Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

Quem disse que livro de colorir relaxa?

Livros de colorir estão sendo vendidos hoje como um elixir mágico contra o estresse. Mas quem disse que livros de colorir sempre trazem relaxamento? Para algumas pessoas o efeito pode ser contrário. Não se encabule se você é, assim como eu, uma delas!


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Desde que Johanna Basford lançou sua série de livros de colorir o mundo editorial recheou as prateleiras de todas as livrarias do país com uma gama interminável de títulos que seguem o mesmo lema: colorir para relaxar.

Os temas vão desde Mandalas para colorir até Zumbis e Suruba com a mesma finalidade.

Mas quem disse que colorir é uma atividade antiestresse e terapêutica para todos?

Felizmente o ser humano não é uma máquina que vem com um manual de uso, com um aperte aqui, dê corda ali que as coisas funcionam.

Especialistas dizem que o efeito antiestresse dos livros de colorir se dá pelo fato de que uma pessoa focada em uma atividade que exige concentração fica atenta ao presente e deixa de lado os problemas que a afligem. Eu acrescentaria ai o sentimento de realização quando um desenho é terminado.

Muitos ainda acreditam que essa atividade é relaxante principalmente por remeter à infância, uma fase doce e singela para grande parte de nós.

A meu ver, analisando a questão de um ponto de vista mais amplo, eu diria que se alguém recebe um livro de colorir, contudo sem a possibilidade de compartilhar a experiência, pode ter dissipada grande parte do encanto (e efeito) dessa nova febre.

Acredito que a ligação com a infância ao colorir está fortemente atrelada à interação com o outro, ou seja, mesmo sendo adulto eu, ao possuir um livro desses, passo a ter aval do meio em que vivo para voltar a brincar. E muitos adultos estão se reunindo para brincar (pintar) e essa para mim pode ser a chave para a função antiestresse prometida.

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Sim, porque interagir com o outro é ótimo e assim como quem costuma tricotar (hábito hoje um pouco esquecido) ao desenhar o diálogo acontece com desenvoltura. Nesse ponto eu gostaria de possuir dados científicos para analisar o porquê da conversa fluir tão bem, até mesmo em tom confessional, quando se realiza uma atividade artística motora ao mesmo tempo em que se conversa.

Contudo, se você não se sente confortável com um livro de colorir por perto inevitavelmente deve estar se perguntando o que há de errado com você. Deve estar até mesmo se lamentando por não encontrar prazer nas páginas de um simples livro de colorir. Uma ideia fugaz sobre precisar de terapia pode ter até mesmo passado por sua cabeça e em uma tarde vazia depois de ter tentado colorir, mas sem êxito, é provável que tenha se entregado às lágrimas, tomando o cuidado extremo de escolher um lugar bem longe de uma caixa de lápis de cor para isso.

Exageros à parte, eu tenho que lhe contar uma coisa: você não é um Alien. Comprovadamente para algumas pessoas o tiro pode sair pela culatra. Ou seja, a atividade de preencher as brancas folhas de um livro pode ser encarada pela mente como uma tarefa que tem que ser cumprida, daí aquela ideia de relaxar ao colorir desenhos rebuscados pode não se concretizar. Nesse caso o livro de colorir pode trazer frustração, angústia e até mesmo estresse. Coloco ai o dedo na ferida afirmando que ao virar moda o ato singelo de colorir pode virar uma competição entre os que colorem mais rápido ou até mesmo entre os que colorem mais bonito, gerando um certo desconforto aos que não estão tão animados assim com essa atividade.

Particularmente eu preciso confessar que faço parte do grupo de pessoas que ao pegar um livro em branco cheio de desenhos minúsculos em largas folhas se sente em pânico. Sim, para mim o ato de colorir não traz relaxamento, pelo contrário.

A questão é que livros de colorir são uma maravilha mercadológica. Quase incontestáveis, bonitos e criativos, eles carregam consigo uma gama de simbolismos que os torna fascinantes, contudo nem sempre relaxantes.

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A ideia inicial dessa proposta foi da australiana Ana Eliza Soares Scott que resolveu investir no material para trabalhar com uma cliente portadora de Alzheimer. Contudo, os livros de colorir explodiram mercadologicamente graças principalmente à Johanna Basford, que se inspirou nas memórias de sua infância junto da avó para desenhar sua coleção. Ela empreendeu e obteve êxito ao vender a ideia de relaxamento, assim como ao faturar milhões com a venda dos livros. Uma história bonita inevitavelmente ajuda no sucesso dessa nova febre, já que metaforicamente ao comprar um livro desses levo junto de mim o êxito e não o fracasso de alguém.

Outro ponto interessante é que esses livros inegavelmente remetem a uma fase graciosa para grande parte das pessoas, na qual terminar um desenho era um feito de superação largamente apreciado e difundido entre membros de uma família. É possível que o efeito de satisfação provocado em algumas pessoas ao terminar um desenho tenha uma ligação direta com essas memórias.

Há ainda os que se achavam incapacitados artisticamente antes do livro e que tornaram possível o sonho de se realizar de forma artística depois dele. Nesse caso uma frustração foi atenuada ou dissipada.

E, como não mencionar o fato de que livros de colorir são fáceis de publicar, fáceis de diversificar e fáceis de vender, sendo já considerados a salvação do mercado editorial brasileiro para o ano de 2015. A modalidade já rendeu mais de R$25 milhões de janeiro até agora e é ela que vem mantendo positivo o saldo de vendas de livros em comparação ao mesmo período do ano passado.

Tendo dito tudo isso, o livro de colorir vai continuar sendo vendido, incontestavelmente, como o elixir mágico antiestresse dos tempos modernos, apesar de não o ser para todos é claro, e se você é, assim como eu, um dos que não se sente tão relaxado assim frente a esse fenômeno, saiba que, contrariando todas as probabilidades, não estamos sozinhos!

(Obs: Imagens meramente ilustrativas encontradas no Google)

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