além de sons e letras

música, histórias e literatura

Camila Bertelli

Respirando música, literatura e café, se arrisca a escrever para espantar o que há de ruim e eternizar o que ama. Tem os pés sempre prontos para a estrada e a cabeça quase sempre na lua

Quantas Camilas além da canção?

De clássico do rock nacional a tema de artigo científico sobre a violência contra a mulher, a música escrita por um integrante da banda gaúcha Nenhum de Nós e eternizada nos anos 80, é um exemplo de como um tema importante pode ser trazido à tona através de manifestações artísticas para discutir e, por que não, para alertar. “Camila Camila” é um grito que nos pega pelos ouvidos.


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Um signo para o sofrimento da mulher que tem seus direitos violados, mas que por anos seguiu em silêncio, ainda que musicado em versos fortes; um sussurro em busca de solução; uma espécie de denúncia em forma de arte e som — é o que se percebe na canção inspirada em um garota que sofria com a violência do namorado, amiga da banda Nenhum de Nós, no então ano de 1985. O fato causou revolta entre os integrantes, que refletiram e tornaram público um problema constante e urgente.

A MUSA DO NENHUM DE NÓS

O nome Camila, escolhido para camuflar a identidade da garota, soa leve, simples e de fácil pronúncia, tomando conta de todo o refrão, repetido três vezes, como uma tentativa de despertar sua musa do ódio em que vive,carrega toda a simbologia de um dos hits mais tocados no plano do rock nacional dos anos 80. Buscando a definição do substantivo, numa pesquisa etimológica aprofundada, é possível descobri-lo com o sentido de “menina de nascimento livre e nobre”, filha da rainha Casmila, morta em batalha, e que após a morte da mãe, é consagrada pelo pai à deusa Diana, sua protetora e deusa virgem dos bosques , tornando-se então uma guerreira intocável. Assim, o autor da letra acaba por batizar, sem saber, a sua obra como uma recado de força às mulheres. Na Eneida de Vírgílio, uma das personagens é Camilla, a rainha guerreira dos volscos, povo que combateu a República Romana. Os mitos ao seu redor a descrevem com um poder sobrenatural de correr muito rápido sobre os campos e sobre os mares, sem tocar os pés na água — sugerindo suas origens divinas. Uma reflexão sobre este recorte faz com que o nome de uma música que escancara a realidade das mulheres que sofrem abusos seja ainda mais significativo. Camila: um nome de poder. Uma bandeira

É significativo saber que a musa inspiradora da canção mal sabe que sua história foi impressa em letra e sentimento. A boa notícia é que seu sofrimento teve fim, não por causa da melodia, mas é sabido que hoje a moça se encontra bem longe de seu agressor, de acordo com uma declaração feita pelo autor, o músico Thedy Corrêa, em uma rápida entrevista realizada no programa de Serginho Groisman, em 2011. Segundo ele, a música primeiro foi gravada numa cassete e, mais tarde, descoberta por Cazuza que emprestou a ela suas últimas forças. O cantor, ícone de uma geração, quis gravá-la quando já estava muito debilitado. A partir daí a banda viu uma ponte para o sucesso estrondoso que os aguardava. Muitas Camilas nasceram durante os anos em que figurava entre as mais tocadas das rádios, o som que ficaria marcado para sempre na história do grupo. Mas quantas sofrem ou sofreram algum tipo de violência? É difícil mensurar.

Fundada em 1986, Nenhum de Nós é uma banda do Rio Grande do Sul voltada atualmente ao estilo pop rock, muito apreciado por quem acompanha a trajetória consolidada dos amigos que se conheceram no colégio e, ainda hoje, por um público mais jovem. Utilizada até mesmo como tema de artigo científico*, a criação musical em questão é mais um exemplo de como um tema pode ser trazido a tona para discussões e, por que não, como um alerta — um grito que nos pegue pelos ouvidos de forma sutil e denuncie a violência contra as Camilas com tantos nomes diferentes.

Quando se trata de direitos e suas violações, tanto na música como em outras expressões artísticas, é comum expressar ou reproduzir determinadas situações por meio de indagações dentro de uma linguagem simbólica, algo que ilustre a mensagem que se quer passar com o objetivo de levar à reflexão. As expressões artísticas podem e devem ser utilizadas como ferramentas para trabalhar questões como violência sexual e outros temas importantes relacionados à crianças e adolescentes, de modo que assuntos que, a princípio seriam tratados somente entre duas ou três pessoas dentro de uma sala com uma porta que se fecha ocultando o que não se deve calar ,acabam por chegar ao conhecimento de outros estabelecendo uma conexão com outras pessoas que sofreram os mesmos danos. Fato é que o coletivo é mais forte e que é possível combater, com mais eficiência, quando as mãos estão entrelaçadas.

