Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

Quem é você?

Quantas vezes teus olhos apressados percorreram tua imagem no espelho? Quem é essa pessoa que todos os dias te fita do lado de lá? Você um dia buscou desvendar seus anseios, soube lhe dar ouvidos e ignorar as vozes dos outros?
Encontrá-la é se encontrar e se encontrar é saber se resguardar das tormentas da vida, que poderosas podem nos arrastar.
Contudo se soubermos quem somos, sempre teremos forças para regressar à terra firme e isso determinará se atentos viveremos ou adormecidos existiremos apenas.


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Você já se olhou no espelho hoje? Passou os olhos vagarosos sobre sua imagem? Refletiu sobre si ao encontrar-se, olhos nos olhos, ou fugiu sorrateiramente?

Você já parou para pensar profundamente em si?

Quem é essa pessoa que te fita terna ou medrosa do outro lado? Quais são seus anseios, seus desejos, seus receios, seus sonhos?

Há alguns anos ouvi uma pergunta que me calou.

- Quem é você? - Ele me questionou.

- Como assim quem sou eu? Você não sabe quem eu sou?

Mas como ficar exaltada por ele não saber, se eu mesma não sabia qual resposta lhe dar?

Primeiro lhe disse: Eu sou eu. Cuspi essa resposta tentando minimizar o fato de não ter me olhado demorado há muito tempo.

Notei que a resposta não o convenceu. Disse então que eu era o meu nome.

- Você é só o nome que te deram? O seu nome é a chave para um mundo, mas te pergunto do mundo que é e não da chave para ele.

Naquele instante assustei-me. Eu tinha me esquecido de buscar as respostas que poderiam justificar toda uma vida de escolhas.

Quando cheguei em casa, à noite, depois de trabalhar o dia todo, me sentei no chão, de pernas cruzadas e indaguei-me sincera e despretensiosa: Quem é você?

Se acreditei em algum momento que um milhão de vozes me viriam soprar as respostas, me enganei redondamente. Tudo que ouvi foi um silêncio longo e perturbador.

Só perguntar não me traria soluções, eu precisava viver o que eu era. E isso teria que independer do que os outros diziam ou pensavam.

Viver nossa essência é desafiador, mas precisamos passar firmes por essa estreita trilha interior circundada por cânions profundos, sem nos deixar cair precipício abaixo. Só assim descobriremos as verdades mais profundas sobre nós.

Nosso caminho de autodescoberta é cheio de becos sem saídas, de íngremes subidas e ladeiras assustadoras. Alguns tropeços virão e mesmo que haja uma mão amiga ou uma não tão amiga assim, o que sabemos sobre nós é o que nos manterá e alimentará, é o que nos acalentará e resguardará no fim das contas.

Falo desse caminho, pois é inegável dizer que a vida é interação. Seremos lançados no decorrer dela em um mar de experiências compartilhadas. Seremos testados inúmeras vezes ao nos depararmos com questões que colocarão em xeque nossos valores e nosso amor próprio.

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Se não nos olharmos demorado e soubermos realmente quem somos, podemos nos perder irremediavelmente. O caminho interior, a reflexão sobre nós, é importante, pois nos tornará capazes de resguardar o melhor de nós mundo afora.

Há algum tempo assisti ao filme “3096 dias” baseado na história real de Natascha Kampusch, uma garota austríaca raptada e mantida em cativeiro por quase dez anos.

Sua própria mãe desistiu de procurar por ela em um tempo relativamente curto após seu desaparecimento. Seu algoz tentou fazê-la esquecer de seu nome, de quem era, e afirmava frequentemente que ninguém buscava por ela ou gostava dela, contudo Natascha conseguia se lembrar de sua essência e aproveitou todas as poucas oportunidades que teve para eloquente proclamar seu nome verdadeiro.

Felizmente ela conseguiu escapar e sobreviveu para contar tudo em uma autobiografia que virou filme.

Por outro lado houve nos EUA um caso similar no qual uma jovem foi raptada e permaneceu em cativeiro por dezoito anos. No início ela era trancafiada, mas nos últimos anos morava no quintal do sequestrador, de onde nunca teve coragem de escapar.

Quando a polícia descobriu, por acaso, quem ela era e a levou para a delegacia Jaycee Dugard afirmava inúmeras vezes ser outra pessoa e ditava sempre aos agentes o nome falso que lhe foi dado pelo sequestrador.

Esses dois últimos exemplos são bastante fortes e apesar de semelhantes, distintos. Ambos delineiam de forma precisa a importância de nos lembrarmos. De sabermos precisamente quem somos. Jaycee teve muita sorte, pois não foi dela o primeiro passo para sair do cárcere.

Essas duas jovens, Natascha e Jaycee passaram por situações limites, que felizmente fogem à regra, contudo relações abusivas podem permear a vida de muitos de nós, em maior e menor grau e, permitir que continuem tem a ver com o que sabemos sobre nós.

Em um texto anterior falei um pouco sobre o livro escrito pelo neurologista Oliver Sacks intitulado “Tempo de Despertar”.

No livro existem muitas revelações interessantes, contudo uma me chamou a atenção: o sucesso da administração do medicamento Levadopa em pacientes acometidos pela encefalite letárgica tinha muito a ver com as relações afetivas estabelecidas por eles. Em um caso em particular uma mãe alegou que o médico tinha transformado seu filho em um monstro, pois o filho sempre fora obediente e depois da medicação se tornou intempestivo.

Na verdade o filho deixara de obedecer aos desejos da mãe e a destronou de sua posição de mártir, algo que a deixou muito descontente. E esse descontentamento alongou-se a ponto do filho não melhorar para não contestar a progenitora.

Houve ai uma escolha, inconsciente talvez, pela vontade do outro, o que fez o paciente falecer pouco tempo depois.

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Sozinhos somos nossa essência mais pura, mas em grupo, em uma célula familiar, junto de amigos ou do par amoroso, quem somos? Qual papel nos cabe além do de nós mesmos frente a essas interações tão simples e tão complexas ao mesmo tempo?

Inevitavelmente seremos transformados pela interação. Compartilharemos experiências, ensinaremos e aprenderemos muito. Contudo não sairemos secos após um banho de mar. Nem mesmo devemos ansiar por isso. A questão não é não se deixar molhar, mas sim não se deixar arrastar pela correnteza.

Muitos lhe dirão inúmeras coisas sobre o que pensam acerca de você, sobre como deve levar a própria vida, contudo essas impressões não são suas, resista ao impulso de se apoderar delas.

Se você fizer um teste pedindo à algumas pessoas lhe deem cinco adjetivos notará que será para cada uma delas diferente. Elas lhe dirão o que você é de acordo com seus próprios preceitos.

Depois dessa breve pesquisa você com certeza ficará com uma lista extensa de adjetivos nas mãos e completamente perdido (tomando para si impressões erradas) se não tiver um dia olhado demoradamente para si.

Se você nunca tiver se proposto a desbravar o caminho do autoconhecimento, perderá o chão ao ser confrontado por mentiras miúdas.

Sentir-se-á pequeno se não souber que existe muito além de um nome e uma pupila dilatada em sua imagem refletida.

E certamente irá se desequilibrar e até mesmo sucumbir se acreditar em vozes que não representam a sua.

Muitas vezes agimos de forma temerosa acerca de nossas vontades, contudo o autoconhecimento nos é essencial para determinar quais lutas devemos travar por nós mesmos.

Em diversos momentos parece mais fácil desistir, inventar desculpas e impossibilidades, mas quando esse impulso surgir corra para o espelho e olhe-se com sinceridade. Dê uma chance para que a pessoa do lado de lá encontre a do lado de cá. Sejam cúmplices e confidentes, tenham carinho, respeito e amor uma pela outra. Dê o primeiro passo para que isso aconteça e pergunte-se com ternura: Quem é você?

Depois disso você será inegavelmente levado à ação e sentar-se frente à vida e vê-la passar à vontade de outros não será mais possível. Você terá encontrado a si e nessa simbiose de você com você mesmo existirá um espaço cativo para o respeito e nada e ninguém poderá tirá-lo de você. O amor próprio brotará de todos os teus poros e as palavras cheias de verdade transbordarão da sua boca.

Saber quem somos torna possível pular do existir para o viver, afinal o que existe pode delegar, mas o que vive não, viver exige escolher intencionalmente, demanda saber enxergar e ouvir o que de mais verdadeiro existe em nós.

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