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olhe para fora somente quando sabe o que tem dentro...

Daniel Vianna

Este artigo também foi publicado em nosso blog: odespertador.com.
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Roubos de carros e de mentes

Quando roubos de carros podem ser interpretados como bênçãos.

Quando os verdadeiros ladrões não são quem você pensa.

E quando, em uma noite qualquer, algo que supostamente estava perdido é encontrado…


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Imagine, caro leitor, a seguinte situação:

Você está acostumado a estacionar o seu carro sempre no mesmo lugar, entre “aquele poste” e “aquela padaria” – bem em frente ao seu escritório! Mais prático, impossível! Como você chega sempre no mesmo horário, bem cedinho, aquele lugar está sempre te esperando, de braços abertos!

Ninguém jamais ousou roubá-lo de você durante todo esse tempo.

E, assim, por anos a fio, aquele pequeno território foi seu.

Até que, em um lindo dia de verão, foi inaugurado um “super-shopping” nas imediações, bem na véspera do Natal.

Maldição!

De repente, todas as ruas próximas completamente tomadas!

Sem nenhuma vaguinha para o seu carro…

Você chegou cedinho, como de costume. Mas algum “maldito qualquer” já havia “roubado” a sua vaga. Desta forma, você se vê obrigado a andar mais uns trezentos metros adiante.

Você até encontra a sua vaguinha, bem apertada. Bufando, começa a caminhar de volta para o escritório. “Que absurdo!! Porcaria de shopping! Por que foram inaugurar logo aqui – e ainda nessa época?!?!” Para variar, o dia no escritório não foi fácil. Você foi obrigado a ficar até mais tarde fazendo alguns telefonemas. Um cliente em especial fez questão de transformar o seu dia em um inferno. Tudo estava dando errado! Você não estranharia se acontecessem mais alguns imprevistos ao longo do dia…

São quase nove horas da noite. O cansaço aperta.

Depois que as coisas acalmaram um pouco, você resolve ir embora.

Ao sair do prédio, você, mal conseguindo raciocinar, olha em desespero para o espaço entre “o poste e a padaria”. Nada! Nenhum carro estacionado!

“Meu Deus, roubaram o meu carro!!”

Você, atônito, caminha a passos largos para a delegacia do bairro, pronto para abrir um Boletim de Ocorrência. Histórias começam a povoar a sua mente: “bem que eu havia notado aqueles indivíduos que ficavam diante do prédio, sem fazer nada! Foram eles! Certeza! Vou falar com o síndico do edifício! O carro foi roubado bem debaixo do nariz do porteiro! Que absurdo!”

Perdido em pensamentos, você passa despercebido bem ao lado do seu veículo – que o aguardava em uma rua agora deserta – e se encaminha para passar uma hora e meia na delegacia, até se lembrar, com certo constrangimento, de que o roubo não passava de um fruto da sua imaginação – estimulada pelo cansaço mental extremo e, certamente, pelo seu condicionamento: recordando que você estacionava há anos no mesmo local e jamais precisara procurar outra vaga!

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A realidade que a sua mente considerou, por quase duas horas, foi uma só: “o meu carro foi roubado!”. E esta “realidade” foi suficiente para provocar sensações como ira e revolta e, como consequência, estimular o seu cérebro a disparar inúmeras substâncias químicas indesejadas pelo seu corpo. Felizmente, você não sofre de problemas cardíacos e não agrediu ninguém verbalmente (ou fisicamente) pelo caminho. Tratou de envolver somente um policial com a sua fantasia.

Ao assistir o último filme que retrata a vida de Steve Jobs (‘Steve Jobs’, 2015), me deparei com o termo “distorção da realidade”.

O fundador da Apple era conhecido pela capacidade (ou sina) de ignorar dados e evidências. Em determinada cena do filme, sua assistente chama a sua atenção para a capa de uma revista (a Time de Janeiro de 1983, no caso) que exibe a escultura de um computador, com o título “Machine of the Year”. Jobs a olha de relance, para depois questionar por que um computador da concorrente (IBM, no caso) e não um da Apple aparecia e por que ele mesmo não estava na capa como “Homem do Ano”- sendo que ele nem estava sendo cogitado para o tal prêmio (naquele ano, a Time fugiu do protocolo e decidiu dar o prêmio a uma “máquina”). Jobs havia acabado de construir, neste sutil episódio, uma realidade paralela em sua cabeça – que nos revela até certos aspectos de orgulho ferido e teimosia Por outro lado, Jobs foi capaz de usar este seu “dom” da distorção para moldar aparelhos incrivelmente compactos, belos e atrativos em um época em que o design e tecnologia eram inimigos mortais. O que os seus funcionários alegavam ser impossível, tornava-se realidade após a dose certa de pressão psicológica e irredutibilidade de Jobs.

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Em resumo: o fundador da Apple tinha o raro dom de esculpir a realidade conforme a sua visão, com o mínimo ou nenhuma interferência de terceiros – para o bem e para o mal. Para o bem, pois os seus produtos se tornaram referências em design e interface com o usuário. O lado negativo é que a sua popularidade entre os funcionários da Apple era péssima. Para a sua sorte, será lembrado pela humanidade muito mais pelo primeiro aspecto…

De modo muito semelhante à postura de Jobs (quanto a refutar evidências e opiniões fortemente contrárias), as histórias dos cientistas Giordano Bruno e Michael Faraday, conforme retratadas na série Cosmos (disponível no Netflix), nos dá uma modesta exibição de como a intuição humana é capaz de moldar a ciência e a história.

