além do roteiro

desconstruindo histórias

Yann Rodrigues

Atleta de videogame, admirador de obras mais do que de autores, por vezes coloca as ideias na tela. Colecionando perspectivas da vida no http://alemdoroteiro.com

Spectre - a realidade do promissor filme de James Bond

Trailer e divulgação grandiosos, maior orçamento da história da franquia, elenco com Monica Bellucci e Christoph Waltz, são algumas das promessas de Spectre após o grande sucesso de Skyfall. Será que o filme cumpriu as expectativas?


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O 007 de Daniel Craig teve altos e baixos. Sucesso com Casino Royale. Queda com Quantum of Solace. Sucesso com Skyfall.

A série do Bond loiro apresentava aspectos interessantes frente ao legado das histórias de Ian Flemming: a influência de estilo da trilogia Bourne, com ação mais verossímil, tramas profundas, porém menos megalomaníacas; maior humanidade de Bond, pois os filmes mergulham em suas emoções, seu passado, suas limitações físicas e psicológicas, mostrando além do simples "Bond, James Bond" munido de frases de efeito e utensílios patrocinados; a divulgação de Spectre, apostando em uma quebra de paradigma com a personagem de Monica Belucci - a mais velha "Bond Girl" a se relacionar com um James Bond; as histórias seguiam como continuações, dando vida a uma trama maior do que um único filme - um universo foi criado no entorno do personagem de Daniel Craig.

Ainda havia a esperança de um grande vilão com Christoph Waltz no papel, após as brilhantes atuações de Bastardos Inglórios e Django.

Essas expectativas, contudo, não se concretizam em Spectre.

Spectre não está entre os piores filmes da série, pode-se dizer que é intermediário. Acaba sucumbindo em meio a grandiosidade que persegue. Membros da própria equipe deixaram claro que a pressão gerada por Skyfall - o filme de maior sucesso da história da franquia, arrecadando 1,1 bilhão de dólares - era enorme desde o início das produções do 24º filme de 007. O longa tenta trazer elementos presentes ao longo das 23 histórias anteriores, uma missão ambiciosa. Voltam as referências aos dry martinis, sem abrir mão da cerveja trazida em Skyfall. Voltam os relógios e carrões superpoderosos, com inúmeras utilidades, sem deixar de lado o "mano a mano", em sequências de lutas extremamente complexas como na cena do helicóptero, lembrando a cena do parkour de Casino Royale.

A tentativa de convergir tais elementos é interessante, mas cria certas divisões em cena. Nas lutas do helicóptero ou contra Mr Hinx (Dave Bautista), lidando com seu alcoolismo, apanhando, divagando em memórias, Bond era claramente o personagem de Daniel Craig. Atirando com sua pistola sobre um bote em velocidade, contra um helicóptero preto a centenas de metros de distância, à noite, quem se via na tela era uma mímica dos Bonds de Pierce Brosnan. É um estilo de ação distante da construção de personagens feita na última década.

Bond se tornara, sob a pele de Daniel Craig, o agente capaz de resolver os problemas de forma física e crível. Superando parkour com força bruta, ironizando torturas, levando vilões a cabanas para resolver os problemas cara a cara. Em meio a tudo ele capotava um carro para não atropelar sua paixão, sentia dores, medo, cansaço e se alcoolizava para fugir de emoções. Usava armas pesadas se preciso, mas não era o cara do tiro impossível que salva o mundo. Em Spectre, ele perde parte da humanidade que o aproximava de nós, reles mortais, em Skyfall ou Casino Royale.

Falando em humanidade, o que parecia uma evolução desde Casino Royale contra o típico machismo Bond style, a partir do luto por Vesper (Eva Green) e de relações ricas com M (Judi Dench), Spectre volta ao estilo ultrapassado de um homem incapaz de lidar com mulheres em nível mais profundo do que sexo casual.

spectre6.jpg As conquistas de Bond em Spectre

A expectativa pela presença de Monica Bellucci acaba sendo uma armadilha para o próprio filme. Bond mata seu marido, anda em direção a ela duas ou três vezes, sem sequer usar palavras a maior parte do tempo, e nessa "incrível" técnica sedutora, transa, consegue as informações que precisa, e deixa a viúva que nunca mais será citada. De quebra de paradigma, Lucia Sciarra (a personagem de Monica, cujo nome precisei pesquisar no Google, pela pouca relevância no roteiro) foi transformada no arquétipo da mulher-objeto.

