Água na peneira

Sou passarinho, sou passarela. Pensamentos que passarão...

Tamires Borges

Professora de História e apaixonada pelas insignificâncias. Amante de livros, vinhos e boas rezas.

As cidades esquecidas de Minas Gerais

Nos caminhos mineiros, muita poeira e suor. Raras eram as ruas asfaltadas, as casas com saneamento ou água de qualidade para o consumo. As casas eram muito simples, de chão batido, mas todas com uma TV de tela plana enfeitando a sala. A TV não era só uma TV, era a modernidade, o sabor do capitalismo fresquinho na estante. A necessidade da aceitação social passava pelo consumo, revelando assim a face mais dura do capitalismo: a afirmação do ter para ser.


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Que o Brasil é um país lindo, rico em belezas naturais e plural em sua cultura, não há dúvidas. Que o Brasil é repleto de desigualdades, como uma grade colcha de retalhos emendando pobreza e riqueza, também não há nenhuma dúvida. Em meio a todo esse caos, na ponte que liga passado e presente, descobrimos o “Sertão de Minas Gerais” e as suas cidades esquecidas.

A iniciativa Missão Belém, coordenada pela ordem das Irmãs de Belém – ligada à Igreja Católica Apostólica Romana – acontece anualmente e tem o objetivo de levar amparo espiritual e material às famílias do nordeste de Minas Gerais, na região do Vale do Jequitinhonha. A missão, que já acontece a anos, foi uma das experiências vividas por mim e um grupo de amigos em agosto desse ano. Nosso grupo, formado por 6 pessoas, embarcou junto as irmãs e fiéis leigos, representando a Juventude Missionária da paróquia que fazemos parte.

4.png Nosso guia Gisvano e os caminhos secos de Alto Caititu, distrito de Berilo - MG

Nos caminhos mineiros, muita poeira e suor nos encontraram. Raras eram as ruas asfaltadas, as casas que possuíam um banheiro com saneamento ou que pudessem nos oferecer uma água de qualidade para o consumo. As casas visitadas em sua maioria eram muito simples, de chão batido, mas todas com uma TV de tela plana enfeitando a sala. A TV não era só uma TV, era a modernidade, o sabor do capitalismo fresquinho na estante. A necessidade da aceitação social passava pelo consumo, revelando assim a face mais dura do capitalismo: a afirmação do ter para ser.

Em meio ao Sertão Mineiro passado e presente se misturavam. O pop de Adele no toque dos celulares e as imagens de Leandro e Leonardo nas paredes das salas refletiam a complexidade do tempo. As meninas que desfilavam seus piercings eram as mesmas que moravam em bairros ainda sem iluminação pública. A experiência de caminhar pelo íntimo do interior mineiro transformava a missão em uma viagem de paradoxos temporais.

Dentro desses mesmos paradoxos temporais era fácil perceber os comportamentos que caracterizavam processos de longa duração – conceito historiográfico que define acontecimentos históricos que transcorrem as décadas, os séculos. Nesse processo, o trabalho realizado pelos homens negros nas lavouras de café e cana-de-açúcar em São Paulo foi o mais alarmante. Cerca de duas vezes ao ano, na época da colheita, os homens deixam suas casas e suas famílias para trabalharem a Sol a pino recebendo bem menos do valor justo. O resultado do “trabalho escravo” é a forte disseminação de DST’s em seu retorno as famílias. Sem contar a maciça influência cultural paulista; não é difícil encontrar corintianos e são paulinos pelas casas percorridas.

6.png Em cada casa um altar na parede mostrava as fotos de familiares e dos santos de devoção da casa.

A missão Belém dura 20 dias e percorre diferentes cidades do Vale. Ao fim de uma semana, nossa etapa a missão foi concluída. Deixando para trás um lugar de tantas Dona Maria Geralda e tantos seu Domingos, o sentimento que ficou foi o de inacabado. Todos os rios que vimos morrendo ao longo doa caminhos, as imensas plantações eucaliptos matando a terra e a precariedade do saneamento básico nos distanciam da casa comum, do mundo como lar de todos. São as cidades invisíveis do interior do país, onde a Igreja não alcança, o governo não chega e a mídia atinge bruscamente.

Dessa terra seca, com gente de coração molhado de amor, levamos uma certeza ainda maior de que Deus habita no simples e que não se precisa de muito para viver.

2 (2).png Último dia de missão do nosso grupo em Chapada do Norte/MG. Na foto Irmã Patrícia, Alexandre, Vinicius, Gabriela, Priscila, Ana Beatriz, Tamires (Eu) e Irmã Sallete.

Para mais informações sobre a Missão Belém entre em contato através do e-mail: [email protected]


Tamires Borges

Professora de História e apaixonada pelas insignificâncias. Amante de livros, vinhos e boas rezas. .
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