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para além para sempre

Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer.

Goya: um observador corajoso (e genial) dos variados dramas humanos

Esse texto não tem nenhuma pretensão de debater a obra de Goya e nem será um artigo sobre a genialidade (inegável) ou as técnicas que esse emblemático pintor espanhol utilizou para retratar nobres arrogantes ou loucos despudorados; mulheres nuas, vestidas com simplicidade ou ao contrário, envoltas por rendas e ouro; cenas sangrentas de batalhas ou cenas idílicas de famílias coradas e ‘felizes’ . Divagar leve e livremente sobre a corajosa intensidade que resplandece na maioria delas foi minha simples intenção.


O olhar de Francisco de Goya em um auto-retrato, feito entre 1795 e 1797, já revelava: havia ali alguém determinado a expressar sua arte de forma intensa e libertária, ainda que isso lhe custasse a escassa saúde ou a reputação. Se fosse o olhar de um animal, seria como o de um grande felino em posição de ataque, mas há nele alguma tristeza e o brilho da coragem, qualidades que humanizam e que costumam ser relacionadas à sensibilidade artística.

Goya_selfportrait.jpg Auto-retrato

Goya, que nasceu em 1746 em um pequeno povoado espanhol, e era filho da classe média baixa - sendo ao lado de Picasso e Velásquez considerado um dos três maiores pintores espanhóis - sofreu vários revezes no início de sua carreira. Apesar disso, persistiu e, em um tempo no qual a nobreza costumava ‘bancar’ os artistas, ele soube consolidar seu talento - mesmo pintando quadros encomendados - ao imprimir em suas telas algo que ousarei chamar de "lado psicológico", que cintila suavemente nas faces de seus muitos retratados.

Em cada fase do pintor espanhol, veremos refletidas em suas telas as nuances emocionais que pairam no olhar conformado de uma duquesa - A Família dos duques de Osuna (1788), no olhar transtornado/enlouquecido de um marginal - Interior de um manicômio (1812), ou nos muitos olhos assombrados pelas batalhas de uma guerra que expõe seus variados dramas sem nenhum pudor - Os desastres da guerra (1820).

A todas essas situações, Goya esteve atento e, como exato observador, tratou de representar e revelar (a quem tivesse "olhos de ver") por meio de sua visão especial e caleidoscópica, os vários absurdos de seu tempo. Uma visão de mil prismas, capaz de ressaltar todo e qualquer detalhe belo, bizarro, odioso ou comovente de um rosto ou uma cena: assim são as pinturas de Goya.

Francisco_Goya_-_Casa_de_locos.jpgInterior de um manicômio

No entanto, a série "Os caprichos", formada por 80 gravuras e elaborada em 1799 é, para mim, a mais primorosa obra de Goya. Aqui, não há colorido, não há nuances levemente róseas ou verdes que revelem emoções contidas ou dolorosas...não. Aqui, há somente a quase pobreza visual que se expressa em gravuras feitas em água-tinta e que, segundo a fonte consultada, representam "uma severa crítica à sociedade, à ignorância e às crendices (...) cenas fantásticas, violentas, delirantes e etc.”. Como era de se esperar, a publicação das gravuras fez com que Goya fosse denunciado à Inquisição. Mas, por que essas gravuras são tão impressionantes? Talvez, porque nelas Goya tenha deixado que viessem à tona - de forma livre e impactante - todo o seu desejo de que no mundo do seu tempo houvesse um pouco de paz e igualdade.

Sim: ao denunciar, através da arte, todo o terror que era causado pela guerra e ignorância que empurrava as pessoas mais pobres para a escuridão de uma vida miserável, Goya que, por outro lado, convivia com a nobreza e a pintava em suas idílicas existências confortáveis, quis transmitir, de forma arrebatadora, outras realidades, os "outros mundos" que se ocultavam sob a realidade de sua época. A série "Caprichos" apresenta vários desenhos macabros e aterradores que provocam, ainda hoje, um sentimento extremado de revolta e descrença na humanidade. E, de todas as gravuras desta série, a mais representativa e atemporal - talvez, a mais "famosa", ou a que me levou a admirar Goya e a descobrir sua produção artística - é aquela intitulada de forma perfeita como "o sonho da razão produz monstros".

Los_duques_de_Osuna_y_sus_hijos.jpg A Família dos duques de Osuna

Quando a razão acorda...

Goya-Capricho-43.jpg O Sono da razão produz monstros : será que nossos 'monstros' são tão terríveis como pensamos?

Talvez, seja útil esclarecer que Goya, ao pintar esta série, convalescia de uma doença (não identificada) que o deixara surdo, mas a surdez tivera o dom de enriquecer ainda mais sua imaginação, a tal ponto que ele foi chamado de "visionário". É que, ao deixar que sua criatividade se libertasse e se expressasse sem limites, Goya atravessou caminhos tortuosos e encontrou até em seus pesadelos (ou principalmente neles) uma matéria prima fértil e consistente que expõe de forma nada lisonjeira todos os horrores que os humanos são capazes de arquitetar quando estão envoltos por situações de confrontos, sejam eles de natureza íntima - os vários medos e as variadas culpas que acumulamos ao longo da vida - ou de natureza ampla - digamos que, aqui, entram os confrontos maiores, socialmente aceitos em nome dos diversos padrões que sustentam a sociedade corrompida em que vivemos (em que ele vivia) e que "permitem" (ainda hoje) a existência das guerras, das desigualdades, da exclusão de certos grupos etc.

(Alguém já disse que o mundo muda para que continue igual...pois, é bem por aí).

Mas, voltando ao "sonho da razão": nesta gravura que mostra um homem com a cabeça apoiada sob os cotovelos e envolto por "monstros", é possível identificar uma centena de "técnicas ou psicologismos ocultos", mas essa (como destaquei no começo) não é minha intenção, e nem poderia ser pois, não sou estudiosa das artes e é nessa condição que vejo nessa gravura de Goya, todos os aspectos que eternizam e fazem com que a obra de um artista alcance o status de arte: a atemporalidade, a qualidade de um trabalho que aprofunda a reflexão em torno de temas caros a todos nós - não importa em que tempo vivamos -, a razão adormecida produz monstros terríveis sim, e seremos obrigados a enfrentá-los tão logo "acordemos" para a realidade.

Talvez, isso pareça simples desvario ou delírio de uma mente imaginativa em excesso. Certamente, os mais céticos e extremamente racionais poderão não ver nada disso. Por outro lado, como pessoa que encontra na arte um tipo de refúgio ou, ao menos, uma explicação (ao avesso) para as tantas bizarrices humanas, ouso dizer que nesta obra do grande (porque soube olhar as miudezas do cotidiano e dos variados dramas humanos) Francisco de Goya está quase que um tratado ou um manifesto da condição humana.

Mas, se a razão adormecida (alienada?) produz monstros, talvez, se tivéssemos a coragem de acordarmos e encará-los, um a um, quem sabe, assim, eles não ficariam menores, insignificantes? Quem sabe?

Ao deixar que viessem à tona seus monstros pessoais mais íntimos, ao deixar que fossem expressos por seus traços e pincéis, Francisco de Goya foi, acima de tudo e para além de qualquer explicação tecnicista ou artística, muito corajoso, e ouso (mais uma vez) dizer que somente a intensidade corajosa é capaz de libertar a arte e de revestí-la daquilo que a eterniza e que a transforma, finalmente, em "arte".

Fonte: Francisco de Goya – Coleção Grandes Mestres da Pintura – Folha de São Paulo - 2007 Todas as imagens: Domínio Público


Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..
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