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Onde os olhares deságuam na escrita

Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo.

MAGOS DA MENTIRA - Sedução e perversidade

Deixando um rastro danoso por onde passam, eles dominam a manipulação, o charme da simpatia e a capacidade de jogar no outro o peso de seus erros.


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Ao fazer uso da inteligência e de belas palavras para satisfazer acima de tudo seus desejos, o ser humano se mostra o pior predador da própria espécie. Suas atitudes englobam desde um esforço exacerbado para não perder uma discussão até uma fixação cega pela delirante inocência de suas atitudes. Mentir, manipular e impor sua vontade através de violência verbal e/ou física são algumas das artimanhas utilizadas por pessoas que possuem atitudes além das bordas que definem um simples traço egoísta. Esses personagens, mais frequentes na sociedade do que imaginamos, negligenciam a vida humana não apenas quando tratam de forma leviana os sentimentos e as escolhas do outro, mas também quando usam ações devastadoras para prejudicar com traços profundos o âmbito pessoal e profissional de outrem.

Seja pelo charme atribuído à maldade dos vilões do cinema e da TV ou pela inteligência inerente a essas figuras, o fato é que as vítimas - constantemente representadas pelos familiares e cônjuges - se deixam levar com facilidade pelo infinito acervo de desculpas de criaturas tóxicas presentes tanto na política, quanto no dia a dia. São capazes de ofender e cometer ações ilícitas utilizando o mesmo sorriso frio com que brindam suas vitórias.

As atitudes acima vão ao encontro das caraterísticas dos sociopatas. Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do livro Mentes Perigosas, essas pessoas são incapazes de se colocar no lugar do outro, são especializados no assédio psicológico e não sentem remorso pelas escolhas que causam o sofrimento alheio. A profissional ainda afirma que a maioria das pessoas convive ou conhece um sociopata, pois a patologia é dividida em leve, moderada e grave. Os graus leves e moderados são os mais comuns e por isso passam despercebidos em ambientes sociais na maioria das vezes, porque tendem a conquistar a simpatia e a admiração do próximo quando sua real intenção é exclusivamente alimentar o prazer de manipular e tirar vantagem das relações. O diagnóstico não significa que o indivíduo seja mentalmente incapaz, ao contrário, ele possui plena noção do certo e do errado, apenas ignora as consequências.

De acordo com estudos médicos, a disfunção não é adquirida, a pessoa nasce com ela. Porém, o meio em que vive pode estimular mais ou menos as tendências do sociopata. Quanto mais confortável, admirado e confiante estiver a figura em questão, maior será o seu estrago. Seja em um número restrito de vítimas mais próximas, como amigos, cônjuges e familiares, ou em proporções abrangentes, como as faces corruptas que estampam os jornais brasileiros e levam ao colapso a saúde, a segurança e a educação de toda uma nação.

No filme americano O Mago das Mentiras, lançado em maio de 2017 pela HBO, o veterano Robert De Niro dá seu tom mais fascinante no papel do sociopata Bernard Madoff. Baseado em fatos reais, a trama gira em torno de Madoff e das vidas que arruinou com seu crime financeiro. Dentre os estragos provenientes das ilícitas transações do personagem, está a falência de famílias inteiras, o suicídio de um filho, a ruína do outro e a solidão da esposa (interpretada com atuação singular de Michelle Pfeiffer).

As performances do elenco estelar e a direção por si só já fazem a produção valer a pena, no entanto, a forma como os familiares de Bernard Madoff se surpreenderam com a descoberta dos investimentos fraudulentos chamam a atenção para como as pessoas da vida real lidam com os sociopatas. As mentiras e o esquema estavam presentes na família o tempo inteiro, como se o som da fraude saísse de cada residência ou festa milionária da qual a família desfrutava. Enquanto a vida estava confortável, ninguém ousou questionar o patriarca. As vítimas do cotidiano fazem algo similar: permitem os abusos, incentivam as piadas ofensivas, perdoam relações conjugais abusivas. E assim, fazem do cenário social uma terra fértil para que os ardilosos feitos brotem sem empecilhos.

A sociopatia não tem cura e nem tratamento. Para a psiquiatria, o ideal é isolar esses indivíduos, pois a punição e o confronto não farão com que seus erros sejam reconhecidos e/ou corrigidos. Ainda que argumentos precisos e elaborados sejam utilizados e punições severas sejam aplicadas, o sociopata não possui a capacidade de se autocriticar e de sentir empatia com o outro. Essas características inexistem no seu funcionamento fisiológico, tal qual uma peça que se perdeu durante o processo de construção de uma máquina. E sem a tal peça fundamental, certas funções se tornam permanentemente desabilitadas. Logo, após a explosão de argumentos que muitas vezes parece necessária para o alívio da vítima, a mais certa das ações perante um ser humano com essas características se encontra no isolamento.

Por mais difícil que pareça ser a tarefa quando o sociopata é um parente próximo, manter o máximo de distância de seu comportamento nocivo é preservar a própria saúde física e psicológica. Portanto, diminuir o convívio ou a interação com um sociopata sugere uma significativa melhora na qualidade de vida de quem sofre os efeitos colaterais do mesmo.


Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo..
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