Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

Sobre Peixes e Vínculos

“Na época a gente tinha chegado à conclusão, eu e a minha terapeuta, que o meu problema era um problema de vínculo, ai um dia me disseram que animal de estimação ajuda a gente a estabelecer esse tal de vínculo e tal... a ser mais afetivo. Daí eu comprei um peixe. Quando eu falei isso para minha terapeuta ela levantou uma sobrancelha mais alta que a outra e falou assim: Ah você comprou um peixe!? Eu falei: Comprei. Quantos peixes? Um peixe, um peixe Betta... sozinho em um aquário. Ela riu, e eu sei lá o porquê”.
(Trecho do Curta “Eu Te Darei o Céu” )


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Quando assisti à cena inicial do curta nacional “Eu Te Darei o Céu” algo acendeu em mim. A protagonista, uma mulher de 38 anos, tinha problemas com vínculos, em suma ela não conseguia criar laços afetivos, e para acabar com a solidão, decidiu comprar um único peixe Betta.

Ela se importava em dar fim a sua solidão, contudo não ligava em estender esse sentimento ao outro. Muitas vezes acreditamos que podemos circular no mundo como células independentes, como se nossas ações pudessem ser fragmentadas. A solidão do peixe era a do outro e na cabeça da protagonista essa solidão não tinha nada a ver com o fato dela estar desesperadamente solteira.

Enfim, no curta ela só conseguiu criar o tal vínculo quando, por acidente, acabou algemada a um jovem contratado pelas amigas para dar fim a sua solidão. O peixe não foi suficiente, acredito que até mesmo tenha alargado esse sentimento.

Muitas vezes é preciso apenas dar-se o direito de estar. De permanecer. De ficar. De levantar a cabeça e observar. Dar-se o prazer de uma boa conversa, seja lá onde for, sem preconceitos, afinal não existe hora e lugar para ser o que você é. A hora é agora e o lugar é esse.

Ouço muita gente falando milhares de coisas sobre onde conhecer (ou não conhecer) a pessoa da vida, como se houvesse em nós um botão para ligar e desligar emoções. Uns falam que no trabalho não devemos nos estender de forma a tocar o outro e conhecê-lo melhor. Existe até mesmo o velho “onde se ganha o pão não se come a carne”. Ou ainda aquele “amor de verão não sobe a serra”. Há ainda os que repudiam as “baladas” como se fossem o inferno na terra, mas inacreditavelmente esses são espaços libertários em se tratando de conhecer o outro.

Hoje parece que sistematizaram o mundo e criaram normas para tudo. Faça assim, fale isso, esconda aquilo, se porte dessa forma e por ai vai. Felizmente existem sentimentos envolvidos em tudo na vida e apesar do sistema tentar sugá-los de você, não caia nessa de achar que existe hora e lugar para cada coisa.

Não caia nessa de acreditar que um animal sublimará sua solidão e magicamente ensinará sobre interação e vínculo. Hoje em dia as coisas andam rápido demais e um animal é um ser e não uma coisa com uma finalidade e o vínculo, ah o vínculo, só acontece com tempo, esforço, atenção, intenção e carinho.

O vínculo nasce da empatia e do comprometimento. Do sentimento sincero de cuidar. Nasce das horas de dedicação. Dos momentos de conversas. Da aceitação e disposição. Nasce quando nos permitimos ser, estar e sentir. Quando damos ao coração a chance de bater acelerado.

Desajeitadamente o peixe, mais especificamente o Betta, parece ser a representação dos tempos de hoje. Ele não precisa de espaço, não precisa nem de bomba de oxigênio, é fácil de alimentar, pois come comida processada, e o vendem como um bicho que vive feliz sozinho. Parece que o homem moderno se identifica com ele e ele parece perfeito no quesito “autossuficiência”. Resumidamente ele não dá trabalho, mas minha gente sem esse tal “trabalho” - palavra que resume apreço, cuidado, empatia, atenção - não existe vínculo!

É hora de subverter a forma como lidamos com a vida. É hora de tirar a cabeça para fora do “betário” no qual nos enfiamos e descobrir que podemos viver felizes juntos, sem nos digladiar como um peixe guerreiro! É hora de permitir-se, de interagir, de se deixar fundir, de ser sem preconceito tudo que podemos ser. Daí vem o vínculo e tudo mais que torna a vida muito mais interessante. Não esperemos até que alguém perca a chave de alguma algema para compreendermos a delícia que é permanecer junto!

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