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olhe para fora somente quando sabe o que tem dentro...

Daniel Vianna

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O Senhor das Palavras

“O Senhor dos Anéis” nos ensina que a linguagem, embora fundamental para a vida em sociedade, também possui um lado obscuro, capaz de causar mais dano a nossas consciências do que imaginamos….


“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Ele estava no princípio com Deus.

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.”

João 1, 1-5

Poucos escritores dominaram tanto o uso da linguagem como J.R.R. Tolkien.

Em sua obra-prima, O Senhor dos Anéis, o autor não só narrou a saga épica de um grupo de heróis, de diferentes raças, que se uniram para combater um poder maligno e aparentemente indestrutível, mas o fez com uma riqueza de detalhes sem precedentes na história da literatura: criou povos, culturas e idiomas únicos, preenchendo cada canto vazio da Terra Média, atuando como um verdadeiro ‘deus’ daquele mundo de fantasia – a exemplo do que havia feito em Silmarillion.

Entretanto, se nos esforçarmos um pouquinho para enxergar além do mero escapismo e entretenimento, veremos que há ricas mensagens deixadas pelo autor ao longo das mil páginas desta saga épica e imortal – principalmente sobre os perigos do uso da linguagem.

A começar pelo que está grafado nele, o Um Anel, o objeto mais aterrorizante da Terra-Média e em torno do qual toda a narrativa foi construída:

“Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu,

Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,

Nove para os Homens Mortais fadados ao eterno sono,

Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono

Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.

Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,

Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los

Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.”

Não à toa, ao comunicar estas palavras à Frodo, Gandalf toma o cuidado de não proferi-las em sua língua nativa, a temida língua escura de Mordor.

A língua de Mordor, incorporada ao Um Anel, pode ser interpretada como o Sistema Dominante (afinal, sistemas são construídos com base na linguagem) que consegue subjugar os sistemas menores, ou aqueles que pertencem às demais raças daquele mundo: homens, anões e elfos.

Longe de ser um simples artefato, o Um Anel possui vontade própria. Através dele, Sauron seduz seus portadores, dominando suas consciências e seu livre-arbítrio, iludindo-os com uma falsa sensação de poder.

O “olho que tudo vê” precisa apenas de breves segundos de acesso a uma mente descuidada para dominá-la por completo. E não importa se você é um homem, anão ou elfo.

Quanto maior o poder do usuário, maior o estrago.

Não escapam nem mesmo magos poderosos como Saruman que, tentado por sua curiosidade, resolve bisbilhotar o Senhor do Escuro através de uma pedra mágica e é transformado em um mero fantoche. Sob os comandos mentais de Sauron, destrói grande parte da floresta de Fangorn (uma clara referência ao desmatamento de nosso planeta) e cria um exército de famigerados guerreiros Uruk-Hai, cruzando orcs com homens (uma provável referência aos nem sempre tão nobres experimentos genéticos).

Nenhum habitante da Terra-Média permanece incólume ao poder de Mordor. Mesmo assim, todas as apostas para destruí-lo estão direcionadas para um hobbit de um metro e meio de altura….

A linguagem e o roubo da identidade

Enquanto os representantes de outras raças se envolvem em batalhas épicas e de natureza física, trucidando batalhões de orcs, Frodo se vê em uma batalha de outra natureza. Seu verdadeiro desafio é espiritual, como um teste de resistência contra as tentações e, principalmente, contra o medo.

Medo não só dos perigos externos que surgirão no caminho até Mordor, mas principalmente o medo de perder a sua própria identidade.

O Um Anel sobre o seu pescoço representa a linguagem (ou Sistema) dominante naquele mundo e, aos poucos, ele vai se apoderando da mente de Frodo até que ele e o Anel se tornem um. Isto significa que a missão “Destruir o Um Anel” vai ganhando os contornos de “Destruir a si mesmo”. À medida que avança em direção à Mordor, é como se perdesse a memória de quem era antes do Anel.

