Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é escritora e autora desse e de outros textos que podem ser lidos em sua página no Facebook. Ela espera todos vocês por lá (www.facebook.com/vanellidoratioto)

Quando o Amor Vence a Guerra

Esse texto trata da história, baseada em fatos reais, de duas pessoas que tiveram as vidas para sempre modificadas pelo amor e pela guerra. As confissões que serviram de base para a composição desse texto foram retiradas do livro “Mil Dias Na Toscana” de Marlena de Blasi. O texto nasceu de minha inspiração pelas palavras de Barlozzo acerca de sua mãe durante a segunda grande guerra e apesar de sua história ter sido citada de forma breve, a mulher e o soldado teceram em mim o enredo para as linhas que aqui se seguem.


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A guerra na terra não é a guerra do coração dos homens. Quanto maior a dor, mais o coração apertado enxerga a possibilidade de se dar por completo. Não existe um lado vencedor. Ninguém vence na guerra. Se todos pudéssemos optar, não optaríamos pelo ódio, optaríamos pelo amor.

Não importa quantas bombas se lancem sobre nossas cabeças, os estrondos nos chamam para o presente e nele sozinhos nada somos, as bombas nos lembram de puxarmos as mãos dos que estão ao lado, como iguais.

Quando uma camponesa italiana, sozinha com um filho adolescente, abre a porta e encontra na soleira um soldado alemão que deixou a guerra para trás, que cansou de lutar por vontades que nunca foram suas, não se encontram ali uma camponesa e um soldado, mas um homem e uma mulher.

Todas as impossibilidades, todas as hostilidades se dissolvem em um sorriso e em um pedido de socorro, um socorro que revela com sutileza que ele sabe que sua vida não vai durar muito. Quem pode culpá-los? Quem pode condenar a mulher pelo copo de água, pela comida rasa no prato arranhado, por não querer que o soldado parta para morrer longe de tudo que é?

Abre a camponesa a porta da sua morada para o amor, para um homem que não quer mais matar. Para um homem que sabe que será a última vez em que experimentará o melhor de si antes de partir.

Coloca a arma no chão, junto da mochila surrada e se desculpa pela lama nas botas. Elas sujaram o chão varrido há pouco. Ela lhe diz que não se importa com a lama e com as botas sujas. Pede-lhe o uniforme para que o lave. Vai até o quarto e busca por roupas do marido que está na guerra em algum lugar distante, mas mesmo quando em sua companhia já parecia distante a quilômetros. Lembrou-se que ele sempre fazia questão de passar a mão pelos cabelos dela e de lembrá-la que ela lhe devia, que ele lhe dera casa quando ninguém mais o faria. Afinal, quem tomaria como esposa uma mulher que carregava o filho de outro na barriga?

Ela dá a roupa ao jovem. Ele a veste no quarto e quando de lá sai o filho se assusta, pois não é o “pai”, mas um outro mais bonito. O soldado lhe pede que não diga a ninguém sobre sua estadia. Que ficará apenas até a farda secar. E ela lavada com sabão de banha e pendurada sobre o fogareiro da cozinha se resseca não por um dia, mas por mais tempo.

Ele finge esquecer que precisa voltar para a guerra, para se entregar rendido. Ele finge esquecer a dor de ter ouvido os mandos de um homem sedento por poder. Tomar a farda de novo é saber que partirá para o mundo. Que enfrentará apenas com o coração um mar de armas voltadas para si.

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A mulher o deixa dormir em seu quarto, no chão, aos pés de sua cama e pede que não se aproxime. Ele assente, mas sabe que o pedido para o não é na verdade uma suplica pelo sim.

Assim a noite, quando embevecidos pelo sono somos o que queremos ser, ele se levanta e se aproxima dela. Ele presta atenção na beleza da mulher contornando as curvas do rosto dela com o olhar, e não pode deixar de pensar como um sono pode ser tão doce mesmo ante a escassez de tantas coisas que a guerra traz. Mas a guerra não consegue furtar o amor. Ele se intensifica no presente. O amor se alimenta da natureza humana e só acaba em nós quando damos o último arfar.

O homem se ajoelha e toca com o polegar o cacho do cabelo que se alonga pelo rosto dela. Ela sorri, pois sonha com o soldado que longe da guerra pode amá-la com sinceridade e não na obrigação de algum acordo.

Ele toca de leve os lábios dela, abrindo-os mansamente e desperta os olhos dela para si. Olhos nos olhos, azuis e verdes se tocam em um silêncio longo que diz de toda a vida que viveram até aquele momento. Ela não volta a fechar os olhos, ela os mantém nos deles. Os olhos dele são lindos e lembram os dias frios de outono na Toscana. Os dela parecem macios e convidativos.

