Água na peneira

Sou passarinho, sou passarela. Pensamentos que passarão...

Tamires Borges

Apaixonada pelas insignificâncias, sou professora de História, amante de livros, vinhos e boas rezas. Escrevo porque preciso transbordar de mim e em mim.

Assumi, sou feminista!


WhatsApp Image 2017-04-07 at 2.16.39 PM.jpeg "Nós Deveríamos Todos Ser Feministas de Chimamanda Ngozi Adichie para TEDxEuston"

Sempre me senti um pouco deslocada dos costumes do meu país em relação a casamento e maternidade. Eu olhava essas realidades e era impossível compreender o endeusamento dos filhos por parte de algumas mães; a maneira assustadora em que elas deixavam de ser elas mesmas para serem apenas mães, como se todas as outras formas de ser – profissional, mulher, amiga – fossem instantaneamente excluídas pela existência de um filho. A forma como o mundo inteiro era reduzido aos sofrimentos lindos da maternidade. Me incomodava também a ideia de realização completa que o casamento representava. Máximas como “sem casamento, sem felicidade”, “sem amor romântico oficializado, só existe solidão”, não precisavam ser ditas, se via nos olhos de todo mundo, em qualquer lugar que se fosse. Sempre que eu fazia ou via alguém recebendo perguntas como “e seu marido te ajuda em casa?”, “E seu marido te ajuda a cuidar do bebê?” eu me pagava refletindo sobre. Era tão obvio que o papel deles não era de ajuda e sim de uma responsabilidade compartilhada. Afinal de contas, era um casal que morava na mesma casa, país que tiverem o mesmo filho. E tudo isso sempre foi demais para mim.

Não sou contra a maternidade, acho de uma generosidade imensa ser mãe. Ajudar alguém a crescer e se tornar quem de fato é me parece uma missão e tanto! Missão de pai e mãe, claro! Não sou contra o casamento, vejo ele como uma construção linda de amor e parceria. Alguém que você sutilmente escolhe para dividir o caminho e, meu deus, isso tudo é lindo! Mas, me entristece o peso! Me faz sofrer a negação de uma vida cheia de possibilidades por uma satisfação social. Ser o que querem que você seja, sem ao menos saber quem se é de fato.

d0918570c95e86137169c7ad0beaa7f0.jpg "Fotos do livro "Man meets Woman", de Yang Liu."

Não existiu um momento determinado da minha vida em que comecei essa análise, sempre a fiz. Existiu sim, um momento em que pude começar a compreender quem eu era, como eu pensava a sociedade e então permitir que essas analises fossem externalizadas sem medo. Nunca sonhei com um casamento, esse nunca foi meu ideal de vida. Nunca sonhei ter filhos, essa nunca foi uma motivação. Da mesma forma que nunca sonhei tantas outras coisas na minha vida, mas, que aconteceram e foram positivas e eu as vivi sem peso, sem a obrigação de vive-las. Não me sinto obrigada a essas manutenções sociais para ser mulher, para ser completa. Quero vive-las porque aconteceram, ou porque decidi livremente, conscientemente dona de mim e do meu próprio corpo optar por elas.

Como um bom fruto de uma sociedade machista, demorei a compreender o significado do feminismo. Foi preciso um processo interno intenso para entender que feminismo diz respeito a igualdade social de gêneros e não ódio ao homem. Que ser feminista não te rouba a feminilidade. Que feminismo não é o contrário do machismo. E que homem também é feminista. Foi difícil aceitar que eu era feminista e, melhor, que sou assim desde sempre. Contudo, quando compreendi em que lugar da sociedade, em qual grupo ideológico eu estava inserida, a aceitação foi mais fácil. Perceber que eu não estava sozinha ou maluca me fez um bem rs.

5e034a1845af9beeb3fd4ea570fa0c62.jpg "Fotos do livro "Man meets Woman", de Yang Liu."

Meu namorado (sim sou feminista e namoro um homem por incrível que pareça!), que cozinha muito bem, divide sempre as contas dos bares e cinemas comigo, passa e lava roupa como ninguém, ouviu de uma pessoa “altamente espiritualizada” que ele tinha nascido com defeito por isso. Então, que belo casal de defeituosos nos tornamos! Nossos filhos serão monstros. Cuidado com eles sociedade!

No fim, há muito que aprender. São muitos os paradigmas que ainda precisamos quebrar para compreender a igualdade de escolha e de possibilidades de vida entre mulheres e homens. Meu namorado, meu pai, meus tios, primos e amigos tem muito a se abrir, muitas visões a expandir. Assim como eu, minha mãe, minhas tias, primas e amigas precisamos assumir nosso lugar quanto pessoa que somos e não ter medo de ter voz e vez em uma sociedade que levemente se transforma em meio à crise.

Precisei quebrar meu próprio machismo para publicar esse texto. E que vitória incrível essa!

A todos que sempre questionaram meu posicionamento sobre, é isso: sou feminista, assumi!


Tamires Borges

Apaixonada pelas insignificâncias, sou professora de História, amante de livros, vinhos e boas rezas. Escrevo porque preciso transbordar de mim e em mim. .
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