Ágora mística

"Não há céu para os conceitos."

Dom Hildebrando

Sou alguém que procura nas coisas simples da vida o seu verdadeiro sentido. Sou um projeto de trovador, que afoga suas angústias em um caderno e compartilha os seus melhores sentimentos com o mundo.

A dialética de Augusto dos Anjos em "O Morcego"

O poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) foi conhecido como um dos mais críticos e provocadores do seu tempo. Com uma escrita tétrica e satírica, transformava temas cotidianos em lições inovadoras e quase sempre enigmáticas. Em "O Morcego", somos confrontados com a maior de nossas cobradoras.


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Antes de começarmos a nossa análise, aviso que se você possui chiropterofobia ou fobia social, possivelmente esse texto irá deixá-lo um pouco desconfortável. Bem.. Essa é a intenção!

Desde o princípio, vida e arte estiveram de mãos dadas no sentido de construir novos saberes e novas perspectivas de entendimento ao ser social. Muitos alegam que a existência da arte está ligada à insuficiência da vida e ao preenchimentos dos vazios que existem em cada indivíduo.

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Em seu livro "EU, e outras poesias", o poeta Augusto dos Anjos nos brinda com "O Morcego", um texto sobre consciência e sobre como você se vê diante do outro. Assim, nossa reflexão promete que consequentemente irá revelar coisas sobre como você se vê diante de si mesmo.

1. O Encontro

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela igneo e escaldante molho.

- Ora, morcegos são criaturas noturnas! Geralmente envolvidas em grandes mistérios e histórias assustadoras com a finalidade de confrontar o homem com aquilo que ele normalmente ignora. O poeta nos traz o susto (ao prepara-se para dormir) do encontro com a criatura. A situação nos traz a lembrança de que nos momentos de tranquilidade e descanso é que as problemáticas costumam surgir.

2. A Fuga

"Vou mandar levantar outra parede..." — Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha rede!

- Em uma rápida e inútil tentativa de se livrar do morcego, o personagem (ainda trêmulo) se isola em sinal de fuga da realidade com a qual é confrontado: o morcego ainda continua alí e assume diferentes formas. Não é algo muito diferente do que fazemos quando somos confrontados com as situações cotidianas que buscamos ignorar: o problema sempre parece ter proporções muito maiores do que realmente tem.

3. O Confronto

Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh'alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?!

- Livrar-se do morcego se torna a prioridade para o personagem. Assim, ele chega a confrontá-lo mas não tem sucesso na tentativa de se livrar da criatura (que torna-se mais horrenda a cada nova observação). Da mesma forma somos nós ao confrontar as situações adversas que são provocadas por nós mesmos. Até mesmo aqueles que tem a coragem de partir para o embate já se viram acuados pela própria consciência.

4. A Revelação

A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto!

- Finalmente chegamos à grande revelação trazida pelo poeta: O morcego representa simbolicamente a consciência humana. É inevitável que sejamos diariamente confrontados por esta que configura-se a nossa maior cobradora [nossa consciência]. À noite, sempre antes de dormir, é o momento chave onde se passa em nossa mente um flash de todas as coisas que foram realizadas durante o dia e durante os dias anteriores àquele dia. É involuntário, é imperceptível, mas uma coisa é certa: o morcego uma hora chegará ao nosso quarto.


Dom Hildebrando

Sou alguém que procura nas coisas simples da vida o seu verdadeiro sentido. Sou um projeto de trovador, que afoga suas angústias em um caderno e compartilha os seus melhores sentimentos com o mundo. .
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