add infinitum

para além para sempre

Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer.

Como explicar os sonhos? Essas engrenagens do inconsciente nas quais nos perdemos?

Carl Jung disse que os sonhos são ‘manifestações’ verdadeiras da criatividade do nosso inconsciente. Ele foi somente um dos muitos que tentaram entender a enigmática atividade que domina nossa mente quando sonhamos. Quanto ao nosso inconsciente, este seria “um complexo psíquico de natureza praticamente insondável, misteriosa, obscura, de onde brotariam as paixões, o medo, a criatividade, a vida e morte”. Assim do alto do meu parco entendimento onírico, eu digo que os sonhos são como ‘cenários’ de intensa liberdade e desvario, mas se isso é um deslumbre para nossos egos oprimidos pela realidade, também é apavorante, pois liberdade excessiva pode significar andar nas margens dos mundos aterrorizantes dos piores pesadelos... E só quem já teve um desses sabe do que estou falando...


Geralmente é assim: enquanto alguns acordam nos contando sonhos repletos de atividades e estranhezas, outros passam pelo período do sono como se estivessem completamente cegos e pela manhã, afirmam não se lembrar de nada... nada...

É que pessoas que adoram contar seus sonhos logo cedo também costumam encontrar pela frente outras muito pouco dispostas a ouvi-las... E eu faço parte do primeiro grupo: entendo perfeitamente aqueles que acordam transbordando histórias absurdas e sei que dividi-las nos oferece algum conforto (ainda mais quando tivemos pesadelos terríveis).

(Mas na correria diária, quem se dispõe a ouvir os relatos oníricos dos outros? Aliás, quem pode ser dar a esse (tremendo) luxo? Somente os analistas ou terapeutas que são pagos para isso, é claro).

Mas, voltando: sabemos que entender o que quer que seja exige disposição, clareza de raciocínio, disciplina; se nos dispomos a entender determinada matéria, certa ideia filosófica, o pensamento iluminado de um sábio, enfim, é certo que teremos que ler algum material, nos inscrevermos naquele curso e por aí afora. Mas com os sonhos a ‘coisa’ não funciona assim, porque sonhos são feitos de matéria intangível, imemorial e absurdamente fantástica e por isso são o que são: sonhos. Fragmentos irreais (ou surreais) que se perdem logo que acordamos e pronto.

Sonhos são o fundamento de mundos que sequer podemos compreender ainda que tenhamos as tais qualidades citadas acima: disposição, boa vontade, disciplina; ainda que sejamos legais, organizados, cheirosos e politicamente corretos. Os sonhos – felizmente – estão muito (mas muito) além de toda e qualquer tentativa humana de compreensão e é exatamente isso que faz com que sejam tão absolutamente maravilhosas (ou tão terrivelmente assustadores).

Ora, é claro que os grandes psicanalistas possuem tratados sobre os sonhos, é claro que Jung, Freud, Lacan e outros se empenharam muito e nos legaram obras repletas de ‘luzes’ que ajudaram (ajudam) imensamente a clarear o entendimento sobre o ‘mundo transparente dos sonhos’. Não se trata – nem de longe – de negar isso. Quem sou eu para...?

Mas, confesso que quando penso nos meus sonhos (e somente neles) eu não consigo analisá-los sob nenhum aspecto psicológico ou psicanalítico dada às esquisitices que sonho. Apesar disso, foi em Jung que encontrei ‘algo’ mais ou menos adequado para entender os meus sonhos, pois ao dizer que eles independem da consciência, que não possuem nenhum objetivo ou intenção e são por isso, como acontecimentos da natureza; Jung libertou-os das minhas vãs tentativas de interpretação.

Afinal, se os sonhos são acontecimentos da natureza e, portanto, não intencionais, eu comecei a pensar de forma extremamente simplificada, que nesse exato momento em que escrevo sob a escuridão mais que profunda de um céu no qual cintilam mais que um bilhão de estrelas, milhares de milhares de acontecimentos naturais estão ocorrendo porque simplesmente precisam acontecer, ora. E ponto.

