Água na peneira

Sou passarinho, sou passarela. Pensamentos que passarão...

Tamires Borges

Apaixonada pelas insignificâncias, sou professora de História, amante de livros, vinhos e boas rezas. Escrevo porque preciso transbordar de mim e em mim.

As bandejas da praça de alimentação

Todas as vezes em que eu era servida por alguém em um posto de gasolina, em um restaurante ou em uma loja, eu me sentia mal pelo fato de uma pessoa estar fazendo algo que eu tenho plena capacidade de fazer sozinha, como servir uma bebida no copo. Mas, foi na praça de alimentação do shopping que tive a certeza que aquele incomodo não era loucura ou “alma de pobre”, como ouvi de algumas pessoas.


20120115212035922267i.jpg Foto retirada do Jornal Correio Brasiliense em reportagem sobre o tema.

O maior fato da humanidade é que nós seres humanos sentimos uma ponta de superioridade em relação ao resto dos seres do mundo. Esse modo de ver a vida está presente em nossas práticas diárias, em nossa alimentação, em nossa relação com os animais e as plantas, por exemplo. Está inclusive em nossa relação com seres de nossa mesma espécie, o que é muito curioso inclusive. Contudo, podemos explicar bem a fonte dessa ideia. A tradição judaico-cristã trabalha o conceito de que o mundo foi criado para que o homem o desfrute e o processo de industrialização, por sua vez, nos separou ainda mais da natureza fazendo com que ela assumisse o papel de provedora e não de parte integrante de uma vida terrestre. Tudo isso ao longo do tempo, somada a práticas tipicamente humanas de inferiorização – como a escravidão –, resultou no que podemos chamar de “sociedade da servidão”.

A Sociedade da Servidão se baseia na compreensão que existimos para sermos servidos. Não importa o local ou a ocasião, é preciso ter alguém para satisfazer suas necessidades básicas. Tudo aquilo que parece uma ação menor deve ser feita por alguém para que você, no auge de sua importância, não gaste tempo ou se preocupe em fazer. Infelizmente, não sou antropóloga e esse não é um estudo científico para definir conceitos, mas podemos observar esse comportamento vivo em nossas relações sociais, assustadoramente vivos, e discutir sobre eles.

Todas as vezes em que eu era servida por alguém em um posto de gasolina, em um restaurante ou em uma loja, eu me sentia mal pelo fato de uma pessoa estar fazendo algo que eu tenho plena capacidade de fazer sozinha, como servir uma bebida no copo. Mas, foi na praça de alimentação do shopping que tive a certeza que aquele incomodo não era loucura ou “alma de pobre”, como ouvi de algumas pessoas. Vamos compreender melhor: todos os clientes ganham bandejas das lojas de alimentação onde são servidos seus pratos. Eles levam as bandejas para as mesas, fazem suas refeições e ao terminar é preciso que um funcionário – talvez contratado exclusivamente para isso – passe recolhendo o prato que você comeu e jogue fora os guardanapos e copos que você usou. Enquanto esperava meu namorado pegar sua bandeja em uma dessas redes de alimentação eu olhava aquela cena como absurda. Não consegui entender porque as pessoas não levavam seus próprios pratos na mesa. Não consegui entender qual a dificuldade disso. Não conseguia entender porque uma pessoa tem que ser paga para recolher os pratos da mesa. Naquele dia, meu mal-estar em ser servida no mínimo fez todo o sentido.

Dentro desse questionamento, não estou abrindo precedentes para a exclusão de empregos ou coisas do tipo. Quero sim, discutir uma nova visão de participação e pertencimento no mundo. É preciso pensar até que ponto realmente precisamos que alguém recolha nosso prato, sirva nossa bebida no copo. O comportamento de servidão é tão presente na cultura de nosso país que podemos observá-lo em todos os lugares, passeando por todas as relações sociais. Como na nossa casa, quando já quase adultos ficamos esperando a obrigação de nossos pais em lavar a louça por nós.

Cabe a nossa geração, parte forte e questionadora da sociedade brasileira, repensar quais são essas reais necessidades básicas e quem é o responsável em fazê-las. Será que não é hora de nos responsabilizarmos por nós mesmos?


Tamires Borges

Apaixonada pelas insignificâncias, sou professora de História, amante de livros, vinhos e boas rezas. Escrevo porque preciso transbordar de mim e em mim. .
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