Simbolicamente, Sam e Gollum cumprem o papel de lembrar Frodo de sua verdadeira identidade. Podem ser compreendidos como a dualidade existente em sua mente: Sam representa a amizade verdadeira, a fidelidade, o companheirismo e o serviço desinteressado. Já Gollum…bem, Gollum talvez seja a figura mais poderosa do livro. Gollum é a sombra de Frodo ou, em outras palavras, a criatura representa tudo o que o hobbit rejeita em si mesmo. É uma criatura repugnante, asquerosa e sem amor próprio, que outrora fora um hobbit como ele.

A criatura lhe lembra, a todo momento, que ele, Frodo, pode vir a tomar o seu lugar (e sua forma) se sucumbir ao poder do Um Anel.

A mente humana e o seu eterno sono ou “não mande um homem para fazer um serviço de hobbit!”

No livro, a raça humana é descrita como a mais instável, a menos confiável, a mais egoísta. “Fadados ao eterno sono”, como sinalizou o trecho acima, os humanos no livro são incapazes de oferecer ajuda até mesmo aos seus semelhantes. E foi Isildur, Rei de Gondor quem teve a chance de destruir o Um Anel para sempre diante dos fogos da Montanha da Perdição mas não o fez, seduzido pelo seu poder.

A crítica de Tolkien à raça humana é clara, demonstrando sua pouca confiabilidade diante de tentações. Principalmente, a tentação pelo poder. No caso do Um Anel, o poder concedido era apenas ilusório pois, mais cedo ou mais tarde, ele arruinaria seu usuário.

Em nosso mundo, um outro instrumento de poder também pode nos arruinar, se obedecido cegamente e de forma indisciplinada.

A mente humana é capaz de construir realidades maravilhosas, mas também tenebrosas. O “eterno sono”, alertado por Tolkien, simboliza nossa extrema dificuldade de atuar de forma consciente e equilibrada perante a maioria das situações da vida, o que nos impossibilita de enxergar as situações com clareza. Tal como o Anel, a mente indisciplinada pode nos iludir com falsas promessas, nos fazer enxergar realidades inexistentes e perseguir sonhos vazios.

A mente fechada se recusa a questionar o que precede a linguagem (ou Sistema) que a formatou. Interpreta a linguagem como ‘a própria realidade’ e NÃO como uma ferramenta. Sendo assim, se recusa – e teme – questionar sua própria identidade, seus costumes, crenças, ‘achismos’ e por aí vai. Flerta, assim, com a própria estagnação. Reagirá e atuará sempre de forma passiva, engolfada pela linguagem imposta.

E, se esta estiver mal-intencionada como a linguagem de Mordor, temos um grande problema!

Está complicado de entender?

Por exemplo, se você fosse um jovem na Alemanha em 1938, sob o comando de um sujeito que usava bigode chamado Adolf, você provavelmente faria uma reverência diária à suástica, queimaria livros sem hesitar, nutriria um ódio pelo povo judeu e se julgaria como um ‘abençoado’, tendo nascido em meio a uma raça superpoderosa, também conhecida como ariana. Este é só um pequeno resumo do poder da linguagem, das palavras, dos símbolos. Hitler criou uma mitologia extremamente convincente em torno do nazismo, quase impossível de ser rejeitada ou até mesmo contestada nos seus fundamentos para o seus conterrâneos mais ‘adormecidos’.

Isto significa dizer que, se você fosse um de seus seguidores, aquela seria “A” realidade.

E, para os que estivessem acordados, que abandonassem a pátria ou cultivassem o silêncio.

O domínio sobre a linguagem, condição para a verdadeira liberdade

Saindo da Alemanha nazista e voltando à Terra-Média, mais precisamente no momento em que Frodo está prestes a jogar o Anel na lava da Montanha da Perdição.

