add infinitum

para além para sempre

Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer.

'1974': uma obra prima do rock progressivo nacional (e mundial)

Em 1975 a banda de rock ‘O Terço’ lançou o disco ‘Criaturas da Noite’ álbum feito com esmero e capricho, disco que está entre os clássicos do rock nacional e quiçá, mundial. Sim, porque este disco foi feito de forma tão primorosa nos arranjos, nas composições, na elaboração das letras (verdadeiros poemas) que, sem dúvida nenhuma, está no mesmo nível dos discos das bandas estrangeiras que o inspiraram. E, entre todas as pérolas, a música instrumental '1974' que fecha o LP, é de longe, a mais bonita música já composta nestas nossas paragens.


Dizem os entendidos, que o valor de uma obra de arte seja ela de que gênero for (pintura, música, literatura, cinematografia etc.) se revela quando, passados muitos anos, sua força permanece e ultrapassa o tempo de sua elaboração.

Foi (e é) assim, por exemplo, com obras clássicas da literatura nas quais os cineastas vão buscar inspiração quando suas ideias precisam da renovação altamente criativa e brilhante de narrativas como aquelas escritas por Tolkien em seu magnífico ‘O senhor dos anéis’. Como você deve saber, este livro rendeu uma saga cinematográfica que continua reverberando. E este é só um entre inúmeros exemplos. (O cinema está sempre buscando na literatura, na mente imaginativa dos grandes autores, inspiração para filmes e séries)

Nas artes plásticas, gênios como Picasso, Dali ou Klimt e Monet, cada um em sua ‘seara’, são sempre lembrados, revisitados, estudados e, enfim, certas obras funcionam como pilares que sustentam em suas entranhas, todo o caráter do tempo no qual foram criadas, mas misteriosamente, elas conseguem ultrapassar o próprio tempo que as envolve e tornam-se assim, eternas. Atemporais.

Pois o disco ‘Criaturas da Noite’, do Terço, foi um trabalho musical tão bem feito que resistiu e resiste ao tempo. Ele se situa aí, ao lado das obras de arte atemporais. E lá no final do disco, depois que você já ouviu maravilhas como a música que dá nome ao disco _ ‘Criaturas da Noite’ _ e ainda, ‘Jogo das Pedras’ e a clássica ‘Hey Amigo!” , entre outras, é que se revela como uma epifania, a belíssima 1974.

oterçocapadisco.jpg A capa do LP também é uma obra de arte do artista plástico Antonio Peticov.

1974 seria um ano qualquer se ...

1974 foi um ano como qualquer outro na escala do tempo infinito que recobre o mundo. Tragédias aconteceram aqui no Brasil (como o terrível incêndio do edifício Joelma em São Paulo), estávamos sob o jugo de uma fatídica ditadura militar e no mundo a ainda nascente década de 1970 haveria de se revelar uma época de grandes revoluções em todas as frentes (feministas, políticas, étnicas, sociais e etc.). O mundo mudaria profundamente a partir daquela década. Os anos 70 foram aquele tempo difuso (quando o vemos daqui, do ‘futuro’) no qual as pessoas pareciam não ter medo de experimentações, fossem elas nas suas vidas pessoais, nas artes que faziam ou em quaisquer outras formas de expressão.

Pois esse destemor, essa ousadia existe em cada nota da música 1974. Esta canção parece celebrar de forma esperançosa, entusiasmada e alegre, mas também aterrorizante e corajosa, aquele ano do começo da década. Aquele seria um ano como outro qualquer, como haviam sido os anteriores_ 1972 ou 1973 – se não fosse a genialidade de alguém (o músico Flávio Venturini) que achou por bem nomear uma música como ‘1974’.

oterçogrupo.jpg O Terço _ Flávio Venturini, Luiz Moreno, Sérgio Hinds e Sérgio Magrão _ uma rara e memorável reunião de talentos.

O tempo é uma eterna incógnita, disso sabemos todos. Somos atravessados, diariamente, por sentimentos intensos, contraditórios, apaziguadores ou conflitantes: é assim durante toda nossa existência. No meio disso tudo os anos que vivemos (viveremos) são e serão apenas ‘anos’, nada mais que isso, a não ser que algo aconteça e estes anos se eternizem.

Pois é isto que faz de 1974 uma obra prima: parece existir em cada nota de sua composição toda a beleza e a tragédia que é estar vivo. Quando se consegue reunir em notas musicais sons que fazem com que tenhamos sentimentos tão intensos e reveladores como alegria e melancolia, esperança e medo, nostalgia e entusiasmo, desejo e ternura... Todas estas, digamos, centelhas de luz que revelam as emoções mais íntimas que às vezes nem sabemos como surgem, celebram, de certa forma a existência humana com todas as suas profundas e inexplicáveis idiossincrasias.

1974 consegue sintetizar de forma ímpar todos os sentimentos que talvez devessem estar latentes na atmosfera que envolvia aqueles idílicos anos setenta: havia (há) ali todo o deslumbre, a explosão juvenil que nunca foi tão intensa como naqueles anos; também certa dose de loucura e genialidade, a agitação popular que tomava as ruas do mundo e clamava por renovação, a exaltação/celebração da existência, o brilho irrefutável do que é novo e tenta se erguer, corajosamente, em meio às ruínas e ao desânimo que sempre existiu e existirá na realidade do mundo. Um grito contra a passividade e o conformismo, uma homenagem à juventude e à sua força renovadora que nos obriga (quando passamos dos trinta) a olharmos os mais jovens de forma compreensiva, afinal, já estivemos ali, já tivemos nossas ideologias e já as vimos serem despedaçadas.

Assim, como uma ode visionária, futurista, enigmática e reveladora; 1974 é a expressão musical sublime e irretocável de um tempo que (como todos) traria em seu corpo as variadas e apaixonantes contradições humanas. Para mim, 1974 é, sobretudo, a celebração de uma época que permanece vívida e luminosa, porque se hoje podemos viver em uma época mais libertária _ nós, as mulheres; os negros, os homossexuais e outras minorias _ isso se deve, em grande parte, ao que foi construído lá atrás, nos anos 70. É claro que ainda há muito por fazer, isso nunca terá fim, mas tudo começou e/ou ganhou impulso lá, nos anos 70. Penso que é por isso que 1974 _ a música – atravessou as fronteiras do tempo e se tornou eterna: é porque ela carrega consigo toda a beleza e a intensidade que (apesar dos pesares) celebram a existência. E se você nunca a ouviu, não perca mais tempo, vá direto para '1974' ou ouça o disco inteiro... Você não vai se arrepender. No mais: boa viagem!


Ana Vargas

Viver é uma experiência bem confusa mas por vezes, bacana (palavra inapropriada mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer..
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