Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

Quando A Vida Te Dá Um Limão E Você Encontra "o" Espremedor

Em nosso dia-a-dia somos cercados por um mundo de objetos. A maior parte deles cumpre razoavelmente a função a qual se propõem com algum atrativo estético, contudo existem os que se destacam também pelo conceito. Estes, como objetos mágicos, transformam nossa interação em algo surpreendente. O espremedor Juicy Salif faz parte desse seleto grupo conceitual. Criação do designer francês Philippe Starck, ele é visto também como funcional, contudo sua simbólica é o que o destaca. Provocativo e sedutor, nos parece quase impossível deixá-lo passar despercebido. Atração, encanto, fascínio e tentação são etapas da nossa interação com ele, e no fim acabamos inevitavelmente seduzidos.


limao final.jpgLimões - Foto de Carrie Waller

Passos apressados, uma jovem secretária corre por uma loja de departamento, daquelas que vendem móveis e artigos para o lar. Ela precisa comprar um presente já pré-selecionado, para uma noiva que não conhece bem, em meio a uma imensa lista, mas não tem tempo. O salto bate para lá e para cá. O que comprar?

Ela passa como uma tempestade pelas prateleiras de copos e taças, ignora as de panelas. Ela parece cansada. Ninguém surge para atendê-la. Ela está atrasada e essa tarefa lhe parece demasiadamente estressante. Mais algumas passadas e ela terá, triunfante, passado os olhos por tudo.

Seu corpo se projeta para frente em largos passos, ela dá dois à frente, mas em determinado instante, pára e volta atrás. Tira os olhos da lista e passa a contemplar um único objeto. Seja lá o que for a tirou daquele transe neurótico. Ah, ela também se esqueceu do tempo.

Os olhos se arregalam, ela parece atraída por aquela peça. O que seria aquilo? Ela não se lembra da última vez que ficou assim tão encantada com um objeto. Quando bebê talvez, mas isso já fazia muito tempo.

Na etiqueta viu o preço, mas não focou nele, procurou um nome. Se aquela escultura funcional fosse um homem recém-chegado a alguma festa, certamente seria sobre ele que ela procuraria saber mais.

A coisa parecia um misto de bicho, um misto de máquina. Aquela forma lhe causou certo fascínio. Em metal e sobre três pernas articuladas, como as de uma aranha, se apoiava uma gota estriada. A gota se sustentava com tanta elegância que parecia ter sido meticulosamente calculada para ocupar aquela posição.

Figura1.JPGJuicy Salif - "o" espremedor e sua forma peculiar

Ela queria descobrir para quê servia aquilo. Na etiqueta leu Espremedor Juicy Salif de Philippe Starck. Sentiu um alívio pela resposta e ficou com muita vontade de comprá-lo.

Como se usa isso? Nenhum fio, nada de mecanismos luminosos ou um manual de uso ostensivamente monótono.

Passou a mão sobre a gota. Segurou-a com a palma da mão. Hum, é só dar uma apertadinha aqui. Ela forçou mais. A estrutura permanecia tão firme quanto antes. As estrias marcaram sua mão.

Lembrou-se de quando usava o espremedor elétrico na casa da mãe. Era tão ruidoso e em dado momento acreditava que aquilo ia engolir suas mãos. Nesse caso parecia que o jeito valia mais que a força, então talvez não fosse preciso as duas mãos, mas sim apenas uma girando com graça.

Imaginou uma laranja ali. Não, era grande demais. Imaginou um limão siciliano então. Pelo tamanho da gota parecia encaixar como uma luva. Esticou a mão até a prateleira de copos e puxou um. Empurrou-o para baixo da gota. Ele cabia perfeitamente.

Tudo se encaixava. Isso lhe deu uma boa sensação. Parecia que alguém a estava ajudando nisso. Dando-lhe respostas.

- Estou apaixonada e nem sou tão fã de limonada assim. Posso me apoderar do seu filho Sr. Starck? – sussurrou em voz baixa para que ninguém a ouvisse.

Era uma conversa dela com ela mesma. Quando foi mesmo que conversou consigo assim? Não sabia ao certo. Estava se divertindo sozinha e isso era incomum.

esboços criação.jpgEsboços em um restaurante - nasce um conceito

Pegou o Juicy Salif nas mãos, segurou-o por uma perninha. Esse já era dela. Saiu de um sorriso embasbacado para um suspiro urgente de eu-devia-já-ter-escolhido-a-porcaria-do-presente-de-casamento.

Para não perder mais tempo passou a caneta pela lista e sorteou qualquer coisa. Pronto, missão cumprida. Levaria o espremedor para o escritório de trabalho e o deixaria lá na cozinha até poder levá-lo para casa.

Chegou atrasada. O chefe fez com a mão um sinal de “você está enrascada”. Ela sorriu para a outra secretária que lhe retribuiu o sorriso com um aviso de hora extra.

Ela mencionou que precisava ir ao banheiro, quando na verdade foi até a cozinha. E com cuidado colocou o espremedor sobre a pia. Nossa, como era bom olhá-lo, mas ela queria mais. Estava tentada. Queria interagir com aquilo. Precisava de um limão. Mas ali só tinha café em pó, café em grãos e café em cápsulas.

Aquele objeto silencioso era mágico, tinha um “q” de mistério e lhe era naquele instante até mesmo proibitivo. Imaginou-se como uma adolescente rebelde trancada em um banheiro silencioso para fumar um cigarro escondida.

Voltou para a mesa. Digitou textos, leu contratos, arquivou processos e quando a hora extra chegava ao fim entrou pela porta um dos advogados autônomos da empresa. Na mão dele um limão. Tinha acabado de sair de uma palestra motivacional.

- Acredita Liss (Lissandra era seu nome) que paguei uma nota por uma palestra para no fim receber isso? Uma porcaria de limão! – falou caminhando rumo à cozinha.

Liss correu até o homem. Ela não era muito boa para puxar conversa, muito menos com quem ela achava especialmente atraente, e ele era.

starck.jpgJuicy Salif criação de Philippe Starck

Ele ficou surpreso ao vê-la na cozinha. Estava ali por causa dele?

E assim, entre sorrisos, ela sucumbiu à tentação. Puxou o limão da mão dele, cortou-o com força, buscou um copo e colocou-se a espremer a fruta.

Ele ficou deslumbrado com os movimentos que o corpo dela desempenhava com graça. O que era aquilo mesmo?

- Ah, isso? Ela exclamou passando o antebraço sobre a testa. É um espremedor de limão, criado pelo Sr. Philippe Starck. Não é demais?

Ele assentiu com a cabeça, chegando mais perto para avaliar aquele objeto metálico que transformara o ordinário ato de espremer um limão em dança, poesia e prosa.

Gota a gota o limão foi percorrendo as estrias metálicas do espremedor até preencher gracioso o copo. A conversa fluía animada em torno daquele objeto. Ao terminar o ritual, ela misturou um pouco de água e açúcar ao limão e, efusiva, virou para o advogado dando-lhe o suco nas mãos.

- O que disseram mesmo na palestra motivacional? – perguntou.

Ele sorriu, deu um gole no suco, olhou fixo nos olhos dela e respondeu – Quando a vida lhe der um limão, faça uma boa limonada!

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