add infinitum

para além para sempre

Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer.

Obrigada David Bowie

David Bowie já foi devidamente homenageado, endeusado, criticado, celebrado, amado e odiado...Já teve sua vida escarafunchada por aí em revistas, jornais, sites e demais publicações ao redor do planeta e ao longo dos anos desde o final da década de 1960; já foi também acusado de coisas terríveis (nunca comprovadas, que eu saiba) mas nesse texto eu tentei somente dizer a ele de forma bastante simples o quanto suas músicas e apresentações e jeito de ser (mesmo sabendo que aquele 'jeito' foi construído para torná-lo um 'produto' midiático-juvenil de vasta abrangência) tornaram minha adolescência suportável. Esta foi a minha forma de homenageá-lo e dizer: obrigada David Bowie.


bowie.png David Bowie no 'Top of the Pops' de 1974 (Wikimedia Commons)

Quando era ainda um molecote – e eu o imaginava bem branquelo, quase rosado como são as crianças inglesas que vemos em fotografias ou filmes – ele levou uma surra que o deixou quase cego de um olho e ficou, por isso, alguns meses acamado. Talvez tenha sido durante esse tempo de dor e raiva ou resignação, que ele tenha construído lugares mais agradáveis para viver aquele seu resto de infância de um jeito mais fantasioso e, sobretudo, seguro.

(O mundo pode ser um lugar terrível para todos nós, mas é pior para com as crianças e os idosos).

Então, ele deve ter começado ali – de forma inconsciente, penso – a erigir o que seria sua pedra de toque, aquilo que a gente tem de mais nosso, aquilo que nos define de uma maneira genuína e verdadeiramente plena e essa definição é perfeita porque nasce também da dor, da humildade que somos forçados a adquirir nesses momentos; da capacidade que brota em nossa alma de simplesmente aceitar: o que quer que a vida traga, aceitar (e isso como se sabe não é lá muito fácil).

Depois ele disse que seu olho ferido adquiriu uma cor diferente daquela que tinha antes e isso é bem bizarro (como a vida é) e então, ele foi crescendo e agregando em si, aquilo tudo que existe e que está fora dos padrões, dos sistemas, das margens e fronteiras sociais, afinal, não fora lá, no ‘mundinho’ esquematizado de uma escola que ele sofrera a violência que o faria quase perder a visão de um dos olhos?

Será que foi ali que ele adquiriu a capacidade de enxergar as nuances da vida para além da real realidade?

Isso foi há tantos, tantos anos; e ele, esse cara; como pessoa do seu tempo (mas inexplicavelmente, sempre à frente dele) só poderia se tornar mesmo um artista porque apenas as criaturas que vivem da arte (seja ela de que tipo que for, mas somente quando feita de maneira genuína) conseguem ultrapassar a rotineira banalidade das horas e dos dias às quais estamos todos submetidos.

Daí eu fico pensando: será que foi por isso que ele criou o Ziggy? Será que ele pensou em ser um extraterrestre para que assim pudesse se libertar de todas as formalizações sociais que aprisionam a todos – todos: desde um aborígene australiano a um homem de negócios sul-americano – em limitadas visões mundanas?

Talvez... talvez... É absolutamente impossível e inútil querer entender o que se passa na cabeça dele e para que faríamos isso? Não é esse o objetivo desse texto. O fato (bem agradável) é que ele passou por nós como uma estrela cadente (embora isso seja um terrível clichê), criou músicas fantásticas e se tornou figura atemporal. Ouso pensar que suas canções foram criadas a partir de uma consistente matéria que misturava imaginação fértil, criatividade pujante (mas sofisticada, seletiva), muita melancolia, bastante erotismo (sem vulgaridade), revolta juvenil (sempre) entre outras substâncias poderosamente estimulantes.

Um homem de gelo (derretido)

Relembrando uma velha entrevista dada por ele em 1972 (e republicada anos atrás pela Rolling Stone) ele disse que se sentia como um “homem de gelo, meio alienado andando por aí” e isso não deixa de ser algo estranho quando nos lembramos da efervescência hippie da época; já em 1987, ele disse estar mais alegre do que jamais fora (isso dito no final da tal década perdida, a era dark e sombria e o pior, cheia de yuppies, também soou contraditório, mas ser contraditório não traduzia sua essência?).