Devido à um crime bárbaro contra uma menina de apenas oito anos, estuprada e morta carbonizada, foi o criado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. O dia 18 de maio é um dia de luta e é também um dia de — por que não — ouvir o que a arte tem a dizer e de que forma ela pode ajudar quando dá voz a discussões e ações necessárias de combate à violência. Muito antes da criação de um dia específico de reflexão, é importante saber que uma banda de destaque há tanto tempo aborda o problema da violência sexual contra jovens. Existem muitas Camilas, com seus mais diversos nomes, que merecem ser lembradas ou mesmo salvas. E é nesse ponto que a música se faz tão importante não somente como uma bela melodia a ser apreciada ou uma combinação de acordes propícia à dança.

A letra, como acontece com muitas obras, abre margem para outras interpretações como para o fato de que o papel autoritário e violento nem sempre é vivido apenas por um namorado, mas também abrindo o leque para outros casos de urgência . A violência contra aquelas meninas e mulheres que se veem cercadas pelo ódio e pela insanidade de pais, padrastos, primos ou de qualquer pessoa que pense ter o direito de violar sua inocência e liberdade. A composição que marcou o início da trajetória da banda hoje, tradicional, voltou à cena em versão atualizada no ano de 2007 como um retrato da evolução e longevidade do grupo. É uma pena que ela ainda soe tão atual e que muitas guerreiras ainda escondam marcas, com vergonha de encarar qualquer espelho. Quantas Camilas, nesse exato momento, choram esperando amanhecer? É preciso estar atento aos detalhes; é preciso escutar mais que ouvir. É preciso que nenhum de nós fique calado diante da injustiça. É preciso lutar.

Confira a letra:

CAMILA CAMILA

Composição: Carlos Stein / Sady Homrich / Thedy Corrêa.

Depois da última noite de festa Chorando e esperando amanhecer, amanhecer As coisas aconteciam com alguma explicação Com alguma explicação Depois da última noite de chuva Chorando e esperando amanhecer, amanhecer Às vezes peço a ele que vá embora Que vá embora

Camila Camila, Camila

Eu que tenho medo até de suas mãos Mas o ódio cega e você não percebe Mas o ódio cega E eu que tenho medo até do seu olhar Mas o ódio cega e você não percebe Mas o ódio cega

A lembrança do silêncio Daquelas tardes, daquelas tardes Da vergonha do espelho Naquelas marcas, naquelas marcas Havia algo de insano Naqueles olhos, olhos insanos Os olhos que passavam o dia A me vigiar, a me vigiar

Camila Camila, Camila

Camila Camila, Camila

E eu que tinha apenas 17 anos Baixava a minha cabeça pra tudo Era assim que as coisas aconteciam Era assim que eu via tudo acontecer.

É SEMPRE BOM LEMBRAR que desde os anos 80, a música “Camila, Camila” alerta sobre a violência sexual. E é importante saber que ela nos traz aos ouvidos o que muitas vezes se cala. Abaixo, seguem seis canções sobre o tema:

Michael Jackson – “Do you know where your children are” (Xscape, 2014) Em tradução livre “Você sabe onde suas crianças estão?”, a música é faixa do álbum póstumo de Michael e conta a história de uma garota da 12 anos abusada sexualmente pelo pai e que acaba fugindo de casa e sendo obrigada a se prostituir. Como se sabe, Michael já foi acusado de abuso sexual e pedofilia, mas considerado inocente após muitas polêmicas

Alcione -- “Maria da Penha” ( DVD “De tudo que eu gosto” 2007) A canção mostra uma heroína corajosa, que demonstra claramente conhecer seus direitos e que exige ser tratada com respeito e dignidade pelo homem, que, pelo que se pode perceber pela letra, não é mais seu parceiro.

Nirvana – “Polly” (Nevermind, 1991) Acredita-se que o líder da banda, Kurt Cobain, escreveu esta música após ter lido uma notícia de jornal sobre uma jovem de quatorze anos, sequestrada e estuprada pelo criminoso.

MV Bill – “Testemunha Ocular” (EP Vitória pra quem acordou agora e vida longa pra quem nunca dormiu, 2014) A música aborda três assuntos polêmicos em três histórias que se cruzam pela violência presente, sendo a última a narrativa sobre um pedófilo que tenta violentar sua vizinha, uma menina que passava os dias sozinha e cuidava da casa para que os pais pudessem trabalhar.

Titãs – “Pedofilia” (Nheengatu, 2014) A faixa “Pedofilia” do mais recente trabalho do grupo de mais de 30 anos, aborda claramente a cena em que o abusador tenta atrair uma criança oferecendo presentes com várias promessas para conquistar sua confiança. Fonte: Pro menino - Fundação Telefônica.

Referência Bibliográfica: BRANDÃO, Junito. Dicionário Mítico- Etimológico da Mitologia e da Religião Romana. Editora Vozes, 1993.

Foto: Site Oficial Nenhum de Nós


Camila Bertelli

Respirando música, literatura e café, se arrisca a escrever para espantar o que há de ruim e eternizar o que ama. Tem os pés sempre prontos para a estrada e a cabeça quase sempre na lua.
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