Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

Palavras de uma balzaquiana a um jovem

"A juventude é um tempo extraordinário em que as pessoas desconhecem que estão verdadeiramente a viver. Só com o passar dos anos é que nos apercebemos dos momentos extraordinários já vividos". (Manoel de Oliveira)


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Existem pessoas pelas quais passamos todos os dias, nas quais esbarramos sem querer e que nunca terão sequer a oportunidade de nos darem seus nomes. Luan é uma delas.

Eu o nomeei assim por ele parecer muito com um jovem cantor brasileiro. Dessa forma não importa se seu nome é Roberval ou Adolfo, na minha cabeça ele se chama Luan.

Então, quando vou à padaria, na qual trabalha como caixa, eu o cumprimento gentilmente e me pergunto se apenas eu na minha loucura achei semelhança entre ele e o cantor. Acho que não terei uma resposta para essa pergunta.

E nesses dias eu me lembrei da moça da feira, a moça da barraca de ovos. Ela e a mãe trabalham juntas por lá. A matriarca sempre se põe ao fundo da banca deixando-a bem à frente atendendo os compradores.

Às vezes fico imaginando se ela faz isso por saber da beleza da filha, uma beleza que certamente a moça herdou dela, haja visto que mesmo com a diferença de idade elas se parecem demais.

Então a moça da feira atende a todos com um sorriso expansivo e quase sempre carrega os belos seios emoldurados por uma regata justa. Os cabelos são loiros e escorridos e os olhos de um azul límpido, como um lindo céu sem nuvens. Quando compramos os ovos, ela agradece, sorri e ao se esquivar das bandeirinhas de preços, se debruça fazendo certamente muitos compradores retornarem à barraca semanalmente. Não acredito que o seu debruçar seja propositalmente insinuante, mas declara nitidamente sua beleza escultural.

Dessa forma, não demorou muito para que na minha cabeça Luan encontrasse a moça dos ovos. E eu me peguei pensando em como seria esse encontro. Ele tímido até os ossos, com todas as unhas roídas e ela livre, bonita, sedutora e decidida. Acho que Luan seria engolido por ela. Mas, em contrapartida, acredito que não seria mau para ele, afinal muitos rapazes em tenra idade adorariam ser engolidos por uma deusa de seios belos e face de anjo.

Se eu pudesse me sentar com Luan, aconselhando-o hipoteticamente como uma amiga, eu diria para que ele ficasse atento ao que ele é hoje. Jovem, bonito e alguém extremamente sensível. Isso eu também já percebi, contudo pediria para ele dar um chega pra lá na insegurança, aquela insegurança que nos persegue na juventude e que fica buzinando em nossos ouvidos que não somos ainda o bastante para chegar exatamente onde queremos. E se o foco de Luan fosse a deusa da feira, eu diria “Vai Luan, vai sem medo”.

Acredito que hoje devo ter o dobro da idade de Luan e uma dezena de anos a mais que a moça dos ovos. E só quando damos largas passadas à frente percebemos o valor do tempo e quão importante é tentar. Por mais que a vergonha doa, por mais que o receio nos cutuque, tentar é de uma importância que nos foge quando ainda acreditamos que nunca iremos envelhecer e que existirá um tempo exato para tudo na vida.

Luan e a moça dos ovos são lindos em muitos aspectos. Eles têm muitos predicativos, muitos que eu mesma desconheço, contudo um deles lhes é inerente e brilha aos olhos de todos. A juventude. Eu particularmente acredito que todo jovem é bonito. Que todo jovem carrega uma doçura trazida na mochila lá da infância, todo jovem possui um poder infindável de acreditar no melhor dos outros, contudo é também inerente à juventude achar que coisas maravilhosas acontecerão em um futuro longínquo.

O melhor está acontecendo agora Luan! Você não vê? Amanhã a moça dos ovos pode não estar mais lá, amanhã a feira pode ter mudado de bairro. O melhor Luan é para hoje e não deixe que a vida lhe diga que você precisa de uma faculdade, de um mestrado, de um doutorado para ser quem deseja ser, para ter o que deseja ter.

Quando somos jovens carregamos um idealismo avassalador nos bolsos. Somos capazes de mover montanhas por uma causa. Contudo sempre existem vozes que insistem que busquemos a sensatez. Que busquemos o que nos falta para ser o que queremos ser.

Ouça Luan, não te falta nada! Eu que já dei uns pulinhos à frente estou aqui para desmentir as mentiras que te contaram. E se alguns julgam a juventude inapropriada pela falta de conhecimento, eu lhe digo, muitos passaram por esse caminho e se esqueceram de aprender, ou pior, aprenderam errado e acham que esse errado deve ser seguido como certo.

Quando somos jovens temos medo de dizer “Olhe, eu não sei ainda como expressar tudo que está se passando aqui dentro”. Temos receio que esse não saber possa nos atrapalhar, possa denunciar que ainda somos aprendizes em muitas questões. Mas Luan eu te digo, há mais beleza no aprender do que você pode sequer imaginar!

Quando olho para você, o leio como um livro belo, de capa elaborada, com alguns rascunhos dispersos em cantos e muitas páginas em branco a serem preenchidas. A moça dos ovos já começou a escrever a história dela. Não deixe que outros lhe tomem a caneta das mãos, essa história é sua. Só você pode escrevê-la. E eu aqui estou para te dizer que a despeito de tudo que acha a respeito de si, eu sei que você pode muito, basta acreditar.

Então amanhã, quando eu pisar lá na padaria, e passar por você carregando nas mãos o pão da tarde, te direi obrigada ao receber o troco e guardarei para mim o que sei sobre você. Em silêncio te desejarei as melhores escolhas, te desejarei a verdade para agora, te desejarei um amor vibrante e possível com uma mulher inesquecível.

E se eu for ousada, até mesmo te direi: Vá mais à feira. Ande por lá todos os sábados e deixe de lado o celular e todas essas bugigangas tecnológicas que podem fazê-lo não ver que, por detrás das bandeirinhas de preços, estão dois olhos azuis de beleza sem fim, um sorriso encorajador e um corpo que certamente te fará perder muitas noites de sono. Boa sorte Luan!

(Imagem meramente ilustrativa)

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