afluente de letras

Onde os olhares deságuam na escrita

Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo.

O amor e o horror de ser humano

A mão que afaga pode ser a mesma que fere? Que muro é este que divide os seres humanos?


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Uma senhora questiona, em desespero, a razão do governo não se importar com sua condição de extrema pobreza. Um condenado à prisão perpétua que chora ao ser perdoado e amado pela mãe da mulher que assassinou. Uma jovem que hoje sorri ao reconhecer seu valor, apesar de ter sido estuprada por um amigo e infectada com o vírus HIV. Histórias reais, para estremecer as estruturas. Para lembrar a potência transformadora dos seres humanos, canalizada para o bem, para o mal, e muitas vezes para ambos os lados.

O filme documental Human, Volumes 1, 2 e 3, lançado em 2015 e disponível no Youtube, compilou uma sequência de depoimentos sobre amor, pobreza, felicidade, riqueza, ódio e demais aspectos acerca da humanidade. A bela fotografia fica em segundo plano quando o telespectador tem seu ar roubado pelos depoimentos de anônimos e personalidades como Bill Gates e o ex-presidente uruguaio José Mujica. Choque e inspiração andam de mãos dadas, como o lado esquerdo e direito do corpo.

Os relatos indicam o dom do horror e do amor presentes em cada ser humano. Ressalta como o amor incondicional está escasso. Amamos o outro até onde ele se encaixar nos padrões do muro ilusório, mas não o amamos pelo que ele é. O dom para o horror está nas pequenas coisas, não apenas naquelas que estampam as manchetes dos jornais. Vibramos com uma chacina dentro de um presídio, ostentamos uma falsa humanidade dentro da confortável realidade que nos cerca. Amamos nossos filhos, mas torcemos para os filhos da pobreza serem presos cada vez mais cedo. Amor e horror unidos pela conveniência.

A Lei da Ação e Reação está em todos os lugares e enquanto formos indiferentes ao outro, ela permanecerá implacável. Uns dizem que o mundo está ficando chato, outros adotam a palavra “mimimi”. Poucos reconhecem como as piadas clássicas e os apelidos “inocentes” alimentam a cadeia. O homem bom, que ama sua família, é o mesmo que empunha a arma para assassinar Palestinos. Sua justificativa para “educar” os filhos é de que o outro lado está errado, pois assassinam crianças e ele apenas revida. Do outro lado do mundo, uma jovem é escravizada em uma fábrica e chora ao constatar que morrerá de fome caso desista do “emprego”. A mesma fábrica alimenta o consumismo daqueles que nunca estiveram do outro lado do muro.

O mundo não está ficando chato. Algumas pessoas apenas começaram a compreender que não existem lados. O que existe é um muro invisível construído ao longo dos anos, o muro da indiferença. Que faz o consumista crer que a miséria não tem ligação com seu consumismo. Faz o piadista duvidar do quanto suas frases germinam o preconceito e este é o sustentáculo do ódio. Enquanto esse muro continuar existindo, o horror nos pequenos gestos perpetuará. O oprimido não terá o direito de ser fraco por um dia, pois precisa ser forte, se amar apesar de todas as risadas e ódio sobre sua cor, classe social, religião, sexualidade.

Mas enquanto houver gente chata, haverá esperança de que a curva do amor seja maior do que a curva do horror. Chatos que buscam a tolerância e a igualdade ao derrubarem um tijolo do muro ilusório todos os dias. Pois, acima de onde nos encontramos, neste cego e sufocante emaranhado de egoísmo da atualidade, paira o ar puro do respeito, consciência e compaixão. Permitir que o documentário nos comova é um passo para respirarmos este ar novamente e, enfim, reconhecermos uns aos outros como semelhante acima de todas as coisas.


Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo..
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