afluente de letras

Onde os olhares deságuam na escrita

Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo.

Que livro você quer ser quando crescer?

Sobre as páginas que acumulamos e o tipo de livro que nos tornamos.


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A criança nasce e logo um título é escolhido. Pedro, Sofia, Amarildo, Clara, Jorge. A dúvida é alimentada pela infinidade de possibilidades e pelo inocente desejo de escolher a primeira definição de algo ainda tão indefinido.

A primeira página de um livro a ser escrito é como o primeiro mês de uma criança. Uma sucessão de tentativas e erros. Enquanto a página berra de fome, o escritor tenta amamentá-la, acalmá-la, embalá-la com substantivos, adjetivos e tudo o que encontrar pela frente. Até que o bebê se acalma com o passar dos dias. A mãe passa a conhecê-lo melhor e perde o medo do inesperado. Texto e escritor iniciam uma conversa que irá fluir por toda uma vida.

O bebê vira criança, aproximando-se cada vez mais da autonomia. Segue apoiado pelos dedos da mãe que conduzem as teclas, mas não ditam seus desejos, personagens e dramas. A identidade do texto é formada por ele mesmo, o autor apenas tenta direcioná-lo para caminhos menos tortuosos.

É na infância, nos primeiros capítulos, que os laços entre texto e autor se solidificam. A sensibilidade das ideias, os embates das discordâncias e as indagações inesperadas de uma criança levam o autor a um misto de encantamento e irritação. A mão materna que constrói o texto é a mesma que deleta, reescreve e edita. O texto aceita emburrado, sem saber que as modificações o tornarão mais forte, até virar livro.

O dia de ser livro logo chega. Ser independente, acumular experiência através da vivência. Fazer parte de uma editora, como um verdadeiro adulto. Ser vitrine e presente. Desejado e conquistado. Ser lido e despertar sorrisos, lágrimas, tédio, lembranças. Ser ignorado ou trocado. Cumprir seu papel no mundo, dar vida à vida, virar os dias à medida que as páginas são viradas. Influenciar a vida de outras pessoas e ser influenciado, interpretado pela sociedade. Ser o livro favorito de um, de muitos ou de ninguém. Dar origens a outros textos, crianças que serão outros livros, ou morrer no ponto final dos amigos e da família que o esqueceu no fundo de uma gaveta até ser comido por traças.

A vida de um livro não é diferente da vida da gente. Um início conturbado, engatinhado, cheio de promessas. Uma página de romance em um dia, uma de suspense no outro. Livros que se cruzam no trabalho, nas ruas, e se amontoam nas redes sociais como livros empilhados nas livrarias. Enredos e capas semelhantes, raros destaques. Uns tornam-se sucesso de vendas, outros alcançam um pequeno sucesso. E há aqueles aclamados pela crítica, mas que não são exatamente um sucesso de vendas. O que todas essas versões têm em comum é que tudo começou com um autor. Aquele que acompanhou as páginas em branco se transformarem em textos e os textos virarem livro. Que esteve com a criança quando as palavras estavam erradas e a pontuação trocada. O pai, a mãe, a avó ou qualquer pessoa que tenha ocupado a figura que sorriu e chorou durante o processo de criação.

O autor será sempre aquele que acredita em sua obra mais do que qualquer editor ou leitor. Por isso o livro “Tem Uma Lua Na Minha Janela”, de Andréia Delmaschio tem uma beleza única que nos desperta um encantamento genuíno. A obra é fruto de uma mãe, autora em todos os sentidos. Seus filhos gêmeos, Flora e Francisco são tão donos da história quanto deles mesmos. São as vozes que motivaram o registro do brilhantismo de ser criança. Vozes que despertam risos e reflexões no leitor de uma forma que só as crianças e um texto bem elaborado conseguem fazer.

Flora e Francisco são belíssimos textos, com uma talentosíssima mãe-autora. Possuem mais do que o necessário para se tornarem adultos admiráveis, livros que serão clássicos. Gente-livro que o tempo dará um ponto final na parte física, como faz com tudo na vida. Mas as páginas que não mais existirão serão guardadas no coração e na memória de quem as leu em silêncio. Ou leu em voz alta para uma criança que um dia fará sua história e será também um livro.


Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo..
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