O destino de Madeleine Swann (Léa Seydoux) poderia ser diferente, caso o roteiro mantivesse a determinação inicial da personagem contra os feromônios (devem ser os feromônios...) do espião. Dessa vez, Bond não matou o marido da jovem psiquiatra. "Apenas" provocou, de certa forma, o suicídio de seu pai. Toda a determinação de Madeleine em não ser fisgada por uma paixão desaba após uma luta contra um brutamontes em um trem. De repente ela está perdidamente apaixonada por Bond, e toda sua função se torna a de uma bússola moral - Bond decide continuar em seu trabalho, ou decide viver o amor? A mulher-objeto ataca novamente, como um instrumento para James tomar decisões.

Vale o adendo: nenhuma conexão entre o casal parece justificar que seja ela a pessoa a fazer o personagem de Daniel Craig superar um luto forte o suficiente para perdurar seu 4º filme.

A conexão ausente no casal deveria ser a palavra chave do roteiro. A frase "eu sou o responsável por toda a sua dor" de Franz Oberhauser (Christoph Waltz), presente desde o trailer, é mais uma das promessas ambiciosas do filme. Todos os pontos entre Casino Royale, Quantum of Solace e Skyfall vão se conectar, de quebra nos presenteando com mais sobre o passado de Bond, após a deixa do final de Skyfall.

spectre3.jpg Conectar todos os filmes daria um belo jogo de xadrez

Contudo, o roteiro não conecta, apenas atira. Franz familiar de Bond, o papel da organização Spectre, o alcance de poder do grupo criminoso, foram algumas das informações que, ao invés de justificar o orçamento de 300 milhões de dólares, filme mais caro de toda a franquia, apenas foram expostas, tornadas previsíveis. Acompanhamos um dos melhores agentes secretos da ficção para que 90% das informações relevantes sobre uma organização sejam contadas pelo vilão, quando este quis.

Waltz cumpre seu papel, é verdade. Empresta o carisma de suas atuações brilhantes para o personagem. Mas falar que é o responsável de toda a dor de Bond não basta se todo o roteiro não vender essa ideia, e não vende.

A organização, lendária para a mitologia de 007, e que retorna aos filmes após um hiato que dura desde a década de 60, almejava ser "dona" de toda a informação mundial, patrocinando ataques terroristas e outros eventos que justificassem tal controle. A produção esquece de nos convencer de ter medo de Spectre, no entanto. Os ataques criados por Silva (Javier Bardem) em Skyfall, como a explosão de um MI-6 em pleno funcionamento, tiveram muito mais impacto do que a explosão de um prédio ex-MI-6, marcado para demolição. Spectre é tão má que derruba prédios abandonados? Ok, Madeleine estava lá dentro, porém, uma organização tão poderosa poderia se dedicar a mais.

Não há tensão em torno das votações para a criação de uma agência de inteligência única, apesar de outra escolha talentosa de ator liderando essa vertente (Andrew Scott, Moriarty da série Sherlock). Os ataques terroristas de Spectre não geram qualquer catarse, afinal, sequer são mostrados. O filme entra para o Guiness por criar a maior explosão real em filmagens da história do cinema, e esse é o maior impacto que a explosão consegue ter.

No final, fica o gosto de "não é um Skyfall", junto à dúvida sobre a participação de Daniel Craig no 25º filme de 007, seja por entrevistas e definições do ator, seja pelo caminho seguido no roteiro. A decisão dirá ainda mais sobre o que é Spectre. Continuar com Craig (por mais que eu goste do ator) é ratificar a pouca relevância do filme, que deixaria de cumprir ainda mais promessas. Por outro lado, o número "25" dá a dica do tamanho que o próximo longa da franquia terá. Desafio digno de um James Bond.


Yann Rodrigues

Atleta de videogame, admirador de obras mais do que de autores, por vezes coloca as ideias na tela. Colecionando perspectivas da vida no http://alemdoroteiro.com.
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