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olhe para fora somente quando sabe o que tem dentro...

Daniel Vianna

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A gravidade das crenças

Quando acatamos fielmente o pensamento de um grupo, sem questioná-lo e ainda ignoramos os nossos, nos comportamos como pequenos planetas girando passivamente em torno de estrelas densas, poderosas e mortais…


“Nunca é tarde demais para abandonar nossos preconceitos. Não se pode confiar às cegas em nenhuma maneira de pensar ou de agir, por mais antiga que seja. O que hoje todo mundo repete ou aceita em silêncio como verdade, amanhã pode se revelar falso; mera bruma de opinião, que alguns tomam como uma nuvem de chuva que fertilizaria seus campos.”

– Henry David Thoreau (1817 – 1862)

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Quando acatamos fielmente o pensamento de um grupo, sem questioná-lo e ainda ignoramos os nossos, nos comportamos como pequenos planetas girando passivamente em torno de estrelas densas, poderosas e mortais…

No filme Inception (“A origem”), de 2010, dirigido pelo brilhante Christopher Nolan, temos como idéia central um time de profissionais especializado no “roubo de idéias e pensamentos” de indivíduos poderosos (banqueiros, empresários de conglomerados, etc.), enquanto estes se encontram em sono profundo. Em determinado momento, um cliente pede ao personagem de Leonardo Dicaprio que inove em sua abordagem e que, ao invés de roubar a idéia da vítima em questão, implante uma em sua cabeça – uma idéia que satisfaça os seus próprios negócios.

Voltando ao enredo do filme e trazendo à luz este conceito de implante de idéias: seria possível afirmar que alguns pensamentos que rondam o nosso cérebro sequer foram originados nele, mas foram inseridos de forma estruturada e orquestrada e – para piorar as coisas – sem que percebêssemos?! A resposta é um sonoro SIM, e isto acontece a todo segundo, principalmente em uma realidade tão repleta de informações como a nossa. Assim como sugere o filme em certo momento, quando os personagens julgam estar acordados, nós também podemos cometer o mesmo equívoco!

A invasão pode ocorrer de inúmeras formas. Neste texto em particular, trataremos da influência do pensamento do grupo sobre o pensamento do indivíduo, introduzindo uma espécie de adestramento: “você se recusa a pensar por conta própria – por livre e espontânea vontade – e em troca lhe oferecemos inúmeros benefícios”. Estes benefícios podem ser de ordem financeira, proteção ou mesmo emocional: o indivíduo, incapaz de reconhecer a sua própria identidade, resolve procurá-la no próprio grupo.

E é aí que reside o maior perigo…

Família, vizinhos, comunidade, grupos religiosos, exército, colegas da empresa, torcidas organizadas, máfia, milícias.

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Ao ler estes nomes, imediatamente o seu cérebro começa a fazer associações positivas ou negativas.

Peço que deixe qualquer julgamento de lado, pois aqui não pretendo rotular nenhum grupo de bom ou mal – só estou citando exemplos. Mas todos os grupos, sem exceção, em maior ou menor grau, influenciam nossos pensamentos e, consequentemente, nossas ações.

Imagine agora os membros destes grupos como pequenos planetas orbitando em torno de uma enorme estrela, de massa expressiva (muito maior que a dos planetas), e que esta estrela representa as crenças e valores de todo o grupo.

Agora imagine você como um pequenino planeta, dando voltas e mais voltas em torno desta estrela.

Já está tonto?

Pois bem, estas revoluções em torno da estrela podem, em certa medida, representar a nossa estagnação quando ficamos presos a um mesmo círculo de idéias e crenças.

A velha e tortuosa “ladainha” se repetindo, eternamente.

Já percebeu isto acontecendo em sua vida?

Pois bem, significa que você foi “capturado” por algum sistema estelar e tornou-se mais uma vítima da força gravitacional das crenças!

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Nos dias conturbados em que vivemos, não há nenhum ambiente melhor que as redes sociais para testar esse conceito.

Experimente fazer apologia a uma determinada linha de pensamento e instantaneamente, como em um passe de mágica, a força gravitacional do seu post irá puxar dezenas, centenas de curtidas – a maioria de pessoas que pensam exatamente como você! Desta forma, a sua crença é reforçada. E assim, cheios de orgulho, presenciamos o nascimento de mais um novo sistema estelar!

Qual o risco envolvido?

Ao ignorarmos os nossos próprios pensamentos e nos deixarmos “orbitar” exclusivamente em torno do pensamento do grupo, estamos, lentamente, aniquilando as nossas próprias ideias e sonhos e, no mais profundo, aniquilando a nossa própria identidade.

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Exagero?

Experimente, por exemplo, mergulhar de cabeça e dedicar muitos anos de sua vida para uma determinada causa, seguindo um grupo no qual você confiava cegamente, para depois descobrir que a verdade por trás daquilo era uma farsa e, na verdade, eles te manipulavam e estavam interessados mesmo era no seu dinheiro.

A sensação não seria lá muito agradável, não é mesmo?!

