add infinitum

para além para sempre

Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer.

Como nos tornamos o que fomos?

Numa rodoviária do interior o mundo adulto articula suas tantas demandas: um ônibus está partindo e outro chega; um motorista sério, recebe as passagens e as confere muito seriamente (pois é um adulto centrado); uma jovem mãe tenta acalmar um bebê que chora sem parar...Enquanto isso, um menino de uns 5 anos, gira na plataforma alheio a tudo isso e parece brincar sozinho em um ‘mundo’ que só existe na sua cabeça. O ônibus parte e eu o vejo, de longe, ainda girando e girando...Todos nós, quando crianças, já fizemos algo parecido (se pudemos viver, de fato, a infância; porque é certo que alguns não podem) e a pergunta é: até que ponto as experiências da infância (indiferentes às tantas demandas adultas) vão moldar a personalidade que teremos na fase adulta? E porque quando crescemos, esquecemos que já estivemos na pele das crianças?


Lembra quando você era criança? Quando era obrigado a enxergar o mundo de baixo para cima, quando tinha a obrigação de ser obediente, bonzinho, educado e por aí afora? Lembra quando o mandavam lavar as mãos antes de comer, rezar antes de dormir, cumprimentar (sorrindo) o tio chato ou a tia grosseira? Lembra quando aquela professora o envergonhou diante dos seus colegas porque você não soube responder ‘aquela’ pergunta? Você se lembra da ‘obrigação’, daquela espécie de comando invisível que parecia guiar o pensamento dos seus pais, professores e etc.; aquele regulamento que dizia que era preciso ser educado, bonitinho, inteligente, esperto, rápido, amigável para que você coubesse no mundo?

Não sei se essas regras são muito setentistas ou oitentistas, mas no meu tempo era assim e penso que, ainda que tudo hoje seja tão moderno (como deve ter parecido a década de oitenta para alguém que, como eu hoje, tinha mais de quarenta anos quando eu tinha quinze) certas coisas são imutáveis. E uma dessas ‘coisas’ se refere à infância, ao crescer, ao modo com o qual vamos transformando as crianças em miniadultos que devem se comportar de acordo com o que nós consideramos o ‘certo’.

A infância , esta época nunca compreendida da nossa existência, já foi estudada e vista sob a ótica empírica que nos diz que a “ criança é um ser incompleto, um vazio inicial, já que sua mente é como uma página em branco que deve ser preenchida ao sabor dos fatores exteriores”; e também racional e aqui ela é vista como um adulto pré-formado ou “o resultado de sua própria razão, que já nasce com ela e que precisa ser desenvolvida”. Estas teorias ressaltam o pensamento distorcido de que a criança seria somente um ser passivo, um “mero objeto do mundo”; algo como uma página em branco na qual os ‘sábios’ adultos vão escrever suas muitas teorias/regras sobre a existência. Essa visão parece ignorar o singelo fato de que o ser humano adulto é somente o resultado das experiências (boas, más, insípidas, desastrosas...) que acumulou enquanto vivia a infância (e todo o resto). Só que quando crescemos, devemos _segundo o regulamento invisível _ esquecer que já fomos crianças, e nossa ‘missão’ é ditar regras e regulamentos para aqueles que hoje, nos olham de baixo para cima.

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Regulamento invisível (mas eficiente)

Esse regulamento quer, queiramos ou não, nos guia a todos, e existe tanto para o motorista que recebe a passagem, quanto para professores que expõem crianças a situações vexatórias; ainda e bastante para mães e pais que estão muito ocupados e não percebem (não por maldade, nada disso) o quanto os filhos podem estar perdidos em suas vidas. E este regulamento também parece negar que a vida é muito mais ampla, diversa e infinita do que qualquer... ‘regulamento’.

O escritor Reinaldo Damazio em seu livro ‘O que é criança’, nos diz que nesta fase da vida, somos impedidos de ser o que realmente somos devido às limitações impostas pelos adultos. Vejamos o que ele escreveu: “Fico sempre com a sensação de que algo se perde pelo caminho. Seja o brilho dos olhos, o sorriso e a palavra espontânea ou a criatividade fácil e corriqueira”. Damazio acredita, sobretudo, que o respeito à criança ocorre quando enxergamos sua autonomia e sua capacidade de “apreender o mundo, sentir seus limites, seus potenciais, seus desejos e fantasias. Nós só podemos reconhecer essa autonomia se tentarmos entender como funciona esse sujeito chamado (por nós) de criança” .

O autor também afirma que uma criança não é melhor nem pior que o adulto, é apenas diferente porque pensa e sente de forma diferente. Mas o que a maioria (bem intencionada, diga-se de passagem) dos adultos faz é tentar transformar a criança em um tipo de adulto idealizado para ajustá-la aos seus “ planos e anseios”.Ele também diz que “ toda criança, o que significa todo novo indivíduo (e toda uma nova geração de indivíduos), traz em potencial uma rica gama de possibilidades renovadoras, ainda que a sociedade opere dominantemente com padrões de repetição”.

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Se você leu até aqui, pode estar achando esse texto estranho, já que começo ‘falando’ sobre uma criança que gira em uma rodoviária de interior e enveredo muito superficialmente, por certas teorias sobre o que seriam as crianças ou a infância... Aqui talvez seja útil explicar que aquele menininho que girava parecia muito solitário, parecia quase querer se soltar da realidade e alcançar algum lugar bem longe do ‘mundo real’. Já vi muitas crianças assim, tão desligadas da realidade que parecem navegar em um mundo à parte e, embora não seja (nem de longe) psicanalista, nem estudiosa de nenhuma teoria que tente explicar a infância sob este ou aquele aspecto, tive a impressão de que aquilo era quase um pedido de socorro.

Fiquei pensando ainda que deveríamos ter muito cuidado ao lidar com as crianças, deveríamos tentar, o máximo possível, não nos enredarmos por alguns dos ‘regulamentos invisíveis’ que nos foram impostos (quando estávamos na mesma pele) e que, tantas vezes, vamos passando adiante sem o devido questionamento. Como adultos já cientes das tantas limitações e durezas da vida, corremos todos os dias, o risco de que a amargura venha contaminar nosso coração e (é claro) nossas relações. Inclusive, com as crianças que nos cercam, sejam elas, filhas, sobrinhos, filhos de amigos e, diante disso, podemos vê-las apenas como parte de um sistema que já está regulamentado e que deve, somente, continuar sua sequência repetitiva para que não tenhamos mais dores de cabeça em nossas limitadas rotinas adultas (ou seriam, adulteradas?).

Em resumo: uma criança representa um mundo de surpreendentes possibilidades que existem em centenas de sentimentos que podem ser contraditórios, mas que deveriam sim, ser respeitados. Nós como adultos do século XXI, deveríamos olhar as crianças _ quaisquer que sejam _ com um sentimento, de compreensão, sejam elas, espertas ou não; inteligentes ou nem tanto; lindas ou feias; arredias ou extrovertidas...Se conseguíssemos fazer isso, como tudo mais seria fácil...Mas se a perfeição existisse, não estaríamos aqui, não é mesmo? Nós que vivemos às voltas com problemas econômicos, políticos, ambientais, emocionais que nos afetam direta e indiretamente... Nós, obtusos tantas vezes, não temos tempo para contemplar _ e somente: contemplar_ a beleza que existe no fato de que sempre haverá no mundo, estes pequenos seres humanos em miniatura que são hoje, o que nós fomos ontem, e que deveriam receber de nós, no mínimo, um olhar de afeto e tolerância porque o que os espera não será nada (infelizmente) agradável. (Aqui cabe ‘dizer’ que talvez tenhamos que criar em nós, uns pequenos oásis de bons sentimentos, só assim poderemos cultivar e compartilhar afeto. Isso parece piegas e clichê? Pois ainda assim, me parece que não há outra alternativa).

Por fim: que as crianças de hoje possam viver suas infâncias e possam girar em rodoviárias de interior ou ficar quietas em seus cantos ou correndo como loucas na hora do recreio e que cada uma dessas atitudes sejam vistas simplesmente, como celebrações do viver. E que, enquanto adultos, não nos esqueçamos que continuamos aprendendo uns com os outros, sejam estes ‘outros’, adultos como somos hoje _ e que olhamos de igual para igual _ ou crianças como fomos ontem _ que para olhar nos olhos requerem que nos abaixemos, é sempre bom lembrar esse ‘detalhe’.

Esse artigo http://www.ufjf.br/virtu/files/2010/04/artigo-2a23.pdf foi bastante útil para escrever este texto.


Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..
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