Ágora mística

"Não há céu para os conceitos."

Dom Hildebrando

Sou alguém que procura nas coisas simples da vida o seu verdadeiro sentido. Sou um projeto de trovador, que afoga suas angústias em um caderno e compartilha os seus melhores sentimentos com o mundo.

O Exterminador do Futuro e a Filosofia

A saga que para muitos não passa de uma obra de ficção científica repleta de ação e troca de tiros, na realidade esconde em seus bastidores inúmeras provocações que deveríamos fazer com mais frequência. Confira!


terminator.jpg Arnold Schwarzenegger dá vida ao ciborgue modelo T-800

Você pode até nunca ter assistido aos filmes da saga "O Exterminador do Futuro", protagonizados pelo ator Arnold Schwarzenegger (Com exceção do 4º filme da franquia), mas é bem possível que já tenha se deparado com alguém dizendo "Hasta la vista, baby" ou até mesmo um "I'll Be Back", frases de efeito que foram eternizadas pelo personagem, que no filme interpreta um ciborgue (androide cujo esqueleto é recoberto por tecido vivo) com inteligência artificial que é transportado no tempo, de 2029 até ao dia 12 de maio de 1984, com o objetivo de alterar o curso da História e consequentemente, o futuro. Porém, muito além das frases de efeito, das perseguições frenéticas e das incessantes trocas de tiro, a saga que hoje conta com 5 (cinco) filmes, tem muitas reflexões para deixar.

1. Homo homini lúpus: O homem é o lobo do homem

A famosa frase eternizada por Thomas Hobbes nunca fez tanto sentido como mostra-se no contexto do filme. Somos apresentados ao mundo do futuro, onde as máquinas encaminham a extinção da raça humana e a destruição do mundo como nós conhecemos. Tudo isso não seria possível sem toda a ganância e vaidade do ser humano, que estimulados pela competição e pela necessidade de demonstração da superioridade perante as demais nações, coloca o controle de tudo ao alcance de algo sob o qual não possui total controle (A inteligência artificial). Tudo isso remonta ao verdadeiro “estado de natureza” hobbesiano, onde nos é permitido usufruir da liberdade irrestrita, chegando a ponto de alguns utilizarem-se de tal prerrogativa para prejudicarem, usurparem e invadirem uns aos outros, havendo então o estado de conflito ou guerra.

- Reflexão: Até que ponto somos autodestrutivos?

2. John Connor: líder e "salvador da humanidade"

De fato, toda a esperança de resistência e sobrevivência da humanidade em um mundo tomado pelas máquinas gira em torno do personagem de John Connor. Nas tramas, John é filho de Sarah Connor, e é o líder do grupo de Resistência Humana contra a dominação das máquinas comandadas pela Skynet, o sistema de inteligência artificial culpado pelo Dia do Julgamento na mitologia da franquia. John apresenta-se na forma de um líder valente e de fé quase que inabalável, responsável por trazer de volta a esperança em dias melhores, mas como todo bom líder, não conseguiria nada sozinho. Entretanto, no filme mais recente da franquia (O Exterminador do Futuro: Genesis), nos deparamos com um fato inusitado: O John do futuro consegue ser corrompido pela Skynet, deixando ainda mais explícito o seu lado humano e relembrando-nos de que até os melhores de nós podem perder-se.

- Reflexão: Como anda a nossa fé na humanidade e em nós mesmos?

3. A dominação das máquinas

Talvez uma das situações mais claras para a sociedade contemporânea seja a sua dependência quase que incontrolável dos aparelhos eletrônicos e da conexão com o mundo virtual. Vivemos em uma época onde a comunicação e a interação estão ao alcance de todos e de maneira altamente facilitada, porém, questiona-se: Até que ponto essa facilitação é benéfica ao ser humano? No enredo da saga, os homens chegam ao ponto de verem-se altamente dependentes dos sistemas operacionais, gerando um grande impacto nas relações interpessoais, até que um sistema operacional se rebela e decide que nós somos a verdadeira ameaça. A partir disso ocorre um processo de reconstrução e resgate da identidade humana.

- Reflexão: Até que ponto teremos o controle das máquinas?

4. O Tempo

Um dos elementos centrais de que trata o filme é acerca da nossa compreensão do tempo e como o este se manifesta e se mistura em suas mais diversas formas. Santo Agostinho foi um dos filósofos que trouxe uma importante reflexão acerca do tempo e de suas manifestações, já que para ele, por mais que costumemos dividir o tempo em passado, presente e futuro, só temos a capacidade de perceber e medir o tempo no momento em que ele decorre. Assim, podemos observar que durante os filmes, passado e futuro se misturam a todo instante com o presente, sendo quase que impossível fazer uma distinção clara que não seja do momento em que decorrem as viagens temporais. Pode-se ainda destacar o velho "fetiche" do homem em tornar-se senhor do tempo. As máquinas do tempo são apenas um aperitivo demonstrado na franquia, o mais interessante está no fato de que o homem é tratado a todo instante como sendo capaz de mudar o seu próprio destino através da reformulação de seu passado, impedindo consequentemente o dia do juízo final. Torna-se mais do que claro a obsessão do ser humano em sempre ter uma segunda chance para corrigir os erros que lhes convém.

"Não há destino que não possamos fazer..." (O Exterminador do Futuro - A Salvação)

- Reflexão: Sempre teremos uma segunda chance?

5. A Vantagem Humana

Em um dos momentos marcantes da saga, uma frase muito interessante é proferida:

"O que nos torna humanos não é algo que se coloca num chip, ou que se programe... É a força do coração humano... É o que nos diferencia das máquinas." (O Exterminador do Futuro - A Salvação)

A reflexão final que podemos fazer, é a de que devemos ter a percepção de que nossa grande vantagem em relação às máquinas é a nossa capacidade de sentir, de hesitar, de nos auto avaliar e até mesmo de cometer erros (e sempre que possível, aprender com eles). Somos humanos, mas também somos um pouco máquina. É certo que a sociedade por vezes impõe determinados padrões de conduta aos seres, que passam desapercebidos e que terminam por funcionar como uma espécie de programação.

Espero que tenham gostado e que possam perceber os elementos filosóficos implícitos na franquia "O Exterminador do Futuro" sempre que tiverem a oportunidade de (re)assisti-la.

E assim me despeço:

Hasta-la-vista-baby.png


Dom Hildebrando

Sou alguém que procura nas coisas simples da vida o seu verdadeiro sentido. Sou um projeto de trovador, que afoga suas angústias em um caderno e compartilha os seus melhores sentimentos com o mundo. .
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