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Daniel Vianna

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O juiz e o desapego

"A morte de Ivan Ilitch", de Tolstoi, nos lembra que a dependência demasiada de um emprego, pessoa ou objeto torna o indivíduo um escravo das circunstâncias. Eis o preço da verdadeira liberdade: o desapego! Pronto para pagar por ele?


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"Ivan Ilitch chegou à conclusão de que a convivência familiar, embora ofereça vantagens, era uma coisa verdadeiramente complexa e difícil, para a qual é preciso elaborar uma relação definida, tal como perante o trabalho, a fim de se poder cumprir honradamente o dever, ou seja, levar-se uma vida que, pela correção, a sociedade aprove…”

"Quando entrou a repassar o período que gerara o atual Ivan Ilitch, tudo o que lhe parecera ser alegria se desmoronava ante seus olhos, reduzindo-se a algo desprezível e vil. E, quanto mais longe da infância e mais perto do presente, tanto mais as alegrias que vivera lhe pareciam insignificantes e vazias.”

TRECHOS DE “A MORTE DE IVAN ILITCH” (1886), de LIEV TOLSTÓI

Em um curto espaço de tempo, tive a sorte de me deparar com duas belas histórias, coincidentemente relacionadas com este ofício tão simbólico que é o juiz – figura que, em nosso país, vem sendo distorcida já há algum tempo por certos indivíduos, que cometem infrações, no mínimo, de natureza caricatural, sabotando, em algum grau, o prestígio dos demais colegas de magistério.

A primeira história, a clássica novela de Liev Tolstói “A morte de Ivan Ilitch”, nos remete à Rússia do século XIX, onde o protagonista (o próprio Ivan) se encontra no fim de sua vida, passando por uma profunda angústia existencial.

Ele não se conforma de, ao ter vivido a “mais correta” das vidas, seguir pelo corredor da morte e deixar para trás a sua confortável e respeitosa existência. Inevitavelmente, todo ser humano, em algum momento de sua vida, fará esta pergunta para si mesmo: “Onde foi que eu errei?”. E, no embate do personagem contra a sua consciência, Tolstoi nos deixa pistas que ilustram onde, muito provavelmente, nosso ilustríssimo Ivan “pisou” na bola: na completa indiferença do personagem com relação à sua família, assim como na sua feroz obsessão pelo poder e prestígio que o cargo lhe assegurava.

Já em "O Juiz", filme estrelado por Robert Downey Jr. e o veterano Robert Duvall, é contada a história de um filho advogado que, ao saber da morte da mãe, se vê obrigado a reencontrar o pai, juiz, com quem não falava há muitos anos. O enredo é focado basicamente no conflito entre os dois: no terreno familiar e no domínio das leis. À certa altura do filme, há um diálogo entre os dois personagens no qual fica evidente o apreço e orgulho que o pai tem de ser o juiz “de uma cidadezinha no meio do nada!”, como seu filho faz questão de lembrá-lo!

Acontece que o pai está tratando de um câncer e alguns de seus sintomas já são visíveis - como a perda da memória – e a doença seria o único argumento para salvá-lo de uma condenação por atropelamento.

Entretanto, se optasse pela divulgação no tribunal de sua condição, fatalmente seria colocado em xeque todo o seu trabalho recente e, em sua visão, isto mancharia sua reputação como um “juiz de atuação impecável junto à comunidade”.

Fica evidente aqui a semelhança entre os dois juízes (o de Tolstói e o de Duvall): uma paixão pela sua história de vida e pela sua identidade. Não só uma paixão – um apego desproporcional ao cargo, ao poder e prestígio que ele proporciona (mesmo que seja em uma “cidadezinha no meio do nada”); ao ponto de o confundirem com a própria existência. Nos dois casos, este apego levará ao sofrimento e ao sentimento de vazio existencial quando os personagens se confrontam com situações que fogem de seu controle.

Eis aqui uma armadilha fatal que captura muitos e aguarda tantos outros no mundo real: o perigo de mirar apenas um alvo durante a existência. Uma miopia fatal, que nos cega diante de um todo maior que é a vida.

Sêneca (4 a.C. – 65 d.c.), célebre filósofo do Império Romano, dizia que “o destino é uma realidade. O homem pode aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se o aceitar de livre vontade, goza de liberdade. A morte é um dado natural.” Ou seja, lute contra o que a vida lhe apresenta, e você será um eterno prisioneiro. A dependência demasiada referente a qualquer emprego, pessoa ou coisa fatalmente lhe tornará um escravo das circunstâncias. Um agente atuando contra o próprio destino. Um assassino de si mesmo. Duro? Com certeza!

Outro exemplo bem didático que me vêm à cabeça é a ruína do jovem Anakin Skywalker. Os fãs de Star Wars se lembrarão de que a causa-raiz de sua queda foi ensejar ressuscitar o amor de sua vida. Mesmo sendo lembrado por Yoda de que a morte “faz parte do curso natural da vida” e que o apego “leva ao lado negro da força”, o jovem não lhe deu ouvidos, se tornando o maior psicopata das galáxias – o inesquecível Darth Vader!

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Talvez a maior ilusão do ser humano durante a sua curta existência seja a capacidade de controlar eventos de sua vida e a dos outros. A triste realidade é que mal controlamos a nós mesmos. Se isto fosse possível, não haveria tantos dependentes químicos entre nós.

Não à toa, Tolstoi e o roteirista do filme mencionado, escolheram para seus personagens o cargo de juiz – talvez o cargo mais representativo entre os homens - que, figurativamente, quase o eleva à posição de Deus.

Para sua ruína ou bem-estar, ainda que juízes, são homens – portanto sujeitos à equívocos, desejos, paixões, doenças e, claro, à morte. Controlam, em boa medida, o destino de muitas vidas, no que corresponde à prisão ou liberdade física. Entretanto (e aqui abro um parêntesis para também lembrar aos nossos fanfarrões que envergonham o nosso judiciário tupiniquim), há de se notar que existem por aí tantas outras formas de encarceramento e das quais todos nós, mortais, juízes ou não, estamos inevitavelmente sujeitos!


Daniel Vianna

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