admirável mundo

Assim é, se lhe parece (Luigi Pirandello)

Andréa Romão

Devoradora de livros e filmes. Pianista nas horas vagas e escritora em todas as outras horas disponíveis. Está no Wattpad como @dearomao e no Instagram no @lookdolivro.

Por que amamos robôs?

Amamos e sofremos com os robôs da ficção, embora eles não nos amem de volta. Por que não conseguimos deixar de nos importar com eles?


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Esse texto contém spoilers de Interestelar, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Big Hero 6

R2D2, C3PO (Star Wars), Sonny (Eu, robô), Bumblebee (Transformers), Gigolô Joe (Inteligência Artificial), Dexter (Chappie), TARS (Interestelar), Baymax (Big Hero 6). O que todos eles têm em comum? Eles são amados por seus companheiros de cena e por nós - espectadores. E eles não nos amam de volta.

Alguns foram criados para nos proteger. Outros para nos ajudar. Outros para nos entreter. Mas nenhum deles foi criado para nos amar (nem mesmo o Gigolô Joe). Assim como eles também não sentem dor, ou frio, ou fome, ou raiva ou medo. Eles nem mesmo têm aparência humana. TARS é um retângulo metálico. E ainda assim, na cena em que Matthew McConaughey e Anne Hathaway fogem do planeta-cilada de Matt Damon, parece que TARS vai ficar para trás. Ele rola em direção a nave e nós temos vontade de gritar "Corre, TARS! Corre!".

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Gritar. Para um retângulo de metal. Por um retângulo de metal.

E se por acaso ele tivesse ficado para trás, teríamos passado boa parte do filme remoendo aquilo e sofrendo, pensando naquela retângulo de metal abandonado em um planeta hostil. Embora ele não possa sentir a sensação de abandono ou frio ou medo.

Até o terrível HAL 9000 (2001: Uma Odisseia no espaço), antes de mostrar sua verdadeira face, consegue nos cativar. Ele é prestativo, simpático, curioso (!), ajuda aplacar a solidão dos dois astronautas. Se não fosse pelo fato dele ser um psicopata, seria mais um robô muito amado pelo público. E ele é um ponto vermelho.

Baymax não só é um robô como também é um desenho animado. E quando ele fica para trás na outra dimensão, salvando a vida de Hiro, que atire a primeira pedra quem conseguiu assistir a cena sem derramar uma única lágrima. E quando ele é "reconstruído" por Hiro, quem não teve vontade de se levantar e gritar "Não é o mesmo! Ele não é o Baymax!"?

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Como seres humanos nós temos a tendência de humanizar as coisas ao nosso redor. Como nossos computadores ou celulares. Brigamos com eles quando eles travam, agradecemos sua rapidez em baixar um arquivo e há até quem dê nomes a eles (mas é claro que isso também tem a ver com seu valor material).

Uma coisa que acredito que seja essencial para nos fazer sofrer por robôs é o fato de que eles são puros. Assim como não podem nos amar eles não tem inveja ou ciúme. Não são egoístas, mesquinhos e não tem maldade. Não nos machucam - pelo menos não sem motivo. E, como Baymax avisou, não podem se sentir ofendidos.

Os robôs são, em muitas maneiras, mais humanos do que nós. E é por isso que nós os amamos. E é por isso que nós nos importamos mais com eles do que com humanos de carne e osso que passam por nós todos os dias. Nós estamos cheios de sentimentos ruins e preconceitos uns pelos outros - enquanto os robôs sequer devem saber o significado de preconceito. Nós paramos de nos importar uns com os outros.

Temos muito que aprender com os robôs. O Homem de Lata (que não deixa de ser um robô) que sonhava em ter um coração, tinha uma ideia sobre nós - com nossos corações - e ele próprio. No livro O Mágico de Oz, ele afirma que quando você não tem um coração, você precisa ter mais cuidado ainda para não machucar alguém. E, segundo ele próprio, quando ele tivesse um, não precisaria mais se preocupar com isso, pois seu coração o guiaria.

Infelizmente ele estava errado.

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Apesar de muito amado pelo público, WALL-E não pôde participar desse texto porque em diversas partes do filme ele parece assustado e com medo. E se "apaixona" pela robô EVE.


Andréa Romão

Devoradora de livros e filmes. Pianista nas horas vagas e escritora em todas as outras horas disponíveis. Está no Wattpad como @dearomao e no Instagram no @lookdolivro..
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