Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

O Artista

Cada nome guarda um mundo em si. Como se entoassem uma palavra mágica, todo nosso eu responde de forma única, quando nos pronunciam. Se adormecidos, um chamado pode nos trazer à consciência e tornar especial a descoberta do nosso próprio eu.


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Pegou o endereço com uma amiga, o escreveu rápido em um daqueles guardanapos promocionais que carregava na bolsa. Fechou bem os olhos para entender a letra. Sim, aquele era o número.

Estava em frente ao portão certo. Lá dentro uma vasta vegetação. Roseiras se misturavam às samambaias, tufos de grama japonesa se alastravam pelo chão. Era primavera e as árvores estavam floridas. Sentiu o cheiro úmido da natureza por toda a parte. Notou uma pequena pitangueira na entrada com suas folhas miúdas dando boas vindas a todos que se aproximavam do ferro forjado do portão para buscar a campainha.

A casa parecia antiga, talvez da década de 30 ou até mesmo do início do século. Uma bela época na qual brindar visitantes com um singelo jardim era uma forma hospitaleira de dizer "como vai" e "seja bem vindo".

Tocou duas vezes. Não queria parecer insistente. Se ninguém atendesse iria embora. Desejava muito presentear a avó com uma pintura e diziam que os óleos daquele artista eram sublimes. Tinha visto um na casa da amiga e ficara impressionada com a qualidade e delicadeza dos traços.

Alguém pareceu agitar a vegetação. Rapidamente o portão abriu e um homem alto, com expressivos olhos verdes e um sorriso discreto surgiu apoiado nas volutas de metal. Era de se espantar que alguém viesse abrir sua casa de forma tão casual, sem nem mesmo perguntar quem tocava.

Ele calçava sandálias de couro surradas, uma calça de linho amarrotada e carregava a camisa sobre os ombros.

- Olá, bom dia. Se estiver ocupado posso voltar em outra hora.

- Não se preocupe, terminei um quadro no atelier e estava indo me trocar. Entre, por favor. Se não se incomodar em esperar, vá por esse caminho até aquela porta, falou apontando com o dedo, e espere um instante enquanto busco alguma coisa para vestir.

Ela obedeceu, tendo a imensa sensação de que sua presença ali era indevida, que o quadro era um capricho e que o melhor a fazer era dizer adeus o quanto antes.

Realmente ele não demorou a voltar e surpreendentemente escolheu uma regata branca para vestir, ignorando que tudo ali parecia conter um restinho de tinta e que o branco não resistiria por muito tempo.

Ela lhe falou do quadro que pretendia dar a avó. Ele lhe pediu uma foto. Ela tirou uma do bolso do vestido. Tinha encontrado nas coisas de sua mãe. Era uma daquelas fotos coloridas à mão e nela uma bela jovem fazia pose com os dedos sob o queixo.

Ele pegou a foto e a olhou com calma. Sorriu um pouco passando os olhos pela foto ao mesmo tempo em que admirava o rosto da moça.

- Você se parece muito com sua avó.

- Os amigos que jogam tranca com ela às quartas-feiras e que provavelmente a conhecem há décadas também me disseram o mesmo.

- Para quando você quer a pintura?

- Ela fará 80 anos em um pouco mais de um mês...

- Sua amiga me ligou dizendo que viria, mas disse que seria há duas horas atrás.

- Me desculpe, prorroguei minha vinda achando que o presente fosse um capricho meu.

- O presente é um capricho seu?

- Em partes sim... Falou olhando para os lados buscando algum ponto onde pudesse pousar desesperadamente as vistas. Notou o quadro recém acabado atrás de si, sorriu, engoliu a pouca saliva que lhe restava na boca. Acabei de me lembrar que nem mesmo disse meu nome.

-Sua amiga me contou.

-Eu sempre faço isso, vira e mexe ignoro as regras básicas das boas maneiras. À propósito gostei do quadro. Uma encomenda?

- Gostaria que fosse um capricho, falou rindo, mas sim é uma encomenda. Quanto às boas maneiras, gosto de pessoas que vão direto ao ponto.

- Francisco, preciso ir - falou deixando as letras escorregarem por sua boca rapidamente.

- Aceita um copo d'água antes de sair correndo por aquela porta?

- Não costumo beber muita água, mas se não se importar, eu aceito.

- Vou buscar lá dentro, prometo não demorar.

Quando ele saiu ela sentiu um silêncio retumbante invadir todo recinto, e naquele instante esse silêncio não lhe pareceu assustador, pelo contrário, calava toda a ansiedade que gritava: vá embora. Achou um espelho no canto. Nele bordas descascadas pelo tempo e seu reflexo. Parecia uma menina terrivelmente assustada. Como se lhe roubassem o primeiro beijo. Passou os dedos sobre a boca, estava seca.

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A água chegou e Francisco atrás de si a olhava com o copo nas mãos.

- Não percebi que estava ai.

- Não a quis interromper. Por onde andavam teus pensamentos?

- Estancaram em mim, em alguma parte que não consigo por hora compreender.

- Sinceras as tuas palavras, falou encostando o copo nos dedos dela, agora gelados pelo nervosismo. Eu não disse seu nome, tão pouco você, mas fiquei surpreso quando a Carmem me ligou.

- Ficou surpreso? - disse ao beber o copo d'água em rápidos goles.

-Sim, ela pediu que eu o anotasse para que não o esquecesse. Disse: escreva à caneta, pois todos o esquecem depois de alguns minutos. E eu pedi que me dissesse e não o anotei.

- Não escreveu nada?

-Não, nem uma só letra.

- Por isso não o disse até agora. Eu demorei duas horas, não tem a mínima ideia de como me chamo.

- Não o disse, mas não teria dificuldade em dizê-lo agora ou em algumas horas. É uma palavra mágica. Como um "abracadabra". Muitos vão esquecê-lo anotando ou não. Alguns até mesmo o anotarão errado, acrescentando ou tirando letras e por mais que você repita não lhes caberá na boca.

- Uma palavra mágica para quê?

-Para um mundo que até mesmo você desconhece. Como se quando nascesse lhe confiassem uma chave enlaçada em uma fita. Mas a chave, a fita e até mesmo a fechadura para ela, todas as três, estão juntas em uma única palavra. Um segredo do universo.

- Francisco, como soube?

-Um artista costuma enxergar o que os outros não vêem.

- Diga-me então - falou sem muita convicção, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. Como me chamo?

- Se eu o fizer um mundo novo se abrirá...

- Apesar daquilo que conheço como sendo o mais sensato dizer-me: corre, parte de mim dita: fica e repousa na verdade.

E assim ele se aproximou de seu ouvido e num sussurro ditou-lhe vagarosamente o nome e um novo mundo, diferente de tudo aquilo que ela um dia sonhara, se abriu para ela.

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