Você provavelmente sentirá raiva de si mesmo, por não ter enxergado a verdade bem antes. E o tempo perdido com toda aquela enganação? Infelizmente, não será recuperado.

Para piorar, você ainda corre o risco de ser ridicularizado e tachado de “traidor” ao sair do grupo, e muitos não lhe darão ouvidos sobre a história da manipulação. Você vivenciará, então, o primeiro embate das suas próprias ideias contra as ideias do grupo.

Não terá como confrontá-los diretamente, pois a “gravidade” da Estrela é sempre mortal e você estará fragilizado, tentando juntar os cacos para iniciar uma nova caminhada. Uma caminhada mais livre e com uma importante lição aprendida.

Ao valorizar o pensamento do grupo em detrimento do seu, incorremos no risco de se colocar em uma redoma, que automaticamente inibe quaisquer premissas que não façam parte do seu conjunto de planetas conhecidos – afinal qualquer ideia (ou corpo estelar) diferente pode vir a desalinhar as órbitas do sistema e causar um terrível desconforto.

E não gostamos de descobrir que estávamos errados, não é mesmo?!

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Devemos estar dispostos a enfrentar nossas contradições se não queremos correr o risco de ficar revisitando órbitas já conhecidas!

Ao contrário das vítimas de Inception, que se encontravam em sono profundo quando foram atacadas, devemos ficar bem atentos para refletir sobre os sistemas que temos orbitado.

Eles fazem sentido?

Eles exaltam o nosso modo de ser?

Respeitam as nossas liberdades individuais?

Ou, ao contrário, sua conduta e suas crenças nos machucam e minam as nossas potencialidades?

Este tipo de avaliação nem sempre é óbvio, pois às vezes a sensação de pertencimento e conforto podem, inconscientemente, ofuscar quaisquer violências que aquele grupo tenha cometido contra você – incluindo modificar traços da sua personalidade (vários filmes de guerra exemplificam isso com primor).

Outro recurso usado por certas organizações é o uso da humilhação ou mesmo aquela cutucada light do mundo corporativo – estilo “você não deu conta do recado” – que servem apenas para reforçar a mensagem da sua inaptidão e reforça a sua dependência do grupo porque, sozinho, “você não é ninguém”!

Mas como escapar e transcender a gravidade da estrela e dos outros planetas vizinhos?

Ao se reconhecer como um pequeno planeta estagnado e incomodado, você já está dando um ótimo primeiro passo.

Pare por um tempo.

Olhe ao seu redor.

Perceba os movimentos dos planetas vizinhos.

Existe uma dinâmica ou repetem sempre o mesmo padrão?

Cronometre.

Eles mudam de direção ou sempre estarão passando por aquele mesmo ponto naquele mesmo horário, todo santo dia (provavelmente dizendo as mesmas coisas pra você)?

Ao perceber os pequenos detalhes e quão perigoso e monótono as coisas podem ficar se você não se mexer, você se encoraja para dar uma ligeira desviada na sua órbita. E, ao desviar, você percebe que sempre existiram inúmeros sistemas estelares ao redor do qual você estava. Descobre que sempre houve muito mais sistemas do que imaginava. E que talvez, as verdades absolutas na qual você sempre acreditou talvez nem fossem mentiras completas, mas apenas verdades incompletas. Parciais.

Este tipo de reflexão pode nos ajudar em situações como uma mudança de emprego, ao ampliarmos a nossa visão política, ao revermos nosso plano de negócios, nas nossas relações conjugais e familiares.

Muitas vezes precisaremos ser bombardeados por asteroides para perceber a nossa situação de comodismo. Haverá um deslocamento, muitas vezes incômodo. Corremos o risco de ficar como um planeta errante, vagando pelo espaço, observando e conhecendo os inúmeros sistemas estelares, sem se identificar com nenhum. Mas estaremos em movimento, o que por si só já nos trará um enorme aprendizado! Conheceremos a diversidade do cosmos – com toda a sua fúria e beleza! Teremos medo e ficaremos deslumbrados ao mesmo tempo – até estacionarmos novamente, ajustarmos a nossa órbita, aguardando o próximo bombardeio. Mas desta vez com mais experiência! E assim a vida prossegue – incerta, mas cheia de possibilidades!

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E se eu decidir ficar na minha linda e confortável órbita, admirando aquela linda estrela luminosa que vive me iluminando e a todo o meu grupo?

Você talvez se julgue a salvo, com as suas velhas verdades conhecidas.

Por outro lado, é necessário te lembrar que todo o seu sistema pode estar caminhando, desavisadamente, em direção a um enorme buraco negro – este sim uma ameaça a ser temida!

Pois, do pouco que conheço dos buracos negros é que, do interior deles, nem a luz escapa

“Em regra geral, que é necessário para despertar um homem adormecido? É necessário um bom choque. Mas quando um homem está profundamente adormecido, um único choque não é suficiente. Um longo período de choques incessantes torna-se necessário.” – Gurdjieff, em trecho de “O Despertar dos Mágicos” (1960), obra de Louis Pauwels e Jacques Bergier

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Daniel Vianna

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