Suas bocas se tocam e ele se acomoda junto dela na cama agora pequena. Ela ensaia um riso tímido, pois gosta do contato do seu corpo no dele e do gosto de amêndoas torradas que exala da boca macia e quente daquele homem. Ele passa as mãos pelo corpo dela, percorre cada centímetro de uma pele que há muito não se via carinhosamente tocada. Talvez seja a primeira e a última vez que se tenham. Ele não lhe deve nada, ela não é obrigada, mas o deseja como nunca desejou alguém antes.

Ela entende de súbito que tudo que tinha vivido era muito pouco perto do que sentia naquele momento. Ela se desnuda de suas roupas e de todas as suas vergonhas. Ele fala algo em alemão, ela não entende as palavras, ela lê o sentido dos gestos. Um silêncio terno os envolve até ele tocar carinhoso os seios dela. Dessa vez não seria ela a se esgotar, ele se findaria nela e não fecharia os olhos em momento algum. Ele não queria perdê-la de vista. Ele queria ter para si cada arfar, cada gesto, cada movimento cauteloso ou frenético que o corpo dela produzisse ao toque seu. As mãos dele eram lindas, os ombros dela macios. Os corpos se encaixavam tão bem. Eram humanos inundados por um doce êxtase, um enlevo carinhoso, sublime e provocativo.

Era o amor vencendo a guerra, dizendo que as diferenças foram inventadas pela ganância de homens sem valores.

O dia amanheceu sereno. Uma névoa calma desceu sobre os campos secos. Ele ficaria mais um dia. Depois deixaria a casa. Era muito arriscado para todos que continuasse ali. Se o descobrissem, a mulher e o menino pagariam pelo seu ímpeto. Se pudesse os levaria consigo, mas estava em terras estrangeiras e não tinha ninguém que o pudesse acobertar.

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Só arriscou bater à porta porque observou a casa antes, quando dormiu entre as oliveiras, e percebeu que poderia ser aceito sem levar uma bala na cara. Ele a viu estendendo roupa com um cesto apoiado nos quadris. Ela tinha um lindo lenço de renda na cabeça, mas diferente de quando o tocou com as vistas pela primeira vez, ela não sorria. Parecia preocupada e pesarosa, como se tivesse aceitado a sentença de uma vida que nunca desejara.

Naquele dia os dois saíram para os campos em busca de comida. Cataram castanhas do chão, tantas quando puderam encontrar e ao retornar ela as preparou com um ovo de faisão angariado pelo filho em algum celeiro esquecido. As cascas das castanhas foram moídas e em breve com um pouco de água virariam massa para um pão tão duro quanto madeira, mas saboroso e precioso para quem não comia bem há tempos. Ela assaria o pão a tempo de entregá-lo ao alemão antes de sua partida. E vendo os dois juntos, o filho pensou consigo que nunca vira a mãe tão feliz.

E de noite, antes que se deitassem pela última vez, ele estendeu a mão a ela e puxou-a para si em uma dança silenciosa e dolorida, que dizia da separação irremediavelmente anunciada. Ela apoiou a cabeça sobre os ombros do homem e deixou seus olhos se encherem de lágrimas. Naquela noite não fizeram amor, dormiram abraçados em um abraço apertado, quase sufocante e quando na manhã seguinte ele apareceu na soleira da porta do quarto, de uniforme, ela tapou os lábios para que deles não saísse um pedido desesperado. Mas ele não podia ficar, todos sabiam disso. Então o soldado a abraçou e beijou com ternura, sem pressa, e lhe disse que tinha visto o pão embalado em um pano cuidadosamente amarrado sobre a mesa da cozinha. Disse que estava tudo bem e rezou para que no fundo estivesse dizendo a verdade.

Ela sabia que nada estava bem, pois no instante em que ele passasse pela porta da frente e não mais voltasse sabia que seu peito queimaria feito brasa. Ela rezou para que ele não morresse, mas esqueceu de rezar por si.

E na partida, ele abraçou-a com a alma. Juntou o peito contra o dela fazendo-a se sentir acolhida na mansidão do amor que cabia dentro daquele homem. Ela chorou sem querer e ele no ouvido pronunciou o nome dela, silaba por silaba. E partiu sem olhar para trás.

Antes do fim da guerra o marido voltou, mas ela já não vivia. O sofrimento era largo em seu peito e a camponesa resolveu que era hora de também se entregar rendida. Um dia, sentou-se ao lado do marido na mesa da cozinha e contou-lhe do amor, disse do alemão que não lhe saia da cabeça e do coração. Estava feito. Ela deitaria para não mais acordar. Tinha decretado silenciosa sua sentença. Ela sabia que ele não a perdoaria. E ele não perdoou.

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(Imagens Meramente Ilustrativas)


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