Água na peneira

Sou passarinho, sou passarela. Pensamentos que passarão...

Tamires Borges

Apaixonada pelas insignificâncias, sou professora de História, amante de livros, vinhos e boas rezas. Escrevo porque preciso transbordar de mim e em mim.

Porque a morte de Domingos doeu em mim

Quando morrer é tão inevitável quanto viver, quando a doença, a dor, nos matam pouco a pouco a morte é aceita, desejada. Vem vestida de descanso. Quando morrer significa deixar livros pela metade, sonhos inacabados e filhos por criar, quando a morte destrói seu agora e tira seu fôlego, então ela é cruel. Vem vestida de desespero.


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A morte é estranha. Você pode tentar deixá-la mais apresentável, mas seu vazio continuará igualmente único e seco. Tento medir seus pesos: morrer antes de viver e pensar as possibilidades tolhidas ou morrer após viver tudo e deixar para trás saudades? Ambas vão doer igualmente, profundamente, naturalmente. Tão naturalmente quanto morrer deveria ser, mas não é...

E nessa confusão que é morrer Domingos se foi deixando em mim uma dor fraterna, como se morresse um amigo daqueles que vemos pouco, mas amamos muito. Obviamente eu não o amava, não o conhecia, se quer nos cruzamos na rua sem querer. Porém, senti a dor de sua partida inesperada. Talvez seja isso: o inesperado. Quando morrer é tão inevitável quanto viver, quando a doença, a dor, nos matam pouco a pouco a morte é aceita, desejada. Vem vestida de descanso. Quando morrer significa deixar livros pela metade, sonhos inacabados e filhos por criar, quando a morte destrói seu agora e tira seu fôlego, então ela é cruel. Vem vestida de desespero.

Em meio a esse desespero é impossível compreender como a dor de um estranho se torna tão próxima. O que sentimos vendo o rio levar Domingos foi o que sentimos quando as pistas levaram Senna ou quando o Coringa levou Heath Ledger. Sentimos a dor do outro e não a morte dele. Sentimos o medo, imaginamos o afogamento, pensamos nos que ficam e tudo isso nos comove. A morte de Domingos não nos tirou ele, nos tirou a possibilidade de controlar a vida. Nos colocou de cara com a naturalidade e a fragilidade de viver. E essa verdade é sempre assustadora.

Para o filósofo Jean-Paul Sartre a morte é uma fatalidade. Ocasionalmente nascemos, ocasionalmente morremos. Morrer simplesmente acontece, somos tirados do mundo e só. A vida se realiza em meio ao nada e a única condenação do homem é ser livre. Já para Martin Heidegger a morte é angústia. A angústia diante da morte nos torna mortal porque temos consciência que morremos. Para Heidegger os animais morrem quanto espécie, enquanto nós humanos morremos quanto indivíduos. Karl Jaspers defini a morte como situação-limite. É nela que nos confrontamos sobre a vida, o homem "se acha como na frente de um muro contra o qual bate sem esperança" e pode escolher mudar a partir dessa realidade. Diante de tantas alternativas, morrer se torna mesmo um ato pessoal, intransferível, até íntimo. Cada um escolhe como encará-la.

A nós que já sentimos essa dor tão próxima, como sente agora a família de Domingos, fica no canto do coração uma vontade nova de amar intensamente durante os breves instantes de vida que ganhamos. A vocês que ainda não passaram por isso pensem sempre que morrer é fluir, desaguar, evaporar... como diria a canção:

“O rio fica lá, a água é que correu / Chega na maré, ele vira mar / Como se morrer fosse desaguar / Derramar no céu, se purificar / Deixar pra trás sais e minerais / Evaporar” Evaporar, Little Joy.

Conteúdo filosófico baseado no blog: http://espacosophia.blogspot.com.br/2009/10/sem-comentarios.html


Tamires Borges

Apaixonada pelas insignificâncias, sou professora de História, amante de livros, vinhos e boas rezas. Escrevo porque preciso transbordar de mim e em mim. .
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