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Onde os olhares deságuam na escrita

Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo.

VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO

"Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco."


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Não é preciso acreditar em Deus para relacionar Sua imagem a atos de bondade, ditos como corretos. A mesma lógica é aplicada para o Diabo. Uma pessoa má é adjetivada como diabólica e mandar alguém para o inferno não significa de fato acreditar na existência desse lugar. É apenas uma forma de desejar o mal para quem provocou raiva no locutor. A definição de bem e mal, através da imagem de Deus e do Diabo respectivamente, está tão intrinsicamente delineada para o ser humano que a mesma não carece de vínculo com religião ou crença.

Seguindo essa orientação, a mentira está para o Diabo assim como a verdade está para Deus. Logo, toda criatura boa falaria apenas a verdade, enquanto as ruins esbanjariam mentiras. Fato simples se o protagonista dos atos não fosse o ser humano. Essa máquina perfeita de ideias, tão cheia de certezas quanto dúvidas, de belezas e feiuras. Ser criatura racional demanda uma senhora subjetividade. Por isso, o certo e o errado não cabem na vida humana sem que o espaço e o tempo sejam considerados fatores de primeiro impacto a respeito de ações cotidianas.

Como julgar a mentira que é tomada como verdade por um senhor com uma doença terminal? E se, de tudo que lhe foi tirado, incluindo a saúde, restasse apenas um mundo mentiroso, inventado pelo desejo de ter feito o diferente para transformar seu miserável destino? Além de ter uma doença terminal, o homem reside em uma vila tomada pela pobreza e pelas doenças. Lugar tão esquecido por Deus que parece ser o próprio inferno. Sendo assim, a fuga de suas mazelas seria a mentira.

“Não é o tabaco que a gente consome, a gente fuma é a tristeza”, afirma o homem, justificando seu vício. No fumo e nas ilusões ele encontrou um certo remédio contra a maldita verdade que assola sua vila. Terra árida, de dores, fungos, moscas, vírus. Inventar um fato para escapar da realidade não parece ser tão ruim quando a verdade corta qualquer acesso a oportunidades de cura para as feridas podres do corpo e da alma. É quando o veneno da mentira, em vez de incitar o mal, faz algo de bom pela criatura que a fertiliza como sonho doce e possível de ser realizado. Por outro lado, seu antídoto, a verdade presente na realidade, é um fármaco supostamente ideal e do bem, mas que cobre os moradores da vila com nuvem mosqueada e carregada de gritos de desamparo, ecoantes como trovões.

Assim, sob um tecido de verdades e mentiras, realidade e ilusão, Mia Couto, escritor de Moçambique, tece o enredo das personagens de seu livro VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO. Entre frases de um tom musical aos ouvidos, como poesia, e descrições intensas de Vila Cacimba, coberta por epidemias, o autor leva o ato da leitura a outro patamar. Seduz o leitor de um lado para o outro sem que ele note o quanto está ficando tonto. Brinca com as palavras vida e vila como se uma fosse descrição da outra, trocando de lugares de quando em vez, apontando a dualidade humana com a serenidade de quem aponta o dia e a noite.

Vila Cacimba foi assolada por desgraças a ponto de parecer esquecida por Deus e talvez por isso a mentira possa ser perdoada, como se fosse a pequena dádiva divina de escapar dos sofrimentos do diabo. Como se Deus enviasse em forma de veneno o único remédio capaz de chegar à vila africana, atingindo todo e qualquer morador. Como se Mia Couto estivesse descrevendo, com fina beleza literária, a relatividade dos limites entre o certo e o errado no que tange ao cotidiano. Traçando o ser humano como de fato ele é: pontas de luz e de escuridão que dançam conforme o ritmo dos contextos da vida.


Elaine Castanheira

Professora, escritora, viajante. Cinéfila, leitora e tantas outras. Usa a observação como adubo para nutrir suas versões de mundo..
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