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O trabalho do ator em foco

Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa...

O que faz a atriz em David Lynch?

O que, de fato, o ator faz para transmitir emoções e pensamentos na cena? É possível analisar o trabalho do ator no cinema sem cair nos lugares comuns?

Este artigo pretende descrever quais são as ações externas da atriz que criam a ideia da personagem ao espectador. Esta análise será feita a partir do trabalho da atriz Naomi Watts em três cenas significativas do filme Mulholland Drive (2002) de David Lynch. Vamos lá!


“Admitir que se possa construir sentido a partir dos atores e à sua volta, não é sacrifício nem uma concessão; com isso a análise pode ganhar em vitalidade, e não tem de recear perder a alma.” Nacacche, ano: 161

Naomi Watts com outra atriz

Mulhohand Drive, um filme tão difícil de resumir quanto explicar um sonho. No entanto acredito ser possível caracterizar a performance da atriz Naomi Watts, através de uma análise detalhada de suas ações.

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A personagem de Naomi, inicialmente Betty e posteriormente Diane, trata-se de uma aspirante atriz que vai para L.A, conhece uma mulher Laura (Rita/Camilla) que sofreu um acidente de carro e perdeu a memória.

Mulholland Drive Watts.png chegando

Watts aparece inicialmente como uma personagem sonhadora, com expectativas positivas e motivada. Tudo isso sugerido com sorrisos abertos, olhar para cima e seu tom de voz em combinação com sua expressão facial. naomi-watts-mulholland-drive.jpg

Watts explicou que após ela já ter feito a cena, Lynch disse,

“That’s great, let’s do it again, let’s go even further, it’s like the first time you’ve tasted ice cream, [...]Like you’re just a kid whose eyes are popping out of your head!”.

A atriz revelou que se sentiu um pouco ridícula fazendo aquilo, mas funcionou perfeitamente para a personagem, porque esse era o sonho de Betty e essa imagem iria posteriormente contrastar bastante com a transição para Diane, a personagem densa e dramática em que ela se tornaria nas cenas a seguir.

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Cenas visionadas

Foram escolhidas três cenas do filme que aparecem em sequência.

A primeira cena é um momento de relação e contracena com a outra atriz, Laura Harring (Camila), com a qual tem uma relação amorosa e se sente rejeitada de alguma forma. Naomi (Diane) está extremamente magoada e agressiva à porta de casa num embate com Camila, que deseja entrar.

A atriz posiciona-se de forma retraída com metade do corpo atrás da porta enquanto a mão direita segura a mesma com os dedos. Aparenta alteração emocional, sugerindo nervosismo através de respirações curtas entre uma palavra e outra e o corpo está sempre a mover-se com um leve tremor.

Naomi Watts cena 1

Camilla: Don't be mad! Don't make it be like this!

Diane: Oh, sure. You want me to make this easy for you? No!

Naomi (Diane) diz isso visivelmente alterada sugerido pelo alto tom de voz. A seguir, altera o registo de voz para um tom mais agressivo e ainda mais alto, demonstrando que a emoção está a evoluir.

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Diane: No-fucking-way it's not gonna be!

Depois desta fala diz a frase seguinte a gritar, em tom estridente, juntamente com todo o corpo a posicionar-se de forma a empurrar a porta, mas não empurra antes de dizer.

Diane: It's not easy for me!

Naomi Watts cena 3

A seguir empurra a porta com força, empurrando a outra atriz para fora.

A ênfase está na expressão externa das emoções da personagem Diane, para a qual Naomi criou recursos de voz e corpo no intuito de potencializar as intenções da personagem. Teve como referência apenas a porta e a outra atriz, utilizando a tensão e o olhar para que a intenção se potencializasse na contracena.

A seguir, há um corte para a segunda cena.

Watts inicialmente não queria fazer esta cena e declarou em entrevista que foi extremamente difícil conseguir realizá-la, e repetiu várias vezes à Lynch:

“David, I can’t do this!, I can’t do this!”

Ela estava tão nervosa que Lynch construiu uma tenda a volta da atriz para que ninguém da equipe visse a sua performance. Quando ela começou a chorar alto, ele disse do lado de fora:

“OK, Naomi, that’s ok.” Naomi confessou que:

“I did anger, I did crying, it was just wildly uncomfortable”. Mas fez!

Nesta cena ouve-se a respiração de Naomi (Diane) ao fundo. Apesar dessa ideia ser reforçada pelo rosto molhado de lágrimas da atriz, avermelhado, lábios entreabertos, a atriz inclui em seu gemido novas expressões.

Naomi Watts cena 4- chora

Ela inspira o ar pela boca aproveitando para provocar um som e expira com choro. Parece prender um pouco a respiração e ir soltando para manter propositadamente a tensão.

Captura de ecrã 2016-10-25, às 13.48.10.png

A câmara desliza pelo seu braço, mostrando a mão direita fazendo fricção em suas partes íntimas, por baixo da roupa. Vê-se os dedos dentro da roupa íntima e o movimento.