Giordano Bruno contestava o modelo heliocêntrico (o Sol como o Centro do Universo), conceito tido como certo à época. Bruno afirmava que a nossa estrela mais próxima era apenas uma dentre as incontáveis outras espalhadas pelo Universo. A série nos mostra que o frade dominicano era atormentado por ideias e visões, sobre as quais tinha a mais absoluta certeza, apesar de não conseguir prová-las cientificamente. Defendeu-as aguentando firmemente o deboche da sociedade e os seus oito anos de encarceramento e torturas.

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Acabou queimado na fogueira pela Inquisição pelas suas ideias “perigosamente” avançadas para a época.

Bruno apenas evidenciou que os pré-requisitos para se tornar um homem de vanguarda na ciência são a coragem e a fé (ou “pura intuição”, para não colocarmos no mesmo caldo “as duas inimigas mortais” – fé e ciência!) – pois, como um bom cientista sabe, muitas realidades se escondem no mundo invisível.

O exemplo de Michael Faraday ilustra perfeitamente este caso.

Faraday obteve um enorme avanço diante dos fenômenos invisíveis da natureza ao entender a correlação entre a luz, o eletromagnetismo e a eletricidade. Curiosamente, Faraday não era bom de matemática e, dessa forma, não conseguia ser levado a sério no meio acadêmico com relação às suas descobertas sobre os aspectos dos campos magnéticos formados ao redor de ímãs e fios condutores. Somente após o surgimento das equações elaboradas por James Maxwell (Equações de Maxwell) é que seus experimentos foram considerados “completos”.

Agora, você me pergunta: mas o que o meu ligeiro contratempo, contado logo no início, tem a ver com as histórias de homens da envergadura de Jobs, Bruno e Faraday?

Sinal de que você está atento! Ao contrário de quando passou reto pelo seu veículo…

Nestas histórias, temos similaridades e diferenças acerca da interpretação da realidade.

Comecemos por Jobs, Bruno e Faraday (não que você seja menos importante!).

Qual a característica que os une?

Os três homens tinham a capacidade de questionar a “realidade” como ela se apresentava e não tinham medo de represálias: recordando que Jobs foi demitido da própria empresa, Bruno foi queimado na fogueira e Faraday foi vítima de negligência e ridicularização por parte dos seus pares acadêmicos. O próprio conceito de “realidade” em suas mentes era visto como algo subjetivo.

Voltemos, agora, ao seu caso (e quando digo “seu”, me refiro ao “nosso” – ao de “nossa sociedade”!).

A forma como você interpretou a realidade no caso do suposto roubo foi fruto de um condicionamento. Ao parar por dias e dias seguidos no mesmo local e por viver em uma sociedade onde o roubo é algo corriqueiro, você imediatamente traçou um roteiro pronto para aquela situação. E assim adquiriu – talvez até sem querer – um “modo piloto-automático”.

Qualquer coisa que venha a abalar esse sistema inevitavelmente gerará desconforto, confusão e raiva.

Lembra-se de como se sentiu na caminhada até a delegacia de polícia?

Como suspeitou e praguejou contra várias pessoas que sequer estavam envolvidas nessa situação toda?!

O “modo piloto automático” é uma praga que assola o homem moderno.

Praga porque, uma vez que operamos dessa maneira, passamos a ser dominados pela realidade, ao invés do oposto.

“Mas você mesmo falou no final da história que o carro havia sido roubado!” – você questiona.

Sim, é verdade.

Mas na medida em que você pensou, sentiu e agiu como se o carro tivesse sido roubado, esta foi a realidade em que viveu por alguns instantes. Dito isto, ainda bem você não partiu para cima do porteiro que estava cochilando e não estava vigiando o seu carro!

Este pequeno exemplo nos mostra como a nossa sociedade tem se relacionado de uma maneira muito pobre e nada construtiva com a realidade à sua volta. Ainda somos vítimas de impulsos indesejados e destrutivos.

Somos contadores de histórias fictícias inventadas para nós mesmos a fim de justificar alguma outra coisa que às vezes nem conseguimos definir.

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Os elementos subliminares da realidade tem sido perdido o seu espaço.

Somente consideramos o que pode ser visto, ouvido e sentido – como se os nossos sentidos tivessem a capacidade de “encapsular” toda a realidade. Mas nos esquecemos do que precede a nossa experiência e a qualidade dela. Ignoramos o nosso avançado estágio de condicionamento mental. Por isso, a raridade de homens como Jobs, Bruno e Faraday.

Perdemos a capacidade de moldar a realidade. E quando paramos de fazer isso, damos a ela o poder para nos moldar.

Abatemo-nos facilmente diante de “desafios impossíveis”, de “desaprovações”, de “fatos contraditórios”, das “notícias pessimistas”, de “evidências irrefutáveis”, de “supostos modelos ideais”. E, assim, a nossa identidade (assim como a nossa maneira de pensar de maneira autêntica e original) é “roubada” – assim como o nosso carro.

E você, leitor, como tem lidado com a sua realidade?

Tem enfrentado muito este tipo de furto ultimamente?

Até que ponto você tem se deixado dominar pelos fatos e condicionamentos?

Lembre-se: assim como nosso carro, nossos potenciais podem estar apenas alguns metros adiante. Às vezes, precisamos apenas caminhar mais um pouco para alcançá-lo. E também de muita coragem e fé (ou intuição, se preferir) para dar a partida nele. O mais importante é termos o cuidado de não sermos distraídos por outros inúmeros pensamentos no caminho (estes sim os verdadeiros ladrões) e passemos reto por ele – mais uma vez!

“A realidade é apenas uma ilusão, ainda que muito persistente.” (Albert Einstein)

“Aquilo que hoje está provado não foi outrora mais do que imaginado.” (William Blake) 7u.jpg


Daniel Vianna

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