afluente de letras

Onde os olhares deságuam na escrita

Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo.

Me desculpe, mas você não sabe o que é amar

Ele é sim maravilhoso, move montanhas e colore o mundo. Mas ele também desperta aquela torcida de nariz de alguns, a lágrima de muitos e o medo de tantos. Esse sentimento pintado de vermelho e mais idealizado do que a casa própria, mais perseguido do que os quarenta ladrões, que parece surgir e desaparecer no instante de um cochilo.


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Amar é o verbo mais flexível que existe dentro das emoções humanas. A gente ama um futuro amante. Admira o sorriso, os olhos, qualquer coisa. Imagina o gosto dos lábios, as ondas do abraço. Alguns dias de sonho e, então, já é amor. É normal amar um quase desconhecido, mesmo que o relacionamento (aquele estágio prévio do amor) ainda não exista.

Amamos a família. O pai, a mãe, irmãos, avós, tios, etc. Cuspimos palavras de ira em momentos de raiva, não dividimos nossas conquistas e dores com essas pessoas. Mas os amamos no Natal. Não ligamos para saber como estão na manhã de uma quarta feira comum. Mas estamos juntos nas festas de aniversário. Sorrindo, abraçando, comendo, nos desviando do fato de que, se não fosse o sangue, aquelas pessoas jamais seriam seus amigos. Mas decidimos que é amor. Tem que amar a família. Então é amor.

E é claro, nós amamos os amigos. Afinal, é a relação que escolhemos e fomos escolhidos. É a relação sem cobrança. Pelo menos deveria. Amamos aquele amigo que está sempre com problemas demais e ocupado demais para perguntar como estamos. Aquele amigo para quem fazemos um milhão e meio de favores e ele mal agradece. Amamos aquele que não sente nossa falta e não nos pergunta porque ficamos chateados depois daquela discussão. Amamos a relação que deveria ser a mais justa e, ainda assim, um lado se importa mais do que o outro, mas sabemos que amar significa escolher ficar com uma amizade assim e estar bem com isso.

Amamos nos produzir em frente ao espelho. Ouvimos o quanto o amor próprio é essencial para o sucesso das relações sociais. Então é natural amar o alimento para o corpo e para a alma. Pagamos academia para o físico e consumimos música e cinema para o espírito. Legumes para o corpo e meditação para a mente. E o amor por tudo isso surge na liga entre o espaço muitas vezes oco entre um e outro.

A máxima é que o mundo anda precisando de mais amor. No entanto, ao menos uma das formas de amar citadas acima já foi sentida por alguma criatura humana. Talvez o mundo precise apenas compreender o que é amar e aceitar como o amor abraça toda e qualquer definição dele mesmo. Talvez os personagens de Meryl Streep e Hugh Grant, no filme Florence Foster Jenkins, ajudem a dar luz ao fato. Meryl, interpreta a socialite Florence, rica e apaixonada por música clássica. Grant, dá vida à St Clair, um inglês charmoso que vive às custas da esposa Florence e mantém uma amante às escondidas. À primeira vista, os personagens vivem um casamento de fachada, sem amor. Em uma segunda interpretação, nessa que foca nos olhos dos personagens e nas cenas sem diálogo, é possível compreender a definição de amor do mundo de Florence e St Clair. Esse amor que não precisa provocar a admiração e o suspiro de terceiros, porque tudo que precisam está ali, entre os dois, livre e protegido do que o mundo aceita ou deixa de aceitar. O amor de Florence e St Clair se revela para os observadores que rompem velhos julgamentos e definições enraizadas.

Amar pode ser sinônimo de cuidar, tolerar, lembrar, perdoar, se desculpar. Amar pode ser não colocar a si mesmo em primeiro lugar muitas vezes. Ou pode não ser nada disso. O amor é tão grandioso que preenche um espaço e uma pessoa, enquanto se divide para preencher outros caminhos, outras ideias e outras formas. Ele pertence a quem o sente e não a quem o define. Ele é único para cada um, mas é também universal. O amor abraça todas as facetas de um relacionamento entre amantes, amigos, parentes, só exigindo sinceridade e respeito na troca. Mesmo que essa troca não pareça justa, mesmo que o coração de um seja mais amável que o do outro, isso não é importante para o amor. O valor está na forma como demonstramos esse amor, não importando o quanto é doado de um lado para o outro. E quando nós, meros receptáculos do amor, compreendermos que não existe forma certa de amar, peso certo para trocar, gênero sexual para combinar, idade para nivelar, cor para atenuar e cultura para perpetuar, saberemos que no mundo o que mais existe é amor. Basta aceitar todas as infinitas formas em que ele aparece.


Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo..
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