Naomi Watts cena 4- dedos na roupa íntima

A câmara retorna ao seu rosto e Naomi (Diane) muda a expressão facial e a velocidade da fricção. Quanto mais acelera o movimento, sugere com a expressão facial o que pode ser lido como raiva.

Naomi Watts cena 4- raiva

Seus olhos ainda brilham com as lágrimas, a boca está aberta e os dentes unidos, à mostra. Rapidamente os lábios se fecham um pouco mais, o olhar fixa num ponto. Ainda está em movimento de fricção, só que quase impercetível, quando, de repente, o telefone toca. Ela olha para o lado (sugerindo que é o local de onde vem o som) sem interromper o movimento.

A ênfase da performance nesta cena parece estar numa condição mais interior da personagem, no entanto com uma grande gestão externa do trabalho físico: respirações com ritmos alternados, toques íntimos em contraponto com uma grande tensão emocional e uma atenção ao posicionamento do olhar dentro do plano. Neste momento a cena corta.

A terceira cena não se apresenta como uma sequência lógica do acontecimento anterior. Naomi (Diane) está produzida para ir a uma festa convidada Laura (Camilla). O som do telefone a tocar continua. A atriz entra no local que parece um quarto onde o telefone está a tocar.

Seus braços estão posicionados ao longo do corpo, ela olha para o telefone enquanto escuta o atendedor de chamadas. Tem os dedos levemente inclinados para apanhar o telefone, mas sugere não estar ainda decidida. Aparenta fragilidade, insegurança, medo, mas de uma forma mais sutil, internamente.

Naomi Watts cena 4- telefone

O olhar está baixo, expressão contraída, boca fechada, indicando uma leve tensão e tristeza e a demora em atender colaboram para a ideia de hesitação de sua parte.

Atendedor com voz de Diane: Hello, it's me...leave a message...

Naomi (Diane) pega o telefone levando-o lentamente até o ouvido, inspira e diz, em tom baixo, suave, que sugere receio, mas ao mesmo uma certa delicadeza no tom que indica disponibilidade para ouvir: Diane: Hello?

Camila: Diane.

Ao ouvir a voz de Camila, Naomi (Diane) não faz nenhum movimento. Um dos braços continua imóvel ao longo do corpo enquanto o outro segura o telefone. O olhar está fixo o corpo está na mesma posição. Depois de uma breve pausa responde.

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Diane: Camila.

Naomi (Diane) faz um movimento muito sutil com a cabeça, que é percebido justamente devido a restrita mobilidade do resto do corpo, indicando algum pensamento relacionado a esse nome.

Diz “Camila” num tom semelhante ao que diz “Hello”, com um tom de voz fraco, baixo e frágil. Só que, diferente da primeira fala, indica um pouco mais de afetividade quando diz “Camila” lentamente, como se houvesse reticências no final do nome. A atriz sugere o estado da personagem basicamente construída pela quase imobilidade corporal e suavidade das nuances de voz. É tudo muito discreto e preciso.

Camilla: Diane, the car is waiting. Are you ok? You comin'?

Todo o conjunto da sua expressão e movimentação desde o início da cena indica que não, Diane não está “ok”. Naomi (Diane) depois de uma pausa de aproximadamente cinco segundos faz um som como um “ahã” afirmativo (o que é propositadamente contraditório a toda informação que já vendo sendo dada ao espectador) e o olhar movimenta-se e fecha-se, como se tomasse a decisão de olhos fechados, embora seja mais como um piscar de olhos um pouco mais longo.

Movimenta a cabeça, como se fosse a meio de um movimento de negação, ou seja, “quase nega” com a cabeça, mas confirma com a voz, que reforça a insegurança através do tom e das pausas entre a pergunta e a resposta.

Camilla: Good...It means so much to me.

Depois desta fala Naomi (Diane) levanta um pouco o olhar, indicando que a nova informação provocou alguma mudança interior. Ainda no registo sutil.

Nota-se pelo olhar mais levantado no ângulo da altura da câmara, algum brilho de emoção. A indicação é de que houve alteração no estado da personagem, mas ainda não está clara em termos de definição emocional.

Camilla: Go on... the car is right outside the house...It's been waiting, ok ?

Naomi olha para o lado oposto da sala, o lado da câmara, sugerindo uma janela da qual pudesse ver a rua, ou o carro, ou o lado de fora, que não é mostrado.

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A boca está um pouco mais descontraída, a expressão do olhar continua a sugerir tristeza em combinação com a boca, embora sutilmente a emoção pareça estar a evoluir para uma intensificação da tristeza, através das expressões muito sutis faciais e uma certa tensão no olhar.

Antes de responder faz outra longa pausa, a boca movimenta-se sem som, indicando um esforço enorme para responder, o olhar volta para baixo, na posição inicial em que atendeu o telefone.

Diane: Ok.

Camilla: It's Mulholland drive.

O plano vai se aproximando. Naomi repete, sem toque pessoal, sem energia na voz.

Diane: Mulholland drive.

