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Onde os olhares deságuam na escrita

Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo.

Estrelas além do tempo – A revolução silenciosa que estremece a casa-grande

Ao desafiar privações históricas, um simples desejo pode iniciar grandes transformações.


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Há poucos dias os jornais noticiaram o 1º lugar de Bruna Sena na carreira mais concorrida dos vestibulares do Brasil. O destaque da notícia foi o fato de Bruna ser negra, pobre e a primeira de sua família a ingressar em um curso superior. Nas redes sociais, ela anunciou sua classificação com uma frase provocativa, dando voz ao silencioso movimento que iniciou quando ousou desejar o curso de Medicina em uma das Universidades mais concorridas do país. Ou bem antes, quando mesmo com o ensino precário da rede pública, conseguiu tirar proveito do que podia. Ou quando foi crítica o bastante para completar seu conhecimento dentro das oportunidades de um cursinho preparatório ofertado a estudantes de baixa renda. O que aproxima Bruna das personagens do filme Estrelas Além do Tempo, indicado ao Oscar de 2017, são os espinhos do caminho que percorreu e ainda irá percorrer.

No filme baseado em fatos reais, três mulheres negras mudam seu destino e talham seus nomes na história sem ações estrondosas. Conquistam respeito e reconhecimento lentamente, com a perseverança e o silêncio que os matemáticos utilizam para colocar sua genialidade no papel. Três mentes brilhantes trabalhavam com mais dezessete mulheres negras, em uma sala com a seguinte placa: Matemática Para Pessoas De Cor.

Em uma época onde a segregação racial ainda era vigente, ser contratada pela NASA, apesar do gênero sexual e da cor da pele, era razão mais do que suficiente para gozarem da mais profunda gratidão, acomodando-se no pequeno e ilusório espaço cedido dentro da imponente organização de projetos espaciais. Mas Katherine Johnson, Dorothy Vaugh e Mary Jackson foram além. Não marcharam com Martin Luther King, não fizeram greve de fome como Nelson Mandela e não lutaram como Zumbi dos Palmares. Provaram que há mais de uma arma para conquistar o direito negado, e aquela utilizada pelas personagens atende pelo nome de Educação.

É verdade que, para ser notada, Katherine era mais brilhante em Geometria Analítica do que qualquer branco de seu departamento. Mas o desvio de percurso que dá início à revolução aconteceu no minuto em que o mundo interior de Katherine decidiu concorrer a uma vaga na NASA. E quando decidiu olhar além das tarefas passadas em sua função. E se empenhar para passos cada vez mais ousados, como participar do projeto que levaria um americano à Lua pela primeira vez.

Katherine poderia ter sido uma mente brilhante em qualquer outro lugar. Poderia ter parado em um bom emprego e ser mais um nome varrido e esquecido pela falta de oportunidade. A sua movimentação fez dela uma militante. Lutou antes de mais nada contra os piores rivais, os demônios internos, alimentados desde sua infância por aquilo que a sociedade pensava sobre sua cor. Cortou-se pelo caminho, mas abriu uma estrada menos espinhosa para quem veio depois e fez seu destino ser diferente daquele ao qual mulheres negras de sua geração estavam condenadas.

As personagens do filme são a prova de que revoluções silenciosas não são menos importantes do que aquelas que chamam mais atenção. Colocadas as devidas proporções, militante é aquele que escolhe as suas armas. Um discurso, uma greve, uma caminhada, um livro, um texto, uma faculdade. Ser o primeiro da família, do bairro, do país. Ser aquele que luta contra os limites dos julgamentos.

Ser militante significa ser soldado. E todo soldado tem uma causa. Mesmo que esta causa seja pessoal em um primeiro momento, como ingressar em uma faculdade, ela também pode se mostrar algo além de seu tempo. Pode significar a ruptura de um paradigma tão apreciado e tutelado pela casa-grande.


Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo..
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