Glimpse_of_a_dream_(9391068364).jpg Sonhos: liberdade que encanta e apavora. Imagem: Paul Bica from Toronto, Canada - Glimpse of a Dream/Wikicommons

Deslumbre e pavor

Quantas aves estão agorinha, em seus ninhos chocando ovos, quantas mulheres prestes a darem a luz, quantas detestando o fato de que darão a luz, quantos insetos sequer catalogados se enfiando nas entranhas da terra, quanta terra colorida por minerais azuis ou avermelhados (como vi hoje) e que formam paisagens tão naturalmente deslumbrantes que serão (e na maioria das vezes, não serão) vistas, mas o fato de que ninguém verá nenhum desses acontecimentos naturais não impede que toda essa atividade orgânica aconteça silenciosamente, de forma delicada, exata e invisível porque é assim que tem que ser e (de novo) ponto.

Imagine_(8367239849).jpg Imagine - Wikicommons

Pois eu que sonho todos os dias com pessoas que morreram em 1977, 1980, 1994 ou em 2008 (e geralmente com todos que já se foram), com gente que eu gostava (ou não) e que caminhava comigo na infância, na adolescência ou ainda ontem... Eu que sonho com cidades enormes nas quais nunca fui e vejo todos os detalhes de suas arquiteturas do mesmo modo que sonho com povoados de uma única rua que se parecem com algo que li de Roberto Bolaño ou Juan Rulfo... eu que acordo tão cheia de perguntas e tento rever na realidade _ um exercício ridículo, aliás _ trechos inacabados que formam outros fragmentos que se dispersam como poeira soprada pelo vento... Eu que sonho com os longos corredores da primeira escola e com a professora daquele tempo que morreu no ano passado... eu que sonho com meus amigos de hoje, com os lugares nos quais vivo hoje, mas tudo isso está entremeado de lembranças como se antes de estar aqui, muito antes, eu já tivesse vivido aqui... Pois eu acho que simplesmente comecei a entender que os sonhos não foram feitos para serem compreendidos e muito menos interpretados ou o que quer que seja: os sonhos nos oferecem a chance única da transcendência e, ainda que seja por vezes, aterradora essa possibilidade, ainda assim, sonhar representa um exercício de liberdade indescritível.

Nos sonhos as fronteiras todas inexistem, somos atemporais e universais; não temos nacionalidade nem patriotismos tolos; caminhamos nos sonhos como se andássemos por territórios nos quais nos encontramos com nossas maiores virtudes e, é claro, com nossos mais execráveis defeitos. Se andamos nus em lugares públicos e não temos nenhuma vergonha (ou temos muita), se somos celebrados como gênios ou ao contrário, se somos odiados; se somos mendigos ou deuses, podemos ser deuses imbecis ou mendigos felizes a caminhar por lugares maravilhosos ou ao contrário, feios, degradantes... Enfim: nada é o que parece ou poderia ser e tudo é outra coisa, carregada de simbolismo e de intrincadas referências. O certo (?) é que cada uma dessas nossas facetas se revelam de forma naturalmente simples nos nossos sonhos e talvez essa seja a suprema liberdade que todos nós buscamos (e nunca encontraremos) na realidade, essa aqui que nos limita, oprime, pressiona com suas noções mesquinhas de gênero, identidade, nacionalidade e tantas outras catalogações as quais _ queiramos ou não _ todos nós humanos temos que nos submeter quando nos tornamos (entre muitas aspas) ‘civilizados’.

De minha parte digo que apesar dos sonhos tenebrosos que tenho às vezes, vejo meus sonhos como pequenos presentes que tenho todas as noites e sou grata a quem quer que seja _ Deus? Uma energia maior e transcendente? _ pela possibilidade de simplesmente: sonhar.

(E digo ainda que escrever sobre sonhos é tarefa infinita e bastante inútil)


Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..
Saiba como escrever na obvious.
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