Depois de dizer isto, ainda em plano aproximado, Naomi (Diane) pousa o telefone (que não é visto) a câmara é mantida em seu rosto. A atriz levanta um pouco o olhar, agora em outra direção, um pouco paralelo a câmara. A boca está entreaberta, o olhar brilha, parece não respirar, ouve-se mais o som de fundo. E a cena acaba assim em fade-out.

Apesar de parecer uma cena de maior intensidade interior, a movimentação externa detalhada, executada de forma lenta e pausada, praticamente descreveu o caos interior no qual poderia estar aquela personagem nas circunstâncias apresentadas.

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Nesta última cena Naomi não poderia estar totalmente entregue às emoções como estava na cena anterior, pois a atriz ainda tinha que indicar a intenção da personagem de disfarçar o que de fato estava a sentir verdadeiramente. Indica que a personagem não poderia ser autêntica e genuína em seu sofrimento e sua insegurança.

naomi sex.jpg É incrível perceber e estar atento para a imensidão de ações que um ator faz, cria e utiliza para transmitir as ideias da personagem na cena. São detalhes que muitas vezes nem passam pela idealização do realizador e passam despercebidas também para os espectadores que também visualiza o todo como resultado da cena. Claro que essas experiências de análise do trabalho da atriz não são determinantes, mas apontam uma opção, um caminho para que se possa falar sobre o que, de fato, o ator faz, em termos de ações práticas, para conseguir transmitir o objetivo da cena.

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O que importa não é “ser” mas “parece ser”, mesmo que o ator consiga sugerir pensamentos e sentimentos sem os experimentar realmente. A técnica, o estudo e a prática são essenciais para alcançar esse estado e desmistificar as possibilidades do trabalho do ator para as câmeras. Conhecer é o melhor caminho para ampliar as possibilidades do trabalho do ator em cena e também poder falar de uma forma assertiva sobre o seu desempenho.

Quem quiser saber mais sobre atuação para TV e cinema recomendo o livro que publiquei recentemente em: https://go.hotmart.com/U4987783A

REFERÊNCIAS

Livro:

BARON, Cynthia. CARSON, Diane. Reframing Screen Performance. Michigan: The University of Michigan Press. 2008, ISBN 13:978-0472-07025-1.

DILLON, Josephine. Modern Acting: A Guide for Stage, Screen, and Radio. New York: Prentice-Hall, 1940.

HAASE, Cathy. Acting for film. New York: Allworth Press, 2003, ISBN 1581152523.

MORGAN, Anna. An Hour with Delsarte. Boston: Lee and Shephard, 1891, 1289842655.

NACACHE, Jacqueline. O ator de cinema. (título original: L´Acteur de cinema, 2005). Tradução de Marcelo Felix. Lisboa: Edições Texto Grafia, Lda. 2012, ISBN 978-989-8285-51-5.

NAREMORE, James. Acting in the Cinema. Berkeley: University of California Press. 1988, ISBN 0-520-06228-0.

PEARSON, Roberta. SIMPSON, Philip. CRITICAL DICTIONARY OF FILM AND TELEVISION THEORY. London; New York: Routledge, 2001, ISBN ISBN 0-203-99200-8.

Site Internet:

BARON, Cynthia. CARSON, Diane. Analyzing Performance and Meaning in Film. Journal of Film and Video. Vol. 58, No. 1/2 (SPRING/SUMMER 2006), pp. 3-6. [Consult. em 18/06/2016]. Disponível no url: http://www.jstor.org/stable/20688511

Cenas de Mulholland Drive. [Consult. em 20/06/2016]. Disponível no url: https://www.youtube.com/watch?v=ANZsh2RQL1c

Entrevista com David Lynch sobre o casting de Naomi Watts. [Consult. em 21/06/16]. Disponível no url: http://blogs.wsj.com/speakeasy/2015/10/22/how-david-lynch-cast-naomi-watts-in-mulholland-dr-exclusive-video/

FLOREN, Gloria L - Tips on Analyzing Acting Performance. 2008. [Consult. em 20/06/2016]. Disponível no url: http://north.d127.org/teachers/dzubert/Film%20Studies/Analyzing%20Acting%20Performance.docx.

Filmografia

LYNCH, David— Mulholland Drive, 2001. KELLER, Torby—Pretty as a Picture: The Art of David Lynch, 1997.

1. http://www.metacafe.com/watch/an7n4dnJmmuhbJmm/mulholland_dr_2001_diane_mastrubates/

2. Entrevista da Naomi Watts concedida à IndieWire: http://www.indiewire.com/2015/10/mulholland-drive-highlights-from-the-criterion-collection-interviews-with-david-lynch-naomi-watts-more-109451/

3. Mulholland Drive Script - Dialogue Transcript: http://www.script-o-rama.com/movie_scripts/m/mulholland-drive-script-transcript-lynch.html


Priscila Assumpção

Doutoranda em Artes Performativas, Mestre em Estudos de Teatro, acting coach, escritora e patinadora de velocidade, adepta de maratonas físicas e mentais. Isso explica muita coisa....
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