add infinitum

para além para sempre

Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer.

A gestação de um país ou Brasil: eterna utopia?

Você é um brasileiro típico que 'adora' falar mal do Brasil e bradar que o Brasil é 'assim' (corrupto, mequetrefe e etc.) por causa dos políticos? Mas você já parou pra pensar que os políticos são pessoas como eu e você? Gente do povo e, ainda que alguns sejam das classes A ou B ou AA/BB, são sim, do povo. E se eles estão 'lá' foi porque nós os colocamos 'lá'? O Brasil: há quanto tempo lemos e ouvimos por aí tantas bobagens sobre esse nosso país, não é mesmo? Mas e se a gente conseguisse pensar de forma mais ampla, para além das fronteiras patrióticas e/ou nacionalistas que são limitantes e rasas? E se a gente finalmente entendesse que países democráticos não se constroem da noite para o dia? E se conseguíssemos enxergar além do circo midiático que (de tempos em tempos) é armado por aqui para que aceitemos que nada vai mudar e que sim: seremos sempre vistos como um país 'meia boca'. E se...? Talvez a hora de mudar seja exatamente essa.


É assim com as mulheres grávidas: é preciso que tenham boa saúde física e se possível, emocional para que seus rebentos nasçam saudáveis, fortes e espertos. Para que o choro da chegada à vida seja breve e para que os próximos lamentos que se seguirão ao longo da existência sejam superados rapidamente. Espera-se que um ser humano biologicamente exemplar vivencie os conflitos que lhe são reservados com doses iguais de calma, coragem, sensatez e todas as qualidades e benefícios que os autores da auto-ajuda apregoam como ideais para que se tenha uma vida plena.

Talvez quase tudo na vida dependa disso mesmo: do ‘antes’, de certo preparo e persistência; de acreditar _ por exemplo _ que uma terra arenosa quando bem adubada, fertilizada e cuidada poderá sim, fazer com que a semente tão pequenina daquela árvore que esperamos ver frondosa, prospere, frutifique e projete uma bela sombra na qual possamos pendurar uma rede num final de tarde de um futuro que, esperamos, seja pacífico e agradável.

Essa esperança, essa credulidade na certeza de que árvores brotarão saudáveis e geraram frutos e sombras; em que bebês serão paridos e haverão de se tornar também pessoas saudáveis e mais ainda; seres humanos dignos de viverem suas vidas, simplesmente; de viveram suas vidas com dignidade e (dependendo de onde nascerem) com uma estrutura social que ofereça essa dignidade sob a forma de um estado que o inclua e o auxilie durante sua existência...

Essa esperança que faz com que a gente enxergue no presente, por vezes tão sinistro e caótico, uma árvore frondosa que projete sombras frescas em dias de sol absurdamente quente; uma árvore sob a qual possamos nos sentar ao lado de quem gostamos para apreciarmos a moldura viva da existência na qual estamos _ milagrosamente para uns, filosoficamente para outros, racionalmente para outros tantos _ incluídos...

Pois eu gostaria de ser capaz de manter essa esperança, gostaria de fato, de verdade, de ser uma equilibrada e sábia interlocutora de mim mesma porque eu preciso acreditar que vivo em um país no qual vale a pena passar essa minha existência humana (nada exemplar, mas...sigo tentando).

Ainda que seja sempre tão difícil acreditar quando abrimos os jornais pela manhã e nos deparamos com as velhas e renovadas notas sobre corrupção; ainda que saibamos que a malfadada corrupção é um instrumento que parece existir somente entre aqueles que trabalham com a política; ainda que finjamos esquecer que a tal corrupção está entranhada em nossas atividades diárias e que pode se revelar fácil e singelamente, quando conversamos com aquele colega de trabalho tão bem intencionado; com o parente que acha normal ter feito algo terrível para beneficiar o filho ou a filha ou a mulher ou quem quer que seja nesta ou naquela situação.

Meirelles-primeiramissa2.jpg Estará o Brasil condenado a ser eternamente um 'paraíso' de facilidades e uma utopia quando se trata de atitudes sérias e grandiosas? Imagem: Wikicommons - Victor Meirelles - A Primeira Missa no Brasil, 1861.

A corrupção cotidiana

Percebam quantos forem capazes que a fétida lama da corrupção emporcalha o próprio chão no qual pisamos enquanto sociedade que se ergueu sobre tantos desmandos, preconceitos diversos, variados e aparentemente sólidos como rochedos; vejam que a terrível corrupção que faz com que alguns de nós se vistam com cores nacionais e se deem ao trabalho de andarem pelas ruas gritando palavras de ordem (para o vento? Para eles mesmos? Espero que sim) é quase sempre ignorada com honras gloriosas sempre que alguém (talvez você conheça alguém assim) evita dizer que aquele emprego foi conseguido a custa disso ou daquilo; arranja desculpas para dizer que trafegou pelo acostamento ou que dirigiu bêbado por causa disso ou daquilo e etc. e etc.

É dessa forma que vamos _ inacreditavelmente_ ‘construindo’ um país sob uma lama pantanosa que emporcalha as mãos dos personagens que exercem o poder político, mas que também se revela nas variadas formas de manipulação midiática que aliena alguns que parecem até sentir prazer nessa alienação e que _ sem se aprofundarem de verdade em certos debates necessários – são a imagem mais deplorável do que podemos chamar sem medo de errar de ‘massa de manobra’.

Mas o que tudo isso tem a ver com mulheres grávidas, bebês saudáveis, árvores frondosas que projetam sombras refrescantes? Simplesmente o fato de que para que as sementes – de pessoas ou árvores, não importa _ deem bons frutos, é preciso cuidado, tanto quanto é preciso determinação e coragem e sob esse ângulo talvez possamos incluir os países, as nações, as sociedades, as coletividades... Há nelas uma efervescência de valores e virtudes; de amores e raivas; de esperanças e desejos; de sonhos promissores e tantas outras utopias que são o adubo, o fermento da terra na qual cada uma dessas ‘coisas’ se projeta em forma de sementes tão pequenas, tão minúsculas que são quase invisíveis...quase.

Mas talvez essa aparente invisibilidade possa desaparecer se mantivermos intacta no coração a certeza de que democracias não são construídas instantaneamente; de que os países mais sérios (numa alusão a certo detestável clichê sobre o Brasil) se tornaram assim, seriamente respeitados e dignos e prósperos, porque a qualidade do solo era boa, mas essa qualidade foi certamente adubada pelos sonhos mais valorosos das pessoas destes países.

Um país só pode ser de fato valoroso e justo quando todos _ T-O-D-O-S – estão incluídos de maneira digna em todo e qualquer projeto de melhoria social, no caso do Brasil principalmente social. Uma democracia em processo de gestação; uma fase da história nacional que esperamos, possa representar uma bem vinda mudança de cima para baixo, de baixo para cima, de todos os lados para todos os lados. Isso seria tão maravilhosamente bom, não é mesmo?

Seremos capazes de construir o país com qual sonhamos? Somos, hoje e agora, capazes de enxergar nas entrelinhas que as sementes que lançamos anos atrás precisam, nesse momento, da força da nossa esperança para que resistam e finalmente atravessem a terra árida e encontrem a luz do sol? Ou deixaremos que esse sonho (mais uma vez) esmoreça?


Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Ana Vargas