olhar, mesmo quando o julgamos pobre, é rico e está como que saturado de uma profusão de modelos latentes, inveterados e, portanto, insuspeitos: pictóricos, literários, cinematográficos, televisivos, publicitários, etc., que trabalham em silêncio para, a cada instante, modelar a nossa experiência, perceptiva ou não. Somos, sem o sabermos, uma intensa forja artística e ficaríamos estupefactos se se revelasse tudo aquilo que, em nós, provém da arte." (ROGER, 156)

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Posto isto, nada parece impedir que a telenovela possa ser considerada um objeto de arte e de investigação na área artística. Entretanto, sendo considerada arte ou não a questão não se torna relevante para os seus milhões de espectadores nacionais e internacionais que através das histórias contadas e representadas nas telenovelas os possibilitam experienciar e emocionarem-se com uma realidade inventada tão fantástica que não poderiam vivenciar de outra forma que não fosse através da TV.

BIBLIOGRAFIA

PACHECO, Denis. “Da ficção para a academia: encontro reúne pesquisadores de ficção televisiva”. USP Online Destaque, 9 Out. 2015. [Consult. 9 Jan. 2016]. Disponível em : http://www5.usp.br/99400/da-ficcao-para-a-academia-encontro-reune-pesquisadores-de-ficcao-televisiva/

ROGER, Alain 2011 “Natureza e Cultura” in Filosofia da Paisagem - Uma Antologia. Coord. Adriana Veríssimo Serrão. Editora: Centro de Filosofia Univ. Lisboa.

SADEK, José Roberto 2008 Telenovela: um olhar do cinema. São Paulo: Summus.

TELLES, Lucas. “Teledramaturgia ganha caráter científico com trabalho do Núcleo de Telenovelas”. Agência USP de Notícias, 27 Set. 2004. [Consult. 11 Jan. 2016]. Disponível em: http://www.usp.br/agen/repgs/2004/pags/007.htm

FRIED, Michael. 1968 “Art and Objecthood”. In: BATTCOCK, Gregory (org). Minimal Art, A critical Anthology. E. P. Dutton, NY.


Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa....
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