Neste momento, vemos o quanto é custoso para ele livrar-se do artefato: é como se ele e o Um Anel fossem uma única entidade. Sua sombra simplesmente não deixa que ele siga adiante. Mas, pela graça divina, a atitude de Frodo evoca Gollum quase que por magnetismo. Este ressurge, tomado pela ira e pula em cima de Frodo, arranca-lhe o dedo com uma mordida raivosa e, aos pulos de alegria por ter recuperado seu ‘precioso’ de volta, acaba se descuidando e cai no rio de lava, completando a missão para Frodo sem querer.

Assim, o hobbit testemunha a dissolução literal de sua sombra – ou da sua parte que havia sido seduzida pela língua de Mordor: ele está “livre do encantamento”!

Tolkien lembra a todos nós, que a transcendência ou liberdade última e a dissolução de linguagens, sistemas e crenças que nos escravizam não ocorrerá sem que haja tentações, perigos e inimigos pelo caminho. É possível que haja alusão de Tolkien (um cristão devoto) à jornada do próprio Cristo: assim como Ele, Frodo carregou o seu fardo de forma solitária e obediente, libertando todos os povos da Terra Média, sem qualquer distinção.

O homem moderno: um escravo da linguagem?

Trancafiados no porão de nossas rotinas e obrigações, desenvolvemos uma forte tendência em ignorar e manter distância dos ensinamentos e da sabedoria empreendida em obras como as de Tolkien. Pensamos que “não é conosco”, que trata-se de simples fantasia fantástica…

E, em toda a nossa “sabedoria moderna”, continuamos mais escravos da linguagem como nunca. Lembrando que a linguagem não é boa nem má, ela é neutra – e condição primária para a vida em sociedade.

Entretanto, a maioria dos seres humanos abdica da razão para interpretá-la e criticá-la quando necessário, deixando que ela os escravize e domine o seu ‘livre-arbítrio’.

Por qual outro motivo nunca elegemos tantos políticos populistas?!

Ou por qual outro motivo deixamo-nos influenciar por uma mídia sensacionalista e apocalíptica?!

Ou por que tantos seres humanos ainda são tão influenciados pela opinião alheia?!

Sim, porque até mesmo a opinião dos outros, simples palavras dirigidas a você, têm enorme efeito sobre suas atitudes poderão aprisiona-lo se você não estiver com o seu ‘filtro’ habilitado.

Uma palavra alheia é capaz de edificar crenças em sua cabeça, capazes de reluzir mais do que o ouro do Um Anel!

A identificação apaixonada por ideologias e demonstração de opiniões firmes e inflexíveis – verificada em arrobas nas redes sociais – demonstra que a comunicação entre os seres humanos ainda está fortemente voltada para a destruição e rebaixamento de nossa consciência.

Adulteramos o poder dos símbolos, dos rótulos, das palavras, orientando-as para o que é negativo, pois isto nos dá uma falsa sensação de poder e de identidade.

Mais que isso: desenvolvemos um enorme prazer nesta atitude! E, onde há prazer, há também ele….o vício! Por isso, não será tarefa das mais fáceis deixar para trás o nosso pequeno “eu” que subverte a linguagem. E olhe que para fazer esse estrago, sequer precisamos ser portadores de um anel de poder. Ou a aprender o idioma de Mordor. Pensando bem, Sauron deveria estar com ciúmes de nós, seres humanos!

Por isso, após ler este texto, promova uma forte reflexão sobre o uso da sua palavra – e de seu poder.

Ouse se tornar um senhor dela – e não seu escravo!

Talvez para atingir esse objetivo você tenha que sofrer como Frodo, pois nunca é fácil deixar vícios para trás.

Esforce-se para fazer o bom uso dela, assim como Tolkien fez. O escritor usou esta ferramenta com maestria e, com o seu total domínio, criou mundos, povos, idiomas, e personagens inesquecíveis, nos deixando como legado uma obra imortal, que encantou e continuará a encantar inúmeras gerações!

A forma como você usa a linguagem é capaz de criar e transformar também o seu mundo. Se, para a harmonia ou para o caos, para a construção ou para a destruição, cabe a você decidir….


Daniel Vianna

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