Já em 1999 ele disse não se achar de modo algum, inteligente (a humildade...a humildade) e se lembrou de um sonho que tivera aos quatro anos de idade; nesse ano ele disse ainda que tinha o hábito de transcrever seus sonhos (eu sempre pensei que havia muito de mundos sonhados em suas canções e me lembro do clipe de 'ashes to ashes' e daqueles cenários oníricos meio angustiantes mas carregados de lirismo).

Nos anos seguintes, ele foi falando algo aqui e ali, sempre dando a impressão de que não estava ‘ali’ de fato, sempre parecendo olhar as coisas como se estivesse em um farol ou numa nave acima delas. Pois o mundo grandioso e farto de tantos acontecimentos belos, estranhos, felizes e tristes, continuou muito antes dele e de qualquer pensamento dele, meu, de todos nós; a engendrar as milhares de situações que podem parecer banais (para a maioria de nós) mas são para aqueles que como ele, conseguiam enxergar além da realidade ‘real’.

O fato é que ele, nesses perfis feitos em revistas de música ou generalistas, era mostrado sempre de um jeito endeusado e oco, como se ele fosse um ídolo, um ícone ou algo assim e é claro que, para muitos, ele era (é) isso mesmo mas, penso que vê-lo assim não lhe fazia justiça, na verdade, o reduzia e o tornava apenas mais um artista como outro qualquer.

Tardes ruins

Enfim, tudo o que a indústria musical construiu em torno dele e claro, com sua adesão total, mas também com sua lucidez – afinal ele se erigiu em cima de seus defeitos e dores e ‘tardes ruins’ como disse também na mesma entrevista de 1972 – tudo o que ele permitiu que fosse vendido de si mesmo para a massacrante indústria midiática, no entanto, não o tornou uma personagem falseada e vazia como aconteceu com tantos outros que surgiram enquanto ele também surgia.

Pois, esse cara conseguiu, de um jeito que merece apreço, ser o rosto de um tempo que vem, desde o fim da década de 1960, se deglutindo, se consumindo; como se aquela enigmática esfinge propusesse a si mesma, incessantemente, mais e mais charadas nunca esclarecidas, impossíveis de ser esclarecidas, enlouquecedoras até.

E ele, com seu olho estilizado de extraterrestre engraçado, louco ou os dois, do tipo que viria a terra não para nos humilhar ou algo do tipo, e sim, para nos trazer algum alento; pois ele conseguiu permanecer e se tornar quase que um símbolo do quanto a música – e o rock, mais precisamente, porque é o que toca esse meu coraçãozinho pós-moderno e farto de tanta música ruim – consegue – e eu realmente acredito nisso – tornar a vida suportável e essa é uma qualidade deveras rara e preciosa nesses nossos tempos globalizatórios que transformam mediocridades em genialidades e passam por cima das identidades – culturais, sociais e outras mais – como se fossem uns tratores (ditos) civilizatórios.

(Lembrei de Let’s Dance e do clipe oitentista que de certa forma ‘fala’ disso)

Acho que ele, esse cara, não foi um artista construído na ante-sala de uma produtora ou saído da cabeça de algum ‘empresário’ musical; acho que aquele olho esquisito dele certamente tinha mais a ver com o que ele se tornaria do que qualquer genial ideia midiática teria sido capaz de criar.

Aquele olho do Bowie _ e suas poesias musicadas e seus personagens inverossímeis _ se tornaram atemporais e por isso, fui obrigada a ressuscitar esse texto, um tanto antigo, como forma de homenageá-lo. Eu quis escrever como se tivesse de novo 16 anos de idade e fosse uma adolescente do interior que ao ouvir ‘Let’s dance’ achou que a vida era boa. É por isso que ‘digo’: obrigada David Bowie por ter tornado meus dias oitentistas (e os demais) poeticamente suportáveis, maravilhosamente belos e incrivelmente leves.

Obrigada Mr. David Bowie: que de algum ponto do universo, sua luz continue brilhando para nós.


Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..
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