afluente de letras

Onde os olhares deságuam na escrita

Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo.

O que uma amiga genial pode fazer por você

Silenciar, refletir e agir é levar a vida em três atos. Da pausa tiramos a observação e a absorção. Da reflexão, surge a luz para suposições. E da ação, o impulso para que nossos pés sigam decisões. Três movimentos nada fáceis, mas que podem correr com a fluidez de um rio se tivermos uma amiga genial como combustível de viagem.


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Ato I. Não é maravilhoso o quanto o silêncio diz mais do que os sons? No silêncio nos concentramos para atar nossa atenção em nós mesmos e no outro, para perceber o quanto aquela amiga é sábia ao articular as pessoas ao seu redor, ao elaborar seus planos, criar caminhos nunca imagináveis, fisgar o contato certo que acrescentará um degrau mais próximo de seus objetivos. As palavras não ditas dão espaço para os sentimentos robustos que nos aproximam ou nos repelem das mesmas escolhas que nossos amigos. A amizade é o vento que nos faz explorar águas calmas e selvagens na investigação do que acreditamos ser, na busca pelo que gostaríamos de nos tornar, na aceitação das experiências que não podemos modificar.

Ato II. Do silêncio brotam as emoções. Sentir sem refletir é um dos atalhos para o desequilíbrio da mente humana, pois compreender os anseios é a chave para avistar possibilidades menos poluídas de achismos. Aquela devoção pelos gestos corretos da amiga seria admiração ou inveja? O sentimento pulsa na frequência que nos faz querer ser melhor ou na cadência que nos faz desejar que o outro não tenha aquilo que não temos? Por que a genialidade causa admiração e rancor? A reflexão nos leva aos gatilhos, que por sua vez, quase sempre, nos tira a capa da maldade. Bem e mal assumem conceitos relativos quando não admitimos a sociedade como senhora das definições. Uma amiga mais sagaz pode te reprimir por simples maldade ou pelo desejo de te ver mais forte. A reflexão traz a relativização do vilão e do mocinho. Você pode compreender a inveja que a amiga lhe causa como sinal de que seu coração é espinhoso ou usá-la como ponto positivo: a clareza da necessidade dos seus desejos, de querer buscar para você o que a amiga tem.

Ato III. Os prazos delineiam nossas ações. Levantamos cedo porque temos hora para estar em algum lugar. Estudamos porque a juventude é o facilitador da aprendizagem, e ser jovem é um estado com data de vencimento. Trabalhamos para alcançar nossos objetivos imediatos, intermediários e a longo prazo. Levantar, estudar, trabalhar são verbos com tanta ação quanto compartilhar, fundir e afastar. A amizade que te inspira é aquela onde existe a troca de problemas, mas também a troca de sonhos, onde um acrescenta vida ao discurso e aos trejeitos do outro em fusão harmônica até o alarme do afastamento acender e ceder lugar a quem somos. E do que somos feitos senão de um ciclo com o verbo “fazer”? Somos frutos do que fizeram conosco e do que fazemos com isso, em uma alternância nem sempre equilibrada nos papéis de presa e predador. A amizade genial te fará ser raposa muitas vezes, mas também lobo. Te fará pedir proteção, mas também liberdade. Te seduzirá para mais perto ou te fará manter o máximo de distância. Uma ou outra opção te colocará sempre em ação, em movimento, mesmo que este não te agrade.

Quão ideal seria ter alguém tão próximo de você que pudesse te causar sentimentos complexos, que te fariam crescer, acelerariam suas sessões de análise, te prenderiam em um discurso carregado de energia e tensão, julgamentos e ternuras, raiva e amor? Um amigo que fosse a ponte para o seu melhor e o seu pior, onde você pudesse transitar com segurança, sem os filtros condenadores da sociedade. Este amigo pode não ser de carne e osso, mas você pode encontrar algo parecido na narrativa de Elena Ferrante, escritora italiana que exibe em forma de escrita a admirável profundeza do ser. Em sua tetralogia, intitulada no Brasil de A Amiga Genial, Ferrante sequestra o leitor para a mente inquieta da narradora e sua relação com a amiga de infância. Quanto mais a leitura e a história avançam, mais a autora nos faz tropeçar nas dúvidas e suplícios que nossas crenças e experiências nos causam, como um espelho a refletir não apenas os conflitos das personagens principais, mas também aqueles instaurados em cada esquina humana do cotidiano.

A voz de Ferrante te tira e te coloca no lugar da amiga genial, modela a força das relações, escancara feridas provocadas pelas comparações. Faz para o leitor muito mais do que um entretenimento, dá a ele a oportunidade de identificar na vida real os personagens da trama, de expor as próprias fraturas, mas utilizando as dores da ficção. Elena Ferrante faz tudo isso pelo leitor, mas acima de tudo ela faz história na literatura. Acrescenta brilho a um céu repleto de talentos, mas poucos tão geniais.


Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo..
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