add infinitum

para além para sempre

Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer.

Por que ‘Subdivisions’ do RUSH é uma música perfeita

O que acontece quando uma simples canção roqueira consegue ultrapassar a fronteira invisível que ergue ao redor desse estilo limites que o identificam somente com a já mais que batida tríade diversão + sexo + bobagens juvenis ? Quando paira sobre o rock certa consciência crítica ou uma capacidade de expressar ‘o sentimento do mundo’ (como disse o poeta) e quando a isso se juntam substâncias como a rebeldia contra o velho sistema social que teima (até hoje) em construir padrões para tudo e quem não se encaixa que se dane... Bem, foi de uma mistura disso tudo que nasceu esta belíssima e atemporal canção do grande RUSH.


Imagino que você já tenha lido por aí que a arte verdadeira é eterna, de minha parte penso que é porque há nelas um tipo de fundamento que as protege contra a corrosão que teima em atacar tudo e por tudo entenda-se até nós humanos (ou principalmente nós humanos). Mas certas coisas parecem imunes a essa ferrugem do tempo, nós as olhamos ou as ouvimos ou as lemos e tudo que as envolve parece fresco, jovial e puro (e frescor e jovialidade não tem absolutamente nada a ver com juventude ou modismo). É que essa pureza reside quase sempre, na coragem de quem ousou _ em seu tempo _construir algo verdadeiro apesar dos pesares (ou dos apelos comerciais/ midiáticos que são quase sempre imediatistas e por isso, limitantes).

Vintage_Geddy_Lee_with_Quiver.jpg Foto: Timothy/Wikicommons - Geddy Lee, vocalista do RUSH, em fotografia da década de 1970.

Leia algum conto/livro de Dostoievski, veja um filme de Bergman ou uma fotografia de Cartier-Bresson e você será atingido pela força dessa atemporalidade. É como uma rajada de ventania, é como a certeza da morte: morreremos um dia, é claro; mas até lá não percamos nosso escasso tempo com as novidades rasas que são e serão tragadas pelas horas dos dias até o final desse ano (porque o tempo é veloz e bem cruel e não há como escapar dele a não ser que se crie/faça algo atemporal).

Pois é, há formas de resistir e a perfeita ‘Subdivisions’ do RUSH é um bom antídoto para o caso de você se sentir novamente_ como nos tempos juvenis _ pressionado, inadequado, fora do padrão ou simplesmente tristonho. Mas a pobreza musical deste nosso começo de século também pode ser uma boa desculpa para que voltemos ao peso arquitetonicamente elaborado com maestria pelos músicos dessa banda canadense. É que em algum lugar do passado havia bandas de rock que conseguiam transformar esse estilo popularesco e considerado pelos críticos, bobinho, em obras de arte de respeitável valor e isso o tempo, decididamente, não corrói.

É por isso que mesmo tocando em estádios, mesmo estampando camisetas que se vendem tanto na web quanto na galeria do rock, em São Paulo; mesmo indo em chatíssimos talk shows para promover novos trabalhos, o RUSH é sem dúvida nenhuma, uma banda que se mantém imune à passagem do tempo. Mas, embora pareça, esse texto não é uma ode ao RUSH e saiba: nunca fui a um show deles, nem sei a discografia completa, nem nada disso. Conheço as músicas famosas e algumas outras, assisti ao documentário e achei a história deles muito legal (porque são ‘trabalhadores do rock’ e buscam a excelência) mas o que me fez gostar mesmo do RUSH foi uma despretensiosa música chamada ‘Subdivisions’ (linkada aí embaixo).

Muros invisíveis (mas intransponíveis)

No clipe da música um adolescente do tipo ‘nerd’ vive aquele inferno típico dessa fase da vida para quase todos: a frustração por não fazer parte da ‘turma dos populares’ da escola, a pressão oculta para que faça, a solidão... E enquanto vemos o rapaz solitariamente aqui e ali em suas atividades juvenis, as notas da canção parecem ser construídas para criar o efeito exato do que a letra sugere: as tantas subdivisões que existem ao nosso redor desde que começamos a existir: no bairro _ o subúrbio, o centro, a periferia_ na escola _ os populares, os nerds, os tímidos, os extrovertidos _ na cidade toda enfim _ as vias urbanas, os bares, as escolas_ e assim por diante.

Sim: sabemos _ porque fomos condicionados socialmente _ que o mundo é assim, as coisas são assim e nada vai mudar isso; para além do ‘social’ existem os aspectos culturais, econômicos _ esses então, costumam separar com muros quase intransponíveis _ estéticos e por aí afora... Mas quando somos adolescentes tudo isso pode parecer mais doloroso e quando vemos no clipe, o rapaz com seus óculos ‘fundo de garrafa’ se esgueirando entre os ‘muros’ sociais, sendo desprezado ou alvo de risos sarcásticos da galera popular da escola, vamos entendendo porque essa é uma canção que é sim, uma obra de arte.

Arte em sentido pleno, total e inegável. Porque é preciso muito talento e claro, vivência e ainda, bastante sensibilidade, para inserir em um estilo como o rock temas de difícil expressão. Ora, é tão mais fácil falar de diversão e mulheres; mulheres e diversão; para quê falar das subdivisões que existem na sociedade e que continuam separando ricos e pobres, negros e brancos, europeus e migrantes, feios e belos, famosos e não famosos... Aqui é claro, o foco é uma escola de segundo grau: aquele lugar tão cultuado porque representa, em qualquer cidade do mundo, o quase sagrado local do aprendizado e do nivelamento forçado ao que se chama ‘sistema social’: encaixe-se e você será bem-vindo; não se encaixe e seja ignorado.

No documentário 'Beyond the Lighted Stage' (link no final) sobre o RUSH ficamos sabendo que a vida deles não foi nada, nada fácil; eram garotos de subúrbio de uma cidade canadense que levavam muito a sério a ideia de ter uma banda e foram atrás disso com determinação. O resto você pode imaginar: quem entende mesmo, de verdade, de técnicas musicais (para além do rock) considera o RUSH uma das maiores bandas de todos os tempos. Eu não entendo nada, só gosto quando artistas de qualquer natureza ousam tocar em pontos polêmicos quando constroem suas artes.

Mas voltando ao clássico Subdivisions: veja o clipe, preste atenção na letra (link abaixo) e entenda porque essa música atravessou (atravessa) décadas e chega ao século XXI renovada e intensa como se tivesse sido composta ontem. Acho que é porque sua matéria é feita daquilo que nunca morre e que também se renova apesar do rolo compressor do tempo (porque as neuroses adolescentes também se renovam a cada geração): a inquietude, a revolta, alguma tristeza sim, mas a esperança de que, quem sabe um dia, todos estes muros que nos rodeiam caiam por terra e as ‘subdivisões’ que nos condicionam/separam deixem de existir. É claro que isso é uma tola utopia mas ouvindo essa música do grande RUSH a gente continua acreditando e, além do mais, o rock _ o estilo musical antissistema, apesar dos pesares _ também funciona como um tipo de terapia, como não?

A música : https://youtu.be/EYYdQB0mkEU

A letra: http://www.vagalume.com.br/rush/subdivisions-traducao.html

O documentário: https://youtu.be/P73Zk382M3A


Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..
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