Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

Tempo de Despertar

Como seria viver congelado no tempo como se os anos passassem sem que fossem captados pela percepção? Seria possível um despertar súbito após longas décadas de paralisia? O mundo deixado seria mais confortador que o do presente? De onde tiraríamos forças para lutar por nós mesmos?


qbHJsDJLyPfBLkHfdsNTWvSirv8.jpgCena do Filme "Tempo de Despertar" com Robin Williams como Dr. Sacks e Robert de Niro como Leonard L.

Todos nós temos uma ideia clara de em que ponto do tempo estamos. Tomamos uma medida linear como certa e nela caminhamos de forma ordenada, contando os anos e os dividindo em meses, dias, horas, minutos e segundos. Temos algumas certezas, dentre as quais que todos envelheceremos de forma mais ou menos gradual. Será que é isso mesmo?

Em 1966 o médico neurologista e químico amador Oliver Sacks foi contratado pelo Hospital Psiquiátrico Mount Carmel, nos Estados Unidos. Nesse hospital ele teve contato com um grupo de pacientes que por muitos anos se encontrava em estado catatônico. Ao contrário da enormidade de médicos que fogem de hospitais psiquiátricos, Sacks conseguiu enxergar nesse novo ambiente um local rico para o aprendizado profundo da natureza mental humana e, dotado de imensa empatia, enxergou esses pacientes de uma forma mais ampla: apesar de inertes, em particular pareciam dotados de uma inteligência velada, como se estivessem aprisionados em um corpo apático.

Antes catalogados como doentes mentais cujas habilidades estavam irremediavelmente comprometidas, o neurologista conseguiu encontrar um ponto comum em muitos deles: tinham sido vítimas de uma epidemia pós-guerra, que matara muitos e paralisara tantos outros.

Awakenings 1.jpgRobin Williams interpreta Dr. Sacks em "Tempo de Despertar"

Citando um pouco o fator histórico para que entendamos melhor essa estranha enfermidade, no final da primeira guerra mundial se alastrou pela Europa e EUA uma epidemia de encefalite letárgica, conhecida como “doença do sono”. Ninguém nunca soube precisar ao certo a origem da doença, provavelmente um vírus, e como se alastrou, contudo, muitos pacientes apresentaram no momento do contágio sintomas diversos acompanhados de muita sonolência, e posteriormente, muitas vezes anos após esses primeiros sintomas e tendo vivido uma vida normal dentro desse período, perderam as funções de forma a ficarem catatônicos, como se estivessem em sono profundo.

Muitos sobreviventes dessa epidemia foram colocados em hospitais psiquiátricos e por lá ficaram por décadas, como seres esquecidos, que precisavam apenas de água e comida.

No ano de 1969, quando a Levadopa, uma droga experimental, passou a ser um pouco mais em conta, Sacks e sua equipe passou a ministrá-la a esse grupo de pacientes. Paralisados desde a década de 20 (ou até mesmo antes) e, em grande parte, tendo sido atingidos pela moléstia ainda na juventude, muitos voltaram à vida de súbito, como se estivessem apenas adormecidos.

Se fizermos um rápido cálculo em fins da década de 60 muitos completavam quase cinqüenta anos de paralisia. Extremamente rígidos e enervados, sentados em cadeiras de roda por décadas, após a medicação, muitos foram encontrados de pé, andando por seus quartos, sem qualquer fadiga muscular. Tinham voltado à vida quase que milagrosamente.

Awakenings Robin Williams and Robert De Niro Ouija board.pngDr. Malcolm Sayer e Leonard L. conversam através de um tabuleiro alfabético no filme de 1990 "Tempo de Despertar"

Outra curiosidade sobre esses pacientes acometidos por encefalite letárgica é que muitos não envelheciam. Em um trecho do livro “Tempo de Despertar” escrito por Sacks em 1973 ele relata que quando chegou ao hospital, ao visitar uma ala, uma enfermeira que trabalhava no hospital há trinta anos lhe confidenciou sobre uma paciente: “É incrível, essa mulher não envelheceu um único dia nos trinta anos que a conheço. O resto de nós envelhece – mas Rose é a mesma”. Aos 61 anos, parecia trinta anos mais nova. E era assim com grande parte dos pacientes acometidos por esse mal.

O livro “Tempo de Despertar” escrito pelo neurologista é bastante denso e minucioso ao descrever suas personagens, personagens reais retratadas por meio de uma escrita detalhada. São mais de 400 páginas de muita informação médica e filosófica que invariavelmente nos incita à reflexão.

Muitos dos pacientes despertaram falando com desenvoltura e se referiam às pessoas que viveram na década de 20, como se eles ainda estivessem nesse período.

Indagada sobre em que ano estava, Rose disse: “Eu sei a data de Pearl Habor. Sei a data do assassinato de Kennedy. Registrei tudo – mas nada disso parece real. Eu sei que estamos em 1969, sei que tenho 64 anos, mas sinto que é 1926 e sinto que tenho 21 anos”.

Vários desses pacientes relataram ter uma sensação de passagem de tempo completamente diferente da nossa. Certa vez Sacks indagou um deles sobre a razão de antes da Levadopa ficar imóvel quase que durante todo o dia, contudo ser visto por vezes em meio a um movimento congelado, como se uma mão, por exemplo, fosse em direção ao nariz com extrema lentidão. O homem afirmou que para ele aquele movimento (de coçar o nariz) durava um segundo e não 24 horas como havia relatado o médico.

Outra questão bastante importante abordada pelo livro é a de que estranhamente existem familiares que se adéquam de tal forma à enfermidade de um ente querido, que frente a uma cura milagrosa ou melhora repentina, ficam desorientados. Essa desorientação chega quase à revolta, pois a cura livrou-os da utilidade.

TO 10 - FILMES DE ROBIN WILLIAMS -TEMPO DE DESPERTAR.jpgDr. Sayer e Leonard L. conversam sobre a importância da vida no filme "Tempo de Despertar"

Assim aconteceu com a mãe de dois pacientes, uma de certa forma sádica, pois aproveitava da imobilidade da filha para impor-lhe suas vontades e gerar desconfortos. De tal forma que quando despertada a filha pediu ao neurologista que casasse com ela e que nunca mais deixasse a mãe chegar perto dela. A recusa do médico a fez cair novamente em sono profundo.

O outro caso é o da mãe do paciente Leonard L. que após a Levadopa viu os pensamentos do filho migrarem dela para outras mulheres, o que lhe conferiu um extremo ressentimento.

Leonard foi para Sacks o paciente mais brilhante. Mesmo já acometido pela letargia conseguiu se formar em Harvard, quando aos vinte e poucos anos tornou-se impossibilitado. Contudo amante da leitura o fazia mesmo em estado de paralisia. Conseguia se comunicar através de um tabuleiro e foi capaz de expressar com maior precisão como era viver naquele estado de torpor.

Quando despertado ficou maravilhado com o mundo, caminhando pelos jardins do hospital, cheirando rosas e acariciando suas pétalas.

Assistam a um trecho do filme "Tempo de Despertar" no qual Leonard L. (Robert de Niro) liga para Dr. Sayer (Robin Williams) empolgado pela graça de estar vivo aqui.

Infelizmente a Levadopa com o tempo foi perdendo gradativamente a eficácia e não mais apresentou os efeitos significativos, quase milagrosos, vistos em 1969. Em alguns casos ela teve que deixar de ser ministrada por causa dos efeitos colaterais, em outros continuou a ser tomada, contudo sem o mesmo efeito.

13655-MLB236700918_5497-F.jpgEncarte do filme "Tempo de Despertar" lançado em 1990

Durante os relatos de Sacks fica muito claro que fatores emocionais, ou seja, relações humanas foram cruciais para determinar o maior ou menor sucesso da medicação nos pacientes. Muitos se agarraram ternamente aos que lhes eram queridos: pais, irmãos e filhos. Outros se entregaram desalentados ao perceberem que não tinha restado ninguém.

As relações humanas foram o bote salva-vidas que determinaram a vitória de muitos frente a essa doença tão singular. Talvez seja pela razão de que após décadas de sono seja valiosa a lembrança de um outro sobre o melhor de nós.

Inúmeros pacientes com tremores severos durante uma visita não os apresentavam mais. Muitas vezes paralisados em meio a um movimento, quando ajudados por alguém conseguiam se movimentar sozinhos. Isso se dava, de acordo com o relato de uma paciente, por serem capazes de captar uma intenção, um fluxo de energia.

O livro de Sacks foi um sucesso e inspirado nele foram escritas inúmeras peças de teatro (e de rádio também) e em 1990 um filme de Penny Marshall com o mesmo nome do livro “Tempo de Despertar” foi lançado tendo Robert de Niro como Leonard L. e Robin Williams como Dr. Sacks.

O filme é muito rico e cativante. Foi muito bem aceito pela crítica, teve várias indicações ao Oscar e certamente agradará a todos que gostam de uma boa história destilada por um enredo enxuto e muito bem escrito.

awakenings 5 stars phistars worthy robert willians robert de niro.jpgAssim como no filme Dr. Sacks recebia em seu lar visitas de pacientes do hospital

No filme existe muito do livro, contudo a libido exacerbada de Leonard L. é transmutada em um romance com uma jovem visitante no filme. Naquela época o hospital recriminou a forma como esse paciente lidou com sua libido e assim como no filme o confinou em uma cela.

No livro há um capítulo final no qual o neurologista nos conta pormenores dos bastidores da filmagem. Sacks tece muitos elogios a Robert de Niro, chamando-o carinhosamente de Bob e descreve as diferenças entre ele e Robin na composição de suas personagens. Enquanto Robin assimilava muito por mimetismo, Robert ao ter contato com pacientes portadores de letargia os olhava com profundidade e em silêncio, tendo sido descrito por eles como um homem de olhar extremamente profundo, como se ele pudesse enxergá-los de dentro para fora.

Ambos os atores fizeram atuações exemplares, incorporando inúmeros fragmentos ao próprio eu (como Robin) ou esquecendo-se de si e adotando uma persona bastante verossímil (como Robert).

O livro e o filme são inspiradores e bastante reflexivos. No filme há muito de uma lição moral sobre aproveitar a vida e enxergar nela a beleza que muitas vezes se perde frente às dificuldades. O livro acaba tecendo uma mensagem semelhante, ao nos mostrar como somos fortes ao lutar por nós quando temos uma razão para isso, e quanto é determinante os vínculos verdadeiros que nos envolvem com ternura.

Oliver-Sacks-009.jpgFoto de Dr. Sacks lendo um de seus livros. Infelizmente o médico foi acometido por um câncer